renemagritte_nottobereproduced_1937

(René Magritte: ‘La reproduction interdite‘ – 1937)

***

Por Ivan Pessoa

§1

No auge da sua carreira de best-seller, Enid Blyton – autora de livros infanto-juvenis – conseguia reproduzir ad nauseam um feito inalcançável: escrever compulsivamente. Estima-se que em torno de 10 mil palavras eram datilografadas, rabiscadas e manuscritas nesses dias de compulsividade criativa. Não por acaso, no decurso dessa safra exitosa, Blyton teria escrito oitocentos livros, dentre os quais: ‘Child whispers (1922)’. Entretanto, cabe a pergunta: a criação literária bem-sucedida –  aquela que reorienta a vida daquele que a recepciona – é aquela que demanda facilidade tanto para quem cria, como para aquele que a aprecia, ou requer heroica dificuldade, ultrapassável; às duras penas, tanto ao autor como ao apreciador? Antes de mais nada, cabe ao leitor a mais providencial das perguntas: o que pretendo com a leitura, ou melhor, até onde pretendo ir; aguçar a distração, ao recrudescimento das minhas vaidades ou ao encontro adiado comigo mesmo? Encontrar-se em meio à leitura é a plena descoberta dessa questão, prévia para quem lê. Evocando Denis de Rougemont, essa certeza é endossada: Não seria mau saber se o que se busca, na leitura, é um passatempo, uma vertigem ou uma resposta.” (‘Penser avec les mains, 1936′).

Se as ideias fossem custosamente escritas à unha, condicionadas às retinas igualmente esgarçadas dos que leem: quem se entusiasmaria em defendê-las? Como bem disse Maurice Naudeau, dando às unhas e às retinas; a medida de uma decisiva, e não menos crucial atividade do espírito humano: “Um livro que deixe tal como era o escritor e o leitor é um livro inútil.” Daí a certeza de que alguns livros são de entretenimento (‘divertissiment‘ pascalina), de autoengano (de onde surge a mentirosa pose intelectual) e de auto-descoberta, cuja leitura encaminha à progressiva compreensão sobre si mesmo. Recrudescer a vaidade é recair na linha intermediária entre os dois primeiros níveis, de modo que o último revela o verdadeiro propósito da leitura: ‘nada saber, tudo almejar.’

No primeiro nível, ou seja – enquanto divertssiment – a leitura é dispersiva, servindo (quando exitosa) apenas como informação e ampliação do senso imaginativo, o que – na melhor das hipóteses – é como o hábito curioso de Miguel de Cervantes de ler os restos de papel que encontrava nos cantos da rua. Sem desmerecê-los, mas é nesse primeiro nível que se encontram os livros de Enid Blyton, leitura entusiasmada para o exercício da imaginação e da fruição, o que quando bem escritos serve didaticamente como a formação de um futuro leitor. Entretanto, quando não exaurido para os níveis posteriores, o risco desse primeiro nível é encerrar esse leitor na teia do infantilismo, portanto, no grau irresponsável da distração, por meio da qual aquilo que é lido não é assumido por quem lê. Consumando-se esse primeiro nível, eis que o surge o atestado de Pascal: “Distrair-se é dispersar.”

Ademais, enquanto o primeiro nível é dispersivo, ou seja, retém o leitor em uma teia verbal e imaginativa; confinando-o na pobreza da experiência literária, e quando não, confundindo-lhe vaidosamente excesso de informação com leitura, o segundo nível é ainda mais sutil, desde que é um refinamento do primeiro. Para ser mais preciso em termos históricos, esse segundo nível surge em 1728, quando o erudito escocês Ephraim Chambers publicara uma obra pretensamente total, chamada ‘Cyclopedia‘, dando aos contemporâneos o surgimento de dois fenômenos bibliográficos imediatamente grandiosos: o ‘Dicionário‘ de Samuel Johnson e a ‘Enciclopédia‘, esta última financiada pelo livreiro André-François Le Breton que, por não ter conseguido os direitos de tradução da obra de Chambers, encarregou os promissores D’Alembert e Diderot à proeza de editar algo semelhante. Contrapondo-se ao que pretendia Chambers, Diderot argumentou que traduzir a obra para o francês seria muito mais custoso, fazendo-o perceber que seria mais viável reunir o maior número de material possível sobre as artes e as ciências de então e publicá-lo em francês, expediente que legou à história uma grandiosa obra em 28 volumes (dezessete de textos e onze de ilustrações). Definindo-a como uma biblioteca, Diderot escreveu: “serviria como uma biblioteca para o homem profissional em todo assunto que não seja o seu próprio.”

