As narrativas alegóricas contam a história do fracasso de ler.

(Paul de Man: ‘Alegories of reading‘, 1979)

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Por Ivan Pessoa

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§1

 

Quando uma obra de ficção é escrita e interpretada tematicamente, ou seja, com aguçado senso ensaístico-filosófico, o que se lê é tão súbito quanto um oráculo. Como surge de uma fonte alegórica ancestral, crescente ao redor dos mitos: o mandamento, a parábola, o aforismo e a profecia são – não apenas oraculares, mas igualmente esquemas filosóficos condensados a partir do isolamento de que as produz. Em linhas gerais, o que se anuncia em tais gêneros é o anseio ao oracular, ou seja, indício da busca humana por uma orientação superior a partir de uma fonte espiritual, suficientemente capaz de não apenas ultrapassar a pequenez amesquinhada da rotina cotidiana, mas convocar a uma decisão da alma. Portanto, o caráter oracular da literatura, constante em sua forma ensaística-filosófica, tem como objetivo a transfiguração do cotidiano em busca do sentido da vida.

Em outros termos, mas ainda assim preservando relativa proximidade com o elemento filosofal ou oracular da literatura contemporânea, o crítico Gaëtan Picon elencou: “O romance em Proust é uma confidência; em Gide, uma hipótese; em Joyce, uma aventura da linguagem; em Lawrence, uma educação, e em Kafka, um símbolo metafísico.” Ora, o que almeja o crítico, senão reforçar que Kafka é o mais ensaísta ou oracular entre seus pares? Não seria Kafka o oráculo da literatura ocidental, apequenada desde o Holocausto? Conservando o espanto de sua recepção, certa vez Camus escreveu em seus Carnets: “Toda a arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler. Suas conclusões – ou suas ausências de conclusões – sugerem explicações que, no entanto, não parecem claras, e exigem que a história seja relida sob um ângulo novo, para parecem fundadas. Há, algumas vezes, uma dupla ou uma tríplice possibilidade de interpretação, conduzindo à necessidade de duas ou três leituras. Errar-se-ia, porém, ao querer tudo interpretar, detalhadamente, em Kafka. Um símbolo participa sempre do geral e o artista dele dá uma tradução em grosso. Não há palavra por palavra. Só o movimento é restituído. Quanto ao resto, trata-se da parte do acaso, que é grande em todo criador.

O símbolo metafísico, o fracasso do ler e a incapacidade conclusiva, respectivamente pontuados por Gaëtan, Paul de Man e Camus acerca da obra de Kafka, circundam ao redor daquilo que Northrop Frye compreendeu em sua ‘Anatomia da Crítica‘ (1957) como imagem demoníaca; frequente na kafkiana equivalência sinistra de figuras geométricas, com seus corredores, portais, limiares e castelos, remissivos simbolicamente às entranhas sinuosas de um labirinto. Como o agrimensor em ‘O Castelo’, que percorre suas circunvizinhanças sem jamais esgotá-las, em Kafka a desesperança cresce ao redor de insuspeitado mal estar, cujo tema filosoficamente possível é a derrota perplexa do engenho racional.

Enquanto sua trama é a percepção simultânea do malogro da existência burocratizada, seus personagens são apequenados e nada grandiosos, o que nos termos aristotélicos da ‘Poética’, compreenderíamos como ‘phaulos’, ou seja, nem acima nem abaixo da experiência cotidiana, portanto, demasiado comum ou ordinário.  Sendo um autor de personagens comuns – longe dos arroubos e gestos do herói clássico, e, sobretudo, inferior em poder ou inteligência àquele, Kafka é o típico pensador do homem autodepreciado, cuja assimilação convoca-nos ao conceito de ‘ironia’ na ‘Ética’ de Aristóteles. Por meio desta técnica, que põe o personagem em uma posição dantesca e absurda, a ironia costuma dizer o mínimo e significar o máximo (daí seu apelo paródico ou análogo) destacando as palavras ou afirmações diretas da experiência real até o estabelecimento de ideias e teorias (ligeiramente filosóficas) que, por meio da derrota iminente do personagem, não apenas retrata a vida do mesmo modo que a encontra: caótica, indiferente e convulsa bem como esboça um ensaio teórico sobre a decaída condição humana.  Como um ironista, que reflete o estado de coisas do mundo moderno, Kafka deprecia o homem anônimo das multidões, aquele que outrora descrevi como o homem que nada vê: https://apalavradescoberta.wordpress.com/2015/04/21/notas-sobre-a-mediocridade/

