Nunca as ideais se moveram com maior graciosidade: ‘hay estilos de pensar que son estilo de danzar.” (Octavio Paz)

Por Ivan Pessoa

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Para os gregos, a arte mais próxima do sacrifício seria a dança, cujo ápice de sua trama sacrificial é o assombro, ou melhor, a justa medida entre o delírio e o encantamento; efeito cadenciado suficientemente capaz de conceder ao espectador, uma intuitiva compreensão do mundo. Como uma metáfora ao plano intelectivo, portanto, à esfera do pensamento – a imagem da dança revela a súbita intuição (pratyaksha) da realidade, como a passagem da caótica mobilidade ao centro que a sustenta.  Portanto, em todo caso, a dança manifesta o centro e o equilíbrio daquele que busca a Verdade, desde que minimamente intuída em si mesmo. No último grau de sua leveza; no embalo intuitivo de sua demonstração, a ideia dança como a apreensão imediata da realidade, tornando-se um salto, um sobrevoo, afinal: “O intelecto é o mais veloz dos pássaros.” (‘Manah javistam patayatsu anah’ – Rig Vedas. VI. 9-5).  Como o ritual indiano do Kathakali – dança intelectiva sem palavras, que se consuma por meio de leves movimentos das mãos (mudras) – a grande Ideia é aquela que convida à intuição, muito além do arranjo racional e suas contra-provas. 

Se a cadência é a pulsação física da dança – preservada no seio dos argumentos – a grande Ideia é aquela que cadencia e leva o destinatário à súbita intuição, conferindo-lhe uma apreciação da realidade sem o constrangimento da incerteza; seja por um viés especificamente estético, filosófico, seja sob os auspícios científicos. Apreender na cadência dos argumentos: a Beleza, o Bem e a Verdade, é atestar a certeza de John Milton, para quem: ” as ideias são musicais como a lira de Apolo.”  No último grau de seu encadeamento – à maneira do cavaleiro que se confunde com o cavalo: a Ideia dança. 

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Kathakali: a dança da intelecção.

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§1

Um critério judicioso para determinar a viabilidade de uma ideia seria concebê-la como cadência, ritmo, aliás, como a possibilidade de uma dança. Deste modo, a vitalidade desta ideia implicaria dançá-la, suspendendo assim seu próprio peso em busca de equilíbrio. Desde já, toda leveza seria não apenas indispensável, mas criteriosa, exaltando apenas a apoteose do que sobressalta e cadencia o passo. Sob qual alento se sustenta aquilo que, de tão denso e brumoso é incapaz de soerguer-se melifluamente ou manter-se em pé? Por que confiar nossas certezas àquilo que não sobrevoa leve desde o espírito, impedindo-nos a intuição? Como alguém pode inflamar-se por ideias que, incapazes de sobrevoos, não convocam seu arauto à dança, ou quando não, inviabilizam-na? A rigidez, a imobilidade, a face inorgânica das coisas mortificadas: tudo o que não se suspende sobre si mesmo, e é incapaz de revitalizar-se, é senão o contrário daquilo que é concebível em baile, de sorte que aquilo que dança: revigora e percute a terra. Por este critério, a ideia exemplar que renova a vida, é a mesma que nos convoca à dança, indicando –  por vias análogas à caminhada – o espetáculo do mundo.

 

§2

 

A leveza está para o espírito, na proporção mesma em que a dança está para o corpo, e disto são feitas as grandes ideias, capazes que são de insuspeitados vigores. Permitir-se leve, em qualquer circunstância, é o critério para renovar-se; sobrepor-se. Como Amiel em seu Diário Íntimo, pergunto: ‘Quem de nós não teve, ou terá, sua terra prometida, seu dia de êxtase e seu fim no exílio?’ Eis a condição humana em três atos, cuja dança e, posterior lembrança, é precisamente a provisão do espírito para o último degredo, de sorte que isso reabilita a vida. Recordá-la, e corrigir interiormente suas próprias ideias perante a leveza das que se sustentam em pé durante séculos, é o critério para sentir-se decisivamente vivo: renovo. Só os tiranos, por não saberem da dança os seus segredos, pretendem-se incorrigivelmente certos ou imóveis às suas próprias ideias, com efeito, só se conserva aquilo que muda, cresce, se modifica ou baila.


