Por Ivan Pessoa 

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“Hoje, ao ler em silêncio Hervé Bazin, decidi rabiscar estas palavras…

Em uma batalha campal, um indivíduo que contrariasse os entreveros do combate – e se pusesse a escrever aquilo que seus olhos viam – certamente se destacaria como um ponto final no centro de uma folha em branco. O que levaria um homem a escrever, no desenrolar de um evento belicoso, entre escombros? Ou para ser mais preciso: o que leva alguém a escrever? Por que não se lançar perante os inimigos e empunhar decisivamente baionetas ao ataque, a contrapelo da pena, úmida de tinta?

Enquanto os corpos se amontoam, empilhados, o mesmo homem permanece em alheamento, documentando a matéria dos fatos. Aquilo que seus olhos veem, cristalizam-se pontualmente nas imediações da pauta. Um soldado que perguntasse intrigado: “ – Por que escreves, já que é célere a guerra? ”, poderia ouvir oportunamente:       “- Eu escrevo para conservar, de um modo substancial, as coisas que passarão. ”

Dentre outras possibilidades, a escrita talvez seja, tão somente, a tentativa humana de sedimentar verbalmente experiências: em um tempo qualquer, em algum lugar. Desse modo, não seria a crueldade extraordinária da guerra o fato mais importante, e sim a encorajada serenidade do cronista em codificar a sucessão do episódico combate. Soldados que tombassem, estratégias que fossem implementadas, só tornar-se-iam definitivamente significativas, se alguém apressasse sua atenção à captura do ocorrido, descrevendo assim a fatídica catástrofe. Em estado puro, a guerra é apenas mais um episódio dantesco, em meio às inúmeras experiências humanas, entretanto, quando narrada torna-se grandiosamente épica, afinal pode amontoar curiosos ouvintes à escuta e à compassiva partilha.

 Como um corpo, em estado fóssil, a palavra escrita conserva a substância inteira do passado, deixando escapar, a posteriori, a revelação de algo insepulto. Sendo assim, escrever se torna a atividade mais prospectiva da alma humana, sem a qual, o tempo como narrativa histórica não se posterga e nem mesmo se efetiva.

Ao debruçar sua atenção à pauta, em meio ao belicoso estado de guerra, um cronista quer, sobretudo, petrificar o sentido daquele fato, não à imediatez do tempo vigente, mas legá-lo ao porvir. Não lhe interessando exclusivamente a receptividade de seu tempo, endereça cartas aos pósteros, tal qual aquele que arremessa garrafas ao mar. Se instigado novamente por seu contemporâneo de infantaria, a melhor resposta seria aquela que assim soasse: “ – Eu escrevo não para os mais céleres e indiferentes, que decerto não compreenderiam meus apelos, e sim para os vindouros, aqueles que nascerão. Não me interessando, portanto, a incompreensão de meus coetâneos, medeio o passado e o futuro, tão somente com a ponta de minha pena. ”

Ora, o que faz alguém que escreve, senão catalogar ou arrazoar as coisas que vê, por vezes, sem a mínima compreensão de seu tempo? A hostilidade da vida que escorre ao redor, como em qualquer front, envolve – aquele que escreve – nas imediações de uma guerra decisiva. Não é outra a natureza da escrita, senão a de uma árdua e agônica luta verbal, entre a exterioridade do tempo e a interioridade do Eu; entre a fugacidade do instante e os limites para apreendê-lo. Entre ambas, uma acirrada sobreposição de forças anuncia o nome de um vencedor, revelado que será ao bel-prazer da história. O que escolher, entretanto, o apelo de Nietzsche (‘Somos sempre louvados ou negados, jamais compreendidos’) ou a angústia de Elsa Triolet (‘Há uma perpétua disputa entre a linguagem e eu’)? No entrevero dessa batalha particular, só quem vence é o leitor, no instante mesmo em que se assombra, ao confrontar a atualidade do que lê com a realidade ao derredor.

