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(René Magritte: ‘Hegel’s holiday‘ – 1957)

 

Por Ivan Pessoa

 

§1

 

A chuva, ainda que se propague, se mantém indivisa, coesa; como o anúncio de uma inesperada, e não menos, tempestuosa notícia a ser assimilada… Portanto, desconfiai das pessoas que, aos primeiros respingos de chuva, acotovelam-se desengonçadamente em busca de algum abrigo, sem a paciência providencial de um surpreendido leitor de uma tragédia epistolar. O que custa compreender os seus desígnios, como rumores de uma surpresa que de súbito renova o que antes estivera confortavelmente seguro? Chove, e isso é tão natural quanto ser surpreendido: por uma carta entreaberta, um passo em falso, um descuido. Ora, mas por que tanta afetação e pressa entre cotovelos? Quem não resiste ao anúncio de uma tempestade, jamais lançará ao mar os seus anseios, e no momento oportuno, não compreenderá os seus segredos. Desde há muito: chove, entretanto, quem pode deter um fenômeno tão impremeditado, que consagra os navegantes, e anula os transeuntes? Quanto a estes, vê-los no entre-choque dos sobressaltos, nos atropelos dos passos em queda, leva-me à questão iminente: ‘Se não estás preparado para a chuva imprevista, que poderia ser – por sua vez -, a trágica notícia inesperada do teu último naufrágio, logo tu não podes navegar.

§2

Tudo o que chove – seja em alegria, seja de tristeza -, transborda de vida: derrama-se. Evitar isso é, de longe, morrer por dentro: árido, como um pranto represado, à maneira de quem não assimila surpresas. Não seria essa a expressão etimológica da angústia (angere em latim), como aquela pressão que comprime a garganta, represando-a? No passado, os gregos visitavam os teatros na expectativa de que, como em uma sangria que purificasse o sangue estancado, e em meio à representação da tragédia: o que estivesse preso fosse liberado, daí surgindo a sublime expressão da catarse: ‘tudo o que escorre, purifica‘ Derramar-se, em meio a uma torrente de lágrimas ou mesmo entre respingos de chuva, é preparar o espírito para o instante surpreso e caudaloso. A metáfora é oportuna, pois que Santa Teresa de Lisieux, em seu diário: ‘A História de uma alma‘, alude à relação entre uma lágrima e a chuva; nos seguintes termos: ‘uma água traz a outra.’ Querer renunciar a este tom tempestuoso; indispor-se às surpresas do porvir; comprimir a vida desde a garganta é encolher-se (diminuto) sob um guarda-chuva, imaginando a si mesmo a salvo da lua altaneira que, ainda que chore à distância, chove nos arredores de tudo, surpreendendo-nos.

§3

Na obra: ‘As horas douradas de Kai Lung‘ (1900), escreve Ernest Bramah: ‘Não se pode esperar que alguém que passou a vida sob um guarda-chuva oficial possa dominar as mais sutis analogias de luz e sombra. ‘ Jamais entenderá a sutil analogia da vida; aquele que, encolhido em seu cômodo guarda-chuva, não suporta o imprevisível, o inseguro e torrencial instante fecundo que, quando cheio e prenhe de si mesmo, chove no íntimo de algum lugar. Apenas os que marejam, pressentem essas analogias. Por outro lado, que diferença faz para um subalterno de guarda-chuvas: a sutileza entre os sapatos ensombrecidos pela poça d’água e a lua navegando em um desaguadouro de lágrimas celestiais?

§4

A sutil analogia entre luz e sombra, que desaparece sob um guarda-chuva, insinua tanto uma vida hesitante e acovardada, como àquela máxima medieval: ‘analogiae claudicant‘, ou seja, as analogias mancam, à maneira daqueles que se acotovelam em busca de abrigo. Aliás, claudicam, sobretudo, para aqueles que, à iminência dos primeiros respingos, naufragam sob o guarda-chuva, que por sua vez: naufraga sob a lua cheia de vida. Não há nada de novo sob a lua; exceto a surpresa, aquela segundo a qual: ‘Tudo o que chove, purifica.’

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