Filosofar é aprender a morrer.”

(Montaigne)

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(Ephraim Chambers: ‘Cyclopaedia – 1728′)

***

Por Ivan Pessoa

 

***

§1

Aquele que conhece a Verdade não teme a morte, com efeito, a Verdade dispõe àquele que conhece, a súbita impressão da eternidade, cuja consequência pessoal são a vida una, a comunhão com o Bem e a espontaneidade do carisma. Neste sentido, e imediatamente contrastante com a descoberta pessoal da Verdade, o temor é uma auto-compensação do Ego que, na perspectiva de não suportar a Realidade, se envaidece por desmerecê-la; à maneira do soldado que sai vitorioso – ao menos para si – porque não ousa arrostar seu inimigo, e à distância supõe vencê-lo. Se o homem é o vazio que tudo contém, segundo o budismo, a proclamação do Ego é – a contrapelo – aquela insuspeitada ilusão de que toda a Realidade é uma impressão humana; o que confere à finitude um sentido minimamente material e biológico, como se a consciência fosse um mero epifenômeno subjetivo ou cerebral, e a morte, a cessão definitiva de seu pleno funcionamento orgânico.

Sustentar tamanho enrijecimento envaidecido do Ego (ahamkara, em sânscrito) é oscilar em um estado confuso entre a vaidade, a indiferença e o desespero, decorrente da própria clausura interior à ordem da Realidade, que por ter atualidade prévia só é acessível por um juízo verdadeiro e uma decisão d’alma: livre e espontânea por conhecê-la, de modo que o medo da morte é o medo da própria Realidade, daí a altivez do Ego. Se cada um de nós é uma possibilidade remota, crescente ao redor do grau de participação no Ser, a plena realização se dá com o irrestrito, imparcial e desinteressado desejo de conhecer, que só se efetiva com a intelecção, ou seja, com a apreensão interior e espontânea da Realidade. Recordar-se da realidade pessoal que nos habita é o sentido da religião, cujo propósito é clarificar os dados da consciência até aclarar seu próprio carisma, sua Graça, concedendo-lhe um senso de coerência integral, à maneira de uma vera religio, uma religação com a Verdade.  

Enquanto as investidas do Ego (jamais contrariado) tendem a matar o eterno no homem, amesquinhando-o face o temor, a indiferença e a vaidade; a experiência sagrada da morte (custeável pela comunhão religiosa e seus sacramentos, à maneira da Eucaristia cristã, cujo Pão e Vinho são o Corpo e o Sangue do Cristo Vivo) se desfaz, fazendo o fiel intuir que o que morre é o corpo, jamais a pessoa. Portanto, como crescemos ao redor do que devotamos; experiência que em sânscrito é ‘tad bhava-bhavita‘, a vida já é – desde a passagem física – um prenúncio da eternidade: diminuta e ressentida quando o Ego é soberano, o que lhe dá um senso interior de inaptidão para o mundo; e humildemente grandiosa quando o espírito autoconsciente (budhi) é um análogo da realidade. Em linhas gerais, quanto mais alto se chega, menor se é

§2

A real dimensão de um ser humano nunca é parcial, mas integral, e é atestável desde sua grandeza em vida, até o nível de sua posteridade. Verificá-la só é possível por meio da captura da espontaneidade pessoal, ou seja, quando o Ego está ligeiramente desguarnecido, aliás, quando a pessoa se mostra tal qual é, em algum momento especificamente inesperado. Como tudo o que é bem sucedido é espontâneo, com efeito, é o próprio Ser em estado de Graça; em plena e expressiva gratuidade, logo o pressuposto da eternidade – manifesta em uma pessoa – é a súbita presença do carisma, apreensível como uma força divina que vibra desde o centro da personalidade. Quando o Ego é cultivado sem a religação com o próprio Ser, logo, com aguçado senso de vaidade, não apenas o temor da morte é constante – de forma jamais confessado – mas da mesma forma, o sentimento de impotência (manifesto por meio do ressentimento, da inveja e da arrogância) se antecipa como aquilo que Leonel Trilling compreendeu como o altaneiro: carisma do Mal.  Ademais, apenas uma personalidade orientada ao cotidiano exame de consciência e à autocompreensão – aguçado, quando devotado a uma religião (vera religio) – é suficientemente capaz de depor as forças autocompensadoras do Ego, por meio da qual a vida é aceita espontaneamente, sem murmúrios ou temores do desconhecido.

Deste modo, já em situações mínimas e cotidianas, sempre é possível se deduzir quando se está em face de um grande homem, sobretudo, se o carisma interior for submetido à religação com o próprio Ser, ou seja, constantemente destituído do próprio Ego. A propósito, ante o túmulo de Edgar Allan Poe, Mallarmé afirmaria: “Tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change.” Ou seja, “a eternidade o transforma enfim naquilo que ele sempre foi.” A aceitação da vida eterna que, dentre outras coisas, desnuda a vinculação do homem com a realidade, não apenas retira da morte sua força virtual, mas aguça um súbito estado de percepção, orientado para aceitar as coisas como são, de sorte que perante a grandeza de alguém nada mais natural que reconhecer em vida, seu nível de eternidade. O contrário também é verdadeiro, sobretudo, quando alguém apequenado – autocompensado por seu próprio Ego – se vê maior do que deveria, perante alguém com um carisma espontaneamente grandioso.

