Para uma melhor compreensão sobre a posição decisiva de Cézanne na arte contemporânea, recomenda-se a leitura do seguinte ensaio: https://apalavradescoberta.wordpress.com/2015/05/15/cezanne-encadeado/

Por Ivan Pessoa

§1

Cada dia que passa, e ainda mais revigorado; o envaidecido prognóstico de Paul Cézanne se confirma: “Pintor como eu, só de dois em dois séculos.” Entretanto, como veremos a seguir, isso tem uma razão de ser. (…)

§2

Ambroise Vollard, um dos maiores marchands do finissecular XIX, conta que, por ocasião do regresso de Renoir da Itália, o pintor fora à Midi visitar Cézanne com um amigo. Este último, acometido de uma diarreia, pediu algumas folhas para se limpar. Em meio à embaraçosa situação, e em um tom testemunhal escreveu Vollard: “Era uma das aquarelas mais perfeitas de Cézanne, ele a havia jogado no meio das pedras depois de ter trabalhado nela como um escravo, durante vinte sessões.” (Ambroise Vollard, ‘Renoir: a intimate record‘, 1925).

§3

Desde aquele fatídico encontro – via inesperada concessão – a arte se desprendeu tanto; recusando-se a aprimorar seus próprios limites, a ponto de se tornar tão portátil quanto intestina, dai o relativo sentido da frase: “Pintor como eu, só de dois em dois séculos.” O desprendimento de um artista como Cézanne em tal gesto, mutatis mutandis, fez a arte vacilar dois séculos – entre instabilidades e iconoclastas, daí surgindo nomes como: Gustav Metzger, que destruía a obra tão logo a confeccionasse, e David Nebreda, que revolve a matéria de suas fotografias com sangue e excrementos.

§4

O risco que se corre, entre vinte sessões de uma pintura e o imediato desprendimento, é incorrer tanto na preocupante observação de Yves Michaud, quanto revigorar o niilismo: “A arte encontra-se em estado gasoso.” Desse modo, cada pessoa torna-se potencialmente um artista, de sorte que na tentativa de perguntar ao criador sobre o sentido de sua obra, o que pode sobressaltar é a defesa: ‘Ora, mas o que eu fiz é arte, porque tudo é arte.’ Há muito julgo a concessão de Cézanne como a primeira arte efêmera da história, com as esmaecidas inscrições pasteis: ‘Beleza Interior.’ Por extensão, penso no provérbio islandês apropriado por W.H.Auden como o hipotético nome dos movimentos estéticos dos próximos dois séculos, contados de agora em diante: “Todo homem aprecia o cheiro dos seus próprios gases.” Fatidicamente, e em um futuro bem próximo; algum marchand como Vollard, escreverá louvores, recepcionando assim o movimento estético gasismo: ‘A passagem de uma substância do estado sólido para o estado gasoso, eis o que chamaríamos de sublimação, mas poderíamos chamar inconscientemente de obra de arte.’

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