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(Jean-François Millet: ‘Angelus‘ – 1859)

***

Por Ivan Pessoa

 

Em 6 de dezembro de 1859, Jean-François Millet concluiu uma de suas maiores obras. Tendo em primeiro plano; no centro da tela, a representação de dois camponeses em posição devotada, como quem orasse, Millet chamou-a: “A má colheita de batatas.” Na presença instigante dos amigos Theódore Rousseau e Narcisse Diaz ouviu uma série de perguntas, crescentes ao redor da seguinte dúvida: “Então, aqueles dois rezavam ou se perguntavam por que o campo havia sido tão avaro de batatas?” Oravam por qual motivo, ou melhor, por que oravam? Em seguida, para justificar o estado de serena beatitude da obra, instigada pela fidelidade manifesta dos camponeses, endossaram: “O Angelus, este quadro tem que se chamar O Angelus!” Objetou Millet, até se convencer que empastelara a singeleza do gesto divino em sua tela, ou melhor, a fé em estado de Graça. Aquiescendo à sugestiva intervenção dos amigos, acrescentou à obra – em um tom diáfano e ligeiramente encoberto – o campanário de Chailly-en-Bière (ou de Berthes, segundo alguns), de onde se sustenta os sinos daquela Catedral. Aparentemente simples – o que rendeu a Millet a soma modesta de 1.000 francos; antes de ser adquirida por 800.000 francos-ouro pelo Louvre – a obra é a representação da fé camponesa, expressa pelos rostos baixos e as mãos postadas em oração. Contrastando com a aridez do solo e a aparente desolação, pássaros revoam para outras paragens, anunciando rumores do crepúsculo. Entre o sobrevoo dos pássaros e as mãos camponesas; entretanto, a Catedral aponta para os céus como a compensar a penúria. A Catedral aguça o estado de fé camponesa; singela e simples.

Passados uns anos (como quem depreendesse daquele ‘Angelus‘, o sentido da vida) Van Gogh passou a admirar entusiasticamente o trabalho de Millet, sobretudo, por sua composição amarelada e vivaz dos campos abertos; o que lhe faria manifestar ao irmão, Théo, que passara a conceber a pintura como uma espécie de religião, ou seja, como uma expressiva manifestação de fé genuíno. Como quem evocasse certo preceito hindu, segundo o qual: “O encontro com Deus é o funeral de todos os pesares“, Van Gogh costumava reclamar à pintura, a condição beatífica do Bem, manifesta a partir das sensações efusivas da alegria, do contentamento e da esperança. Como em sua tela, oito vezes refeita: ‘O Semeador‘; à maneira de um discípulo devotado da obra de Millet, Van Gogh apresenta um camponês que parece flutuar em meio ao campo fértil. Como os camponeses de Millet, seu personagem saltitante carrega a fé por entre as mãos.

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(Van Gogh: ‘O semeador‘ – 1888)

No centro da composição amarelada há um caminho perceptivelmente delineado, entretanto, o camponês ignora. Ciente da mística própria à religiosidade, quiçá, Van Gogh insinuasse (desde o centro) uma evocação ao alto, um análogo pictórico ao caminho incidente da luz solar. Entretanto, antes que o percorra, o camponês procura fertilizar as margens do campo, tal qual o peregrino que se procura para além do centro de sua aldeia. Evocando os pássaros crepusculares de Millet, alguns corvos revoam para longe; enquanto uma singela casa (perpendicular ao camponês) amanhece. Por mais que a composição em azul se anuncie imperiosa, compondo o plano de todo campo, o Sol matinal não apenas contrasta com o crepúsculo de Millet, mas incide sobre o espectador como uma anunciação, ou seja, como uma primeira manhã imaculada.