Muitas vezes, envoltos numa teia de autocompensações do Ego, não nos damos conta da grandeza humana ao redor, e quando o fazemos, não dimensionamos o nível de eternidade que nos arrebata, de modo que o indício de uma vida decaída é o silêncio auto-consentido perante o extraordinário. Em um caso exemplar de notória afetação egoica, mais precisamente em 1812, o compositor Beethoven pôde enfim conhecer seu ídolo, Goethe. E então o músico se pôs a tocar uma sonata, posteriormente conhecida como: ‘Sonata ao Luar’. Como o escritor permanecia em silêncio, Beethoven lhe dirigiu as seguintes palavras: “- Mas se vós não me dizeis nada, Mestre, quem então me compreenderás?” Finda a sonata, Goethe partiu, altivamente em silêncio, sem nem mesmo olhar para trás. Não que o caso em questão seja sintomático do carisma negativo de Goethe, ou mesmo da manifestação de relativa inveja, mas nos faz pensar que, face uma das maiores obras líricas de todos os tempos, o mínimo seria a exteriorização catártica de uma lágrima sufocada pela silenciosa admiração. Ainda que recusável, ainda assim um gesto mínimo solicitaria uma palavra de denegação. Entretanto, neste caso em específico, Goethe se amesquinhou, representando assim o temor potencial do homem comum perante o desconhecido; face o divino; diante da morte. Ao modo de Goethe, o homem ordinário é aquele que não aceita algo infinitamente maior que seu próprio Ego, e por desmerecê-lo, compensa sua pequenez com a indiferença.

Anos mais tarde, como que para justiçar o fatídico evento anterior e denunciar o Ego goetheano, um escritor russo de nome Nekrassov (imortalizado, sobretudo, por ser leitura frequente de Vladimir Lênin) dispararia: “O papel de embrulho em que se dá um pedaço de pão a um pobre é preferível ao papel em que está escrito o ‘Fausto’ de Goethe.” Ademais, e retomando a ironia de Nekrassov, ninguém menos que Paul Claudel escreveria em seu Journal: “Goethe, incapaz de sorrir, desprovido de toda espécie de humor, ou de espírito, ou de fantasia, é um asno.” Curiosamente, anos mais tarde, um jovem compositor; como que misteriosamente empenhado em reabilitar a grandeza daquele gênio e reconhecer espontaneamente seu carisma, revelaria: “Creio em Deus e em Beethoven.” Este músico se chamava Richard Wagner, figura determinante para a controversa filosofia de Nietzsche e para os rumos da música posterior. No mais, no episódico encontro entre Goethe e Beethoven, a contraposição gestual dos carismas se fez oportuna, anteposta como uma recusa à aceitação da Realidade da obra lírica em questão. O gesto de Goethe é sintoma de uma personalidade egoica, constante em sua clássica afirmação: “Só o vagabundo é modesto.” Se aquele que conhece a Verdade não se amedronta perante a morte, em um exemplo similar a este; em que o interlocutor dá de costas em meio a uma apresentação, será que o Ego não teme ser diminuído, e em uma ligeira autocompensação, não simula estar aristocraticamente acima com sua esnobe indiferença? Por certo, o carisma de quem intuiu a Realidade é tão espontâneo quanto natural, daí sua relativa beleza e nobreza consequente.

Nas culturas primitivas, a fonte do carisma está radicada na coragem do guerreiro que enfrenta a morte, de modo que ao redor daquele que aprende a morrer, a aldeia se doa coletivamente à sua destemida tarefa, fundamentando assim sua nobre divisão do trabalho. Como cultuam a coragem do guerreiro perante a morte, apenas isso é cobiçável, e não por acaso, almejam canibalisticamente o corpo e o sangue (sparagmos) do destemido guerreiro inimigo. Portanto, tais sociedades não dimensionam a inveja, e nem mesmo a nomeiam, com efeito, sustentam as relações sociais por meio da nobreza, da coragem, da espontaneidade e da honra. Por fazê-lo, aceitam a vida tomando-a com os olhos, jamais virando-lhe as costas; repudiando retroativamente o gesto de alguém como Goethe. 

Entretanto, já no primitivo mundo moderno, quando alguém lhe virar as costas, covardemente e em silêncio como um guerreiro – temeroso da morte, saiba que a melhor réplica é proporcional à grandeza daquilo que tu és; afinal nada contenta mais interiormente que a certeza de que: quanto maior nos tornamos, menores são as coisas ao derredor, inclusive, a morte

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