No próprio verbete ‘Encyclopédie‘, Diderot justificou tamanha proeza bibliográfica: “consiste em reunir o conhecimento disperso pela superfície do globo e expor seu sistema geral aos homens que virão depois de nós, de modo que os trabalhos dos séculos passados não tenham sido em vão.” Entretanto, eis que surge na história da leitura o traço do segundo nível, mais especificamente na seguinte questão: não seria o enciclopedismo o indício de uma procura que, na aparente concentração de temas pontuais, concede ao leitor a falsa impressão de conhecimento total, como se à mera inquietação sobre a Vida fosse encontrável no seu respectivo verbete? Portanto, o segundo nível – o enciclopedismo, se apresenta do seguinte modo: a informação infinita se traduz proporcionalmente em zero, tanto na apreensão dos conhecimentos (condicionados à presença física de quem possa confrontá-los com outras fontes), como na leitura de si mesmo, com efeito, o processo mesmo de ler, demanda a intervenção de um mestre em pessoa, e, sobretudo, uma contínua deposição da falsa impressão de que, com o que é lido, todo o conhecimento já fora esgotado. Desse modo, a leitura do segundo nível, total e enciclopédica, é pretensiosa, mas caricata; sendo remissiva ao caso do nova-iorquino Patrice Moore que, após o Natal de 2003, precisou ser resgatado de seu apartamento por bombeiros, afinal passara dois dias – já exausto – entre uma avalanche de livros, jornais e revista que acumulara obstinadamente por mais de uma década. Ouvindo-o sussurrar, os vizinhos solicitaram a equipe de resgate, que de seu apartamento retiraria cinquenta sacos de material impresso. Por oportuno, o enciclopedista (envaidecido pelos aparentes triunfos desse segundo nível) é similar em tudo a Patrice Moore: ensimesmado, rodeado de livros igualmente enciclopédicos, que lhes dão a falsa impressão de autoridade intelectual, e, sobretudo, inconscientemente ávido por um resgate.

Suspeitando e depondo em si mesmo o enciclopedismo de Moore como farsa, o que surge a um inquieto leitor é o nível seguinte, corrente em um hábito que cresce ao redor da maturidade e auto-descoberta: ‘Se todas as minhas mentiras fossem suprimidas, qual a única Verdade que me restaria?’ Enquanto o primeiro nível é apenas o ingresso no mundo da leitura: fantasioso e ilustrativo, o segundo é seu consequente refinamento, de modo que é a tentativa do leitor em ler com a excelência de uma autoridade. Concebendo o ato de ler como esse processo, o leitor busca saber aquilo que não sabe, recaindo por vezes na teia ardilosa, e imperceptível, do enciclopedismo: hábito que lhe dá a falsa impressão de domínio e definitiva compreensão sobre as coisas que supõe saber. Por uma via autossuficiente, que faz com esse leitor jamais se proponha ao diálogo e à correção, o enciclopedismo do segundo nível encaminha-o para a auto-compensação do especialismo e à via tortuosa da vaidade, indispondo-o à procura de um interlocutor suficientemente capaz de redirecioná-lo. Como pode haver leitura sem a maestria auspiciosa de um destinatário, por meio do qual o porta-voz descobre sua vocação? Se plenamente assumida, essa questão pode direcionar o leitor do segundo para o terceiro nível, fazendo-o perceber a mais importante das questões: não há leitura sem a intervenção decisiva de um mestre que reoriente as disposições da leitura de si mesmo, habilitando-o à seguinte questão: ‘O que sucede quando conheço e o que conheço quando sucedem as páginas de um livro?’ Portanto, é no âmbito mesmo da tensão entre a interioridade e o mundo, e, sobretudo, por meio de um mestre, que o leitor ascende ao terceiro nível da leitura, em busca de si mesmo. Contraposto ao enciclopédico Patrice Moore, o leitor do terceiro nível é similar ao personagem do seguinte koan budista: “certa vez, questionado como era sua disciplina zen, um mestre respondeu ao discípulo: ‘- Quando tenho fome, como, e quando estou cansado, durmo.’ E então o discípulo objetou: ‘ – Mas isso é o que todo mundo faz!’ ‘-De maneira alguma’, contestou o mestre, silenciando-o: ‘-A maioria das pessoas costuma não prestar atenção no que está fazendo. Vitória é estar lucidamente atento a si mesmo enquanto se dança.'” Daí a especificidade da leitura do terceiro nível: ampliar a dimensão dos níveis anteriores, incorporá-los na vida pessoal, aguçando assim a necessidade de um mentor intelectual, suficientemente capaz de fazer com que seu discípulo possa atentar-se para seus próprios atos, gestos e pensamentos. Em tal nível o ato de ler é responsavelmente um contínuo e comprometido cultivo, não apenas com o que fora anteriormente assimilado com os livros, mas com as pessoas ao redor.