Isolados da sociedade, por que presos em um labirinto; acotovelados entre vitrines, modas e fracassos, os personagens kafkianos não são nem culpados nem inocentes, daí a ironia da vida moderna, na qual o êxito de uma vítima é a apiedada compaixão. Desta forma, por ser um homem cotidiano – sem lapsos de grandeza, e, ademais, por ser (em tese) vítima de uma trama desconhecida que o confina em um labirinto domiciliar, o anti-herói kafkiano manifesta a característica de um personagem enfraquecido, caniço – convocando o leitor; por um recurso retórico cuja expressão Aristóteles chamaria de ‘pathos’, a um compadecimento mútuo que indicará um resíduo especular de nossa própria condição. Caracterizando-se pela mudez, pela lágrima copiosa, pelo trabalho exaustivo e pela sofrível incompreensão, o ‘pathos’ representa a exclusão (jamais revelada) de um indivíduo de seu constitutivo grupo social, ridicularizando-o à certeza de que a vida é indiferentemente patética e lamuriosa.

 Na busca por perguntar: ‘- Qual o sentido da trama kafkiana em meio ao labirinto imaginário da burocracia estatal e suas figuras insectas?’ o que surge é a tanto a certeza de algo incomum para a literatura, afinal sua trama é absurdamente confusa e inacabada, quanto a sub-reptícia insinuação de uma ideia tematicamente filosófica, jamais desenvolvida. Isolando-o, ou seja, tornando-o potencialmente vítima de uma ordem desconhecida, por onde ressurge o engenho labiríntico, o veio temático alterna um recuo satírico que menoscaba a capacidade racional do homem (representado pelo protagonista asqueroso da ‘Metamorfose‘, por exemplo) em meio às entranhas arcaicas e geométricas do labirinto moderno, conduzindo-nos à clareza de que, inconvenientemente, a realidade (contrariando o cartesianismo reinante) é menos racional do que poderíamos supor. Com este rumor temático, de viés satírico, a pergunta que se reclama é: haveria melhor meio de esboçar uma ideia filosófica que mencioná-la indiretamente, ou seja, torna-la pilhérica e transversal, cujo intertexto se dá por meio do absurdo, do irracionalismo e do fragmento? Não haveria em Kafka, uma deposição irônica do ímpeto iluminista, quiçá, mais bem criativo que todas as vanguardas posteriores?

Ao imaginarmos o personagem kafkiana, imediatamente apreendido em seu próprio domicílio interior, e logo em seguida, o empenho em empreender fuga daquele ardiloso labirinto cotidiano, o que sobressai é a temática da derrota perplexa com seu senso de absurdo. Ao desaparecer o herói em tal panorâmica (indício de uma crise espiritual, vigente na modernidade), o que se antepõe é a figura satírica, por que filosoficamente viva de um personagem que é a paródia do romanesco com seu apelo triunfal e apoteótico. Por meio de uma apreensão e de uma análise crítica acerca das características desses personagens assombrosos; do inusitado de despertar diante um labirinto impessoal como em ‘O Processo‘; da impossibilidade de narrar o inusitado como na ‘Metamorfose‘; da indiferença do mundo real – todos esses elementos nos inserem em uma narrativa cujo gênero irônico, ao modo de uma sátira e sua reserva não heroica da tragédia, é a aclamação filosófica ou metafísica do desaparecimento do heroico e consequente ruína da grandeza humana, de onde se lê insinuantemente como em epígrafe ao acumpliciado leitor Max Brod que somos: “Existe esperança – esperança infinita, mas não para nós.” Endosso daí o vulto sátiro-filosófico da trama kafkiana: desde a modernidade o homem se vê em um grande labirinto cuja orientação teórica confina-o à imanência da história, da classe social, da raça e do élan sexual. Como quem nos advertisse, à maneira do uivo desesperançado de Baudelaire, para quem o progresso atrofiou em nós tudo o que havia de espiritual, em Kafka a modernidade é a arruinada paragem do anonimato; da morte sem salvação; da patética vida protocolar.