Segundo algumas leituras místicas, em um passado primordial existiam vários sóis que foram abatidos com flechas para que, com tamanho vigor ígneo, não incendiassem as colheitas, sobrando apenas um, soberano; aquele que segundo Sri Bhakti Prajnana é o supervisor do karma, o olho imutável da Providência divina. Portanto, para essas leituras místicas, como renasce a cada manhã, o Sol é o símbolo ancestral da vida eterna, da ressurreição e da imortalidade, cujo centro cósmico é um análogo ao coração, a sede do espírito ou como diria W.B.Yeats: sede do Self; chakra de anahata, pulsante no plexo cardíaco. Em seu ‘Semeador‘, Van Gogh parece aludir à relação analógica entre o Sol e o coração (sede pulsante da fé devota), haja vista, a mão do camponês à altura do peito, sustentando (como o astro no cosmos), o ritmo, a esperança e a vitalidade da colheita. Em todo caso, essa analogia é similar à posição sustentada pela devotada camponesa de Millet que, de mãos dadas, contrasta com seu tímido parceiro com as mãos encobertas sob o chapéu. Direcionada ao coração, a fé é como o sol avivando a semente.

A aparente simplicidade de ambas as obras nos faz perceber que a fé da ordem do espírito – representada pelos camponeses – corresponde à ordem das coisas; com a vitalidade da natureza e o Campanário ao derredor, no que se constata a ausência de rebelião ou mesmo incômodo, de modo que convidam o espectador à serenidade, à concórdia e à paz. Enquanto os camponeses de Millet oram, a despeito da modestíssima colheita, o semeador de Van Gogh faz ribombar em seu peito, o vigor de mil sóis; esperançosos e benevolentes. Entretanto, ainda que aparentemente destoem, há – em ambos os quadros – a presença silenciosa da fé, equidistante no primeiro caso desde o Campanário, e no segundo, desde o sol que cinde um caminho na terra. Fé é a certeza das coisas invisíveis, tal como o sol a romper desde a aurora.

Por mais que Jesus Cristo conceba o singelo grão de mostarda como o símbolo da fé (Mateus 17:20) e William Morris o contraponha, ao dizer que sua fé na futura história da civilização não é maior que um grão de mostarda, ainda assim – por menor que seja – a fé é uma experiência intuitiva, condicionada ao solo daquele que a cultiva, portanto, às esperanças de um único indivíduo em meio às situações inesperadas. Por ser como uma semente, alguns concebem a fé como uma palavra mistificadora e caem à beira do caminho – desencantados e embrutecidos. Outras, brotam no raso terreno pedregoso do fanatismo infértil, e caem: sufocadas, confusas e sem raízes, similares as que jazem mortas sob espinhos, infrutíferas e amesquinhadas. Entretanto, as que brotam em terreno fértil dão boa colheita, cultivadas que são pelo destemor e pela coragem de um único indivíduo que dimensiona a vida como é: complexa, encantadora e redimível, ou seja, sem mistificá-la. Quando cultivada pelo indivíduo que a labora, a fé é como uma semente nobre, capaz de reencantar os dilemas da caminhadas como um apelo à esperança. Ademais, a boa semente é partilhável desde que igualmente cultivada por quem ousar cobiçá-la desde o coração, ou seja, sem nenhum interesse que não o seu cultivo, de modo que, como não faz distinção por ser Graça, urge merecê-la; como o carvão que exaure a si próprio para dar abrigo à luz.

Se a força espiritual genuína cresce no deserto, no sofrimento e na perseguição, a fé individual é o que sustenta essa força, exitosa quando dá frutos. Portanto, a fé é como a chama incandescente em pleno coração; sol em que a luz está plenamente realizada, e ainda que se precipite sobre as circunstâncias, delas, jamais se contamina, pois que se exalta. Quando verdadeiros, os frutos da fé são benevolentes, férteis e compassivos; abundantes em mãos caridosas, mas transferíveis com os pés no chão. Desse modo, nada é mais inumano que ter fé em toda a humanidade, como se para tanto, todos pudessem cultivá-la com seu requisitado sacrifício, afinal para que a boa semente dê frutos, alguém precisa merecê-la interiormente: morrendo para renascer, à maneira da vela que precisa consumir a si mesma para ser luz. A boa semente, aquela que pulsa silenciosa e íntima, é como a fé ensolarada que começa a brotar subitamente em ti.

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