grant_devolson_wood_-_american_gothic.jpg

Por Ivan Pessoa

***

Em uma obra de 1939: “The New England Mind: the seventeenth century“, o historiador Perry G.E. Miller observou algo que espanta pela atualidade. Em análise aos Puritanos da Nova Inglaterra (populares, sobretudo, pelo fervor e pelo fanatismo religioso) Miller constatou um fato curioso. Diferentemente das demais congregações religiosas: focadas nas benesses materiais em primeiro plano, os Puritanos logravam espontaneamente êxitos tanto militares quanto pessoais, ou seja, sem aquela preocupação diária – comum em uma teologia da prosperidade, facilmente entoada (ainda hoje) em qualquer igreja de ponta de esquina. Surpreendentemente, como alguém pode ser bem sucedido sem se desesperar; sem o mínimo de preocupação aparentemente demonstrada?

Eis a pergunta que Miller e todos os demais curiosos da época, provavelmente, externavam. Como consequência e, por extensão, como resposta: o historiador pode constatar que o ‘cultivo de uma gradual indiferença em relação ao mundo‘ seria o elemento distintivo dos puritanos da Nova Inglaterra. Em circunstâncias atuais, as recomendações de Miller pareceriam – no mínimo – risíveis, entretanto, apontariam para a mais crucial das grandezas espirituais: o distanciamento seletivo, cujo foco é buscar gradualmente aquilo que é necessário em detrimento das questões acidentais. Quanto mais se almeja humildemente o que é necessário (seja no plano material, quanto na esfera espiritual), mais a ordem hierárquica da realidade se descortina, ajustando tudo à sua respectiva finalidade. Tal recolhimento, como diria Xavier Zubiri, faz descobrir uma ‘solidão sonora‘, como uma plena consumação do homem com Deus. A bem da verdade: apenas isso é exemplarmente necessário, enquanto tudo mais é acidental.

Saber estar só, e, sobretudo, cultivar uma autodescoberta (voltada ao poder evocativo da palavra em oração a Deus) é algo inesgotável e que, em longo prazo, harmoniza o espírito humano à realidade e aos seus semelhantes. Esvaziar-se às duras penas de qualquer intervenção danosa à assimilação de si mesmo: até alcançar a ‘solidão sonora‘ e um senso inabalável de fé, transcendendo resignadamente às atribulações interpostas pela vida, eis o que aproximaria um puritano da Nova Inglaterra a um homem sábio em qualquer período histórico, aliás, eis o que aproximaria o homem da eternidade. Dessa observação é que faço sempre a mesma pergunta: ‘como alguém – resistente à descoberta solitária de si mesmo; e ao poder da fé silenciosa – pode comungar em uma Igreja?’

Como uma pessoa, envolta em tanta confusão sobre suas próprias mentiras, pode afirmar: ‘já estou salvo‘ e logo em seguida censurar descaradamente os que não o seguem? Fazer isso é descobrir que a confissão, ou como diria Gurdjieff: a incansável autolembrança, é indispensável à vida religiosa; caso contrário é fraudulenta e danosa a quem a professa. Exercitar tal voz interior, em meio à ‘solidão sonora‘ em prece, seria alcançar o estágio supremo da aceitação da vida, resignável à observação de que a palavra vibra e realiza prodígios: “E, tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis.” (Mateus 21:22) Transcorrer esse processo ( da ‘solidão sonora‘ à confissão, e vice-versa) é determinante para quem pretende verdadeiramente encontrar a paz de espírito e sua finalidade última (o hinduísmo sugere esse caminho na doutrina das quatro ‘puruṣārthas‘). A aceitação de que o curso do mundo real é indiferente, e de certo modo, regido por leis exteriores à simples observação, tende a favorecer a quietude ou a revolta; constatáveis na presença de alguém em diálogo. Nesse âmbito das relações humanas, nada denuncia mais a compreensão de alguém acerca dessas questões que a escuta; frequente em quem, ciente dos limites de seu entendimento, é capaz de corrigir ou sacrificar a si próprio perante um interlocutor. Em uma proporção diretamente inversa: nada denuncia mais o desencontro consigo mesmo que o falatório, seja em uma conversação (dificultada por quem se pretende o mensageiro de Deus, ‘Malaquias 3,1’); seja no espaço público: com seus transeuntes, ideólogos e salvadores da humanidade. Desta forma, o intervalo que há entre a humildade da escuta e a presunção do falatório é o mesmo que separa a verdadeira fé dos que ‘cultivam a indiferença em relação ao mundo‘ da impaciência inconfessada dos ‘escolhidos‘. Como penso que determinadas questões revelam antes a dimensão de um caráter, o melhor meio de descobrir a validade de um discurso pretensamente ético-religioso é enquadrá-lo no bojo da questão endereçada certa vez ao Cardeal Carlos Lavigerie: “- Monsenhor, o que faríeis se esbofeteassem vossa face direita?” Em resposta, o cardeal titubeou: “- Sei exatamente o que deveria fazer, mas não sei o que faria.” Imaginariamente, se a pergunta fosse feita para os personagens de Miller, sei bem o que diriam os velhos Puritanos, mas não me surpreenderia que os novos gaguejassem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s