O meio de aguçar estes símbolos imagéticos, dentro da narrativa alegórica, e no contexto do universo kafkiano : satírico, pois que filosófico, se dá a partir do usufruto da metáfora; figura de linguagem que, de posse da semelhança ou analogia, vincula extraordinariamente propriedades distintas de um mesmo objeto. Deste modo é que se pode aludir a estrutura alegórica a uma metáfora narrativa (como a criatura da Metamorfose), símbolo encadeado que manifesta um campo imagético inesgotável, capaz de assim representar uma incômoda condição de visibilidade grotesca. Aguçando assim, a capacidade intelectiva daquele que lê, a narrativa alegórica e seu conjunto de metáforas, enseja ao leitor uma partilha de análogos às situações cotidianas, o que dá a esse gênero literário, uma riqueza paradoxal, de modo que encanta sem ser suficientemente compreendido. Em linhas gerais, daí o sentido oracular da grande obra literária, apreensível desde Kafka como a súbita apreensão do absurdo da existência humana, acossada pela bestialidade burocrática, em alguns casos – como em ‘A Colônia Penal‘ – similares em tudo ao drama judaico no Holocausto .

Em um nível paródico à tragédia clássica, Kafka representa a autoria de um gênero satírico ou filosófico, alusivo a um inferno de círculos concêntricos que se espreitam e culminam numa visão que é fonte de todo fracasso, expressão de um caminho apocalíptico em um mundo historicamente arruinado, daí a impossibilidade conclusiva reclamada por Albert Camus. Ora, desse fracasso alegórico, filosoficamente remetido à modernidade, não apenas a derrota do indivíduo perante a máquina estatal e sua onipotência, como em ‘A Colônia Penal‘ se deixa depreender, mas uma clausura à realidade se anuncia altaneira, convocando o mesmo indivíduo à acovardada vida cotidiana, frequente desde a observação de Hamlet: “A consciência nos converte a todos em covardes.”.

Ademais, em Kafka a alegoria filosófica – ao modo de seu entusiasmado leitor, Camus – é uma singela denúncia dos descaminhos impremeditados do projeto humano construído desde a modernidade. Ao observar o infortúnio do recorrente protagonista K., o leitor; ainda que pouco familiarizado com o intercurso filosófico da modernidade, se vê acossado em uma trama narrativa não apenas claustrofóbica, mas alegoricamente remissiva ao período histórico posterior à Baixa Idade Média. Encaminhando a leitura à sensação hesitante e amedrontada cuja consagração filosófica seria a dúvida metódica cartesiana e o tribunal da crítica kantiana, quiçá o labirinto irredimível mais danoso ou malévolo ao qual se destinariam as visões humanas nos séculos vindouros, Kafka menciona a fantasia e o entusiasmo da própria literatura como lenitivo aos excessos do racionalismo científico, insinuando, portanto, um recuo à imaginação mito-poética, à maneira daquele que, desesperançado, ainda espera pela decisiva ‘Mensagem Imperial’ de um Salvador:Mas, sentado à janela, tu a imaginas, enquanto a noite cai.”  Com efeito, em um mundo cientificamente cego: “Tudo o que não é literatura me aborrece.” (Kafka) Se elevássemos essa observação ao desdobramento histórico dessa filosofia labiríntica, que se inicia com a crise do medievo e nascente modernidade – veríamos o revigorado racionalismo consumar-se em um niilismo exasperado; entre a gratuidade da existência, o tédio e o suicídio; atualizável pela dúvida de Montaigne: ‘O que sei?’ (‘Que sais je?’).  O que se sabe desde Kafka, afora o fato de que um dia, Descartes acordou de sonhos intranquilos como Gregor Samsa, e metamorfoseado em dúvida, desconstruiu São João Damasceno (‘Penso, logo É‘) em nome de um pretensioso, e não menos doentio: ‘Penso, logo existo‘ ? Desde então, tudo mais é labirinto.

Passados os rumores desses passos denunciados neste oráculo tenebroso, porém real, e folheando minuciosamente as origens filosóficas de sua construção, eis que encontro Kafka redivivo, alguém cujo maior logro é insinuar incompletos ensaios filosóficos em alegorias entrecortadas. A propósito, em agosto de 1912, ao entregar os manuscritos de ‘Contemplação’ ao editor Kurt Wolff, Kafka se referiu aos textos da seguinte forma: “Aqui apresento a prosa pequena, que o senhor gostaria de ver; decerto ela já perfaz um livro.”.  Dali se insinuava a expressão: ‘prosa pequena’ (‘kleine prosa’). Por fim, partindo da brevidade irônica do estilo kafkiano, capaz de condensar tratados filosóficos em alguns parágrafos, não hesitaria em ver a literatura – desde Kafka – como o oráculo angustiado de uma prosa pequena, constatável desde a observação  de um dos seus primeiros defensores, o crítico austríaco Otto Maria Carpeaux: “Os maiores escritores do século XX foram Joyce e Kafka.” Sem que Carpeaux suspeitasse, a prosa pequena daquele século ainda perfaz ironicamente o livro de nossa tragédia. 

 

 

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