Feitas as devidas considerações sobre os três níveis da leitura, eis que ressurge a questão anterior: a criação literária  bem-sucedida – aquela que reorienta a vida de quem a recepciona – é aquela que demanda facilidade tanto para quem cria, como para aquele que a aprecia, ou requer heroica dificuldade, ultrapassável; às duras penas, tanto ao autor como ao apreciador? Ora, a resposta a essa questão se encontra nos graus biograficamente superados pelo autor, ou seja, na sua expressão ou habilidade de imprimir no texto um mundo de tensões possíveis, capazes de não apenas reorientar o leitor, mas aguçá-lo à procura de níveis posteriores de leitura. Portanto, quando grandiosa, a expressão encaminha o leitor à cata de um interlocutor; um mestre em pessoa, capaz de atualizar aquilo que é lido em meio à realidade, de sorte que o propósito da leitura é o diálogo, ou seja, o regresso à fala natural amplificada.

Desta forma, ainda que Enid Blyton fosse um compulsivo sucesso literário para o seu tempo, seus leitores não lograram o êxito de alcançar níveis mais sofisticados de leitura, comprometendo assim sua posteridade. Em contrapartida, vale considerar que em uma direção silenciosamente destoante, Gustave Flaubert levaria quatro anos para escrever ‘Salammbô (1862)’; três para concluir ‘Madame Bovary (1857)’ e cinco para encerrar ‘ A Educação Sentimental (1869)’ – todas as três determinantes para os rumos literários seguintes, diferentemente do feito volumoso de Blyton que, no limite de sua exaustiva produção, não produziu efeitos literários efetivamente decisivos, fazendo-nos perceber o quanto a expressão do autor é proporcional à sua capacidade de criar leitores e epígonos, ou seja, fecundar herdeiros. Destarte, eis a medida do sucesso literário, dependente da capacidade expressiva de criar – por verossimilhança – novos leitores.

Portanto, não seria a expressão de quem cria um fator crucial para a apreciação, cuja principal êxito é tencionar o nível de leitura daquele que a procura? Decerto, se ampliada para a expressividade do discurso literário, quiçá, a observação de Joubert contemple o dilema anteriormente suscitado: ‘Para escrever bem é necessário uma facilidade natural e uma dificuldade adquirida.’ Daí a certeza: ler é uma atividade condicionada ao nível daquele que lê, cuja expressão do autor facilita ou compromete tal condição.

Naturalmente é mais fácil falar que dificultadamente ler ou escrever, desde que a leitura é uma atividade condicionada àquele que lê. Com efeito, isso explica o sucesso pessoal daquele que chegou até aqui, atualizando o koan: ‘Vitória é estar lucidamente atento a si mesmo enquanto se lê‘. 

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