A bem da verdade fico com a impressão de que só o mistério de um prazer sereno acomoda, em pausa, as pretensões de quem escreve, o que me faz recordar, por uma terceira via, a sensatez de Rilke: ‘Felizes os que sabem que por trás das palavras, permanece o indizível.’ Por mais que alcance níveis inimagináveis de precisão, um testemunho literário jamais esgotará a especificidade de um fato, apenas lapsos de possibilidade, condicionado que está à imaginação daquele que lê. Em uma gradação poética, até o silêncio das palavras intranquilas de Chalamov em Kolyma corrobora com a tese de que, a verdadeira escrita, por ser potencial, convoca à mútua cumplicidade de um acordo tácito entre quem escreve e quem lê, de modo que a verdadeira atividade literária é uma linha tênue entre o prazer solitária e o desespero. No entrevero da guerra desassossegada, entre aquele que escreve e a folha em branco, a beleza das coisas inauditas transborda perante aquelas que permanecerão impressas à espera de um decisivo leitor.

Em tese, cabe ao leitor preencher os desvãos daquilo que lê, o que lhe exige, dentre outras coisas, alhear-se em comunhão com o autor, acumpliciar-se. Recolher-se à leitura de um testemunho, algo que eleva a capacidade imaginativa, só é possível com uma condição mínima, qual seja: da extrema objetividade daquilo que é lido, o que envolve o texto a um apelo sub specie aeternitatis, às voltas não com o presente, mas como a eternidade, ou seja, com a possibilidade de ser recriado pelo leitor em um tempo indefinivelmente impreciso. Daí a mais crucial das perguntas: por que ainda se faz oportuna, a leitura da Odisseia, senão como atestado deste alcance último da objetividade da palavra escrita, constante na expressão de Claudel de ser aquela narrativa, a fonte e origem de toda linguagem? Do mesmo modo, e na direção contrária: por que nascem datadas as obras de ocasião, senão como expressão de um tempo qualquer; como o batalhão passadista das vanguardas?

O êxito de algumas notas rabiscadas – em meio ao contencioso da guerra, real ou imaginária – só se efetiva quando anula todo subjetivismo em nome da inteligibilidade das coisas apreensíveis pelas palavras, o que faz com que o texto lido se atualize, vertiginosamente; assegurando àquele que lê, uma súbita compreensão sobre si mesmo. Ao se dar conta que a dor de Jó; não por acaso apropriada por Goethe no prólogo de seu Fausto, esgota a metáfora de todo sofrimento humano, um leitor, em qualquer tempo ou lugar, suspende sua circunstância histórico-pessoal a uma comunhão empática, tornando-a uma decisiva referência. Desse modo, é capaz de verticalizar sua imaginação a um reino não muito preciso, onde uma profusão de personagens vive inteiramente como estados de espírito, como um análogo relativamente próximo ao seus dissabores cotidianos.

 Um relato, uma confissão, um pequeno parágrafo; forjados no árduo fazer literário – da pauta em branco e a palavra por ser dita – só são lidos confiavelmente quando apropriados por um leitor qualquer, o que, com efeito, seria a passagem do tédio ao esplendor; remissiva à recepção dos contemporâneos de Mallarmé à sua poesia: ‘Uma flor nas trevas. ’ A quem endereça suas missivas, em pleno estado de guerra, o cronista que desconhece os dias que virão, os reinos e os homens do amanhã? Não dimensionando o que escreve à acolhida de seu tempo, comunica suas impressões à curiosidade de um leitor derradeiro, e não menos providencial, sem o qual todas as possibilidades de fuga se esgotam. Aquele que o lê, ainda que sufocado pela incompreensão de seu tempo, rega corajosamente uma flor nas trevas, cultivando-se a despeito da desertificação.

 Hoje, um dia qualquer, que naturalmente poderia ser qualquer outro dia, eis que escrevo estas palavras, motivado por uma insólita revelação. Sendo intenso o front em que labuto, tomo Hervé Bazin e o ponho ao alcance das mãos. Folheio atônito sua cadência, ao descobrir aquilo que possivelmente poderia figurar como o sentido maior da questão anteriormente referida: “ – Por que escreves? ” Meus olhos correm ao largo e me elevam, distanciando toda curiosidade a um salto imaginativo, ao alcance da mais objetiva das respostas. E o que vem é tão somente uma voz em silêncio, a descoberta de uma verdade:  ‘ Escrever, afinal de contas, é comunicar aos outros que eles não estão sós. ’ Quem, dentre os autores – em um campo de batalha – morreria angustiado em sua própria solidão literária, se imaginasse as mãos compassivas de um cúmplice leitor a consolá-lo, entrecortando seu gesto de surpresa com uma confissão: ‘- A escrita pode mudar o curso de uma guerra ou o percurso de uma vida. Sem suspeitá-lo, mudaste a minha? ”

 

 

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