§3


Vivaldi, cuja autoindulgência não sossegaria até corrigir o mesmo concerto quatrocentas vezes; face os critérios musicais da eternidade, talvez confiasse a si próprio uma certeza: ‘Preciso ajustar-me à leveza!‘ Com tal exigência, e em outro plano, Béjart nos anos 60, converteria As Flores do Mal de Baudelaire em um balé fantástico e onírico; reapropriando-se do poeta francês, passados uns anos, em outro espetáculo – com as seguintes palavras: ‘A música às vezes me arrasta como o mar.’ Entre ambos, vejo o esforço humano em jamais se exaurir em um exílio (auto-infligido), de sorte que, aquilo que não sucumbe; por ser leve, insinua potencialmente uma dança: renova a vida.


§4


A musicalidade de uma ideia e, consequente estado de dança, eis o que deveríamos conservar no curso de toda existência, o que nos faria alternar – equívocos e descobertas. Elevada ao nível da dança, a vida: enquanto ideia – resulta em outras possibilidades, para além da apreensão conceitual. Um dia, antes de morrer em seu autoexílio – vítima da própria elegância e da echarpe que, ao prender-se às rodas do conversível, acabaria por lhe asfixiar – , a dançarina Isadora Duncan escreveu em seu livro de memórias (‘My Life‘, 1927), que buscava inspiração para a vida, e por extensão ao seu ballet, entre a leitura da ‘Crítica da Razão Pura‘ de Kant e o estado de graça de um copo de leite. Charles Du Bos, em seu Journal, vendo nos menores gestos da dançarina, a decifração de enigmas, escreveria: ‘Como Nietzsche se haveria sentido feliz ao ver tudo isto!’ Ademais, Paul Valéry veria em suas coreografias: ‘o ato puro das metamorfoses.’ Deste último cabe ressaltar: ‘a prosa é marcha e a poesia é dança.’ Supor em Kant, Nietzsche, Du Bos e Valéry os rumores da leveza (mensurando-a pelo vigor alentado, e para além dos conceitos prosaicos), é desdobrar – desde a insinuação de suas palavras: um corpo de baile. Eis o critério para revigorar as ideias, cujo esforço – em outras palavras -, seria: investi-las em dança. (Se não podes dançar, resta reduzir a vida a conceitos. Ademais, já que não sabes bailar, por que não viver no plano da leveza, criando meios para que alguém dance alegoricamente tuas ideias?)

 

§5

Pelo critério anteriormente aludido, algumas ideias marcham trôpegas como rebanhos a caminho do último exílio, com seus acadêmicos a pastoreá-las. Outras, cadenciam intuitivamente instantes, num canto de dança: entre a queda e a consagração. Enquanto a música arrasta para o mar, e por sobre ideias, em linhas gerais: só deveríamos preservar o que por dentro ainda é leve, e que – por estar vivo – desafia as turbas e as ondas: ‘Sabes dançar?’

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Mevlevis: a dança sobre o próprio eixo .

 

Um critério razoável para atestar a analogia da dança como uma imagem para as ideais, seria sopesar as palavras de Julien Benda em seu: ‘A traição dos intelectuais‘: “os pensadores ‘ex aequo’ (com igual mérito) são dervixes dançantes.” Em outras palavras, enquanto as grandes ideais e grandes pensadores dançam por entre suas ideais, renovando surpreendentemente a possibilidade de apreendê-las; aqueles últimos simulam uma dança – mas incapazes de transcendência – giram ao redor do próprio eixo; sem sair do lugar. Mutatis mutandis, os mevlevis são sua melhor expressão:

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2 comentários sobre “A Ideia dança

    • Olá, caríssimo Marcos Ramon! Seja bem-vindo a este singelo espaço de solitárias divagações. Sempre que postas, acompanho entusiasticamente teu blog também, mais especificamente o teu podcast! Não por acaso és o Arcano V, o arquétipo da autoridade intelectual. Fico feliz pela visita. Abraços.

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