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Por Ivan Pessoa

“Havia um velho que – com a calma de um missivista – enviava cartas despreocupadamente ao léu, não se importando, portanto, com a receptividade daqueles que porventura pudessem lê-las noite afora. A bem da verdade, com qual expectativa alguém se põe a escrever, já que é incerta a chegada a algum lugar? Demorava-se o velho a pensar, tomado por uma íntima defesa de que escrever é lançar-se sem nada esperar. A sensação nauseabunda de morte iminente fazia-o crer que preciosas palavras justificariam o universo, e inscrevê-las condensaria a mais sublime das descobertas. Como alguém que soubesse pontuar a distância entre o silêncio e a hora oportuna de pronunciar certezas, aquele solitário ancião mensurava cada palavra pelo peso de sua verdade.

O velho fizera de um antigo adágio, seu testamento: “Ainda que em vão, escrever é justificar-se perante o Criador.” Nada mais providencial que rabiscar senis apontamentos em papéis amontoados, por meio de incansáveis missivas, como o jogador que apostasse sua decisiva cartada. Escrever é como lançar dados, em que sempre se especula, mirava-se o velho perante o espelho da insônia. Ciente disso, não se importava com seus possíveis interlocutores; com aqueles que pudessem em algum lugar endossar suas impressões sobre a vida. Incansável escrevia, e arbitrariamente depositava suas impressões nas garrafas sorvidas de seus anseios noctívagos.

Insone vagava pela casa de lápis em punho e uma xícara de café a contrapeso. Remetente de palavras que segundo ele: revelariam a grande arquitetura do universo – sua armação inteligível – o velho labutava em silêncio como se dormisse. Entrementes pensava: Por que depositar neste papel o sentido das cores que meus olhos um dia viram? A quem interessa a profundidade dos meus desencontros, empenhado que fui destrancar portas de herméticos cadeados? Por que não calar uma hora dessas, quando todos os arroubos calam? Entendo que escrever é interromper o curso da solidão de um leitor-ninguém, à espera que está de insuspeitos encontros com palavras que surgem, entre escombros e naufrágios.

O sono de um velho missivista é como uma vírgula espaçando a pauta, com certa hesitação. Certa noite, após ter hesitado entre qual palavra transpor e a temperatura do café a sorver, o velho deixou sobre a mesa, a página inteiramente em branco. Quebrando a regularidade de muitos anos de labor, o velho dormira maldizendo-se. Onde estás, ó palavra, que, por mais insinuante que sejas, jamais decalcas precisamente a claridade, murmurava o velho, entredentes.

Inquieto, culpara o universo pela lacuna. Dormiria naquela noite, silente como um criado-mudo. O velho não entendia que, como uma carta, o universo tangenciava como um pêndulo entre o excesso e a falta, ponto final e reticência. Por uma silenciosa providência, naquela noite o velho compreenderia a grande fundação cósmica, alicerçada no mistério do laconismo. Sonhara, portanto.

No dia seguinte – como que iluminado – esforçar-se-ia sobremaneira para dizer muito com poucas palavras, e se pôs a imprimir o ímpeto de um aforismo no centro de cada folha em branco. Tendo compreendido que as coisas se bastavam em si mesmas, anunciando-se inteiramente sem mediações, o velho contemplaria a experiência atônita de quem sonda a grandeza de uma verdade. Munido com qual precisão passaria a interpretar o espetáculo do universo, desnudando-o com a nobreza de um geômetra. Ou seria de um poeta?

As constantes investidas do velho através do rio repetiam-se com a calma de um sábio que, ainda que se soubesse incompreendido, certificava para si mesmo a posteridade vindoura de suas palavras. Aqueles que por ali passavam, viam em seu gesto uma sandice, resultado de seu lúcido empenho. Ainda que chovesse torrencialmente, lá estaria o velho, acompanhado de seu guarda-chuva, encaminhando a garrafa com sua palavra contida, rio afora.

As palavras seguiam desvairadas, entrechocando-se com as pedras, as quedas sinuosas e os abismos. Caso, por um desvio de rota fosse arremessada ante um monolito, a palavra liberta de sua redoma de vidro, naufragaria através do rio, substancializando-se mar. De posse do mar, a palavra infiltrava-se, escorrendo vazante à semelhança de um peixe. Enquanto desfazia-se de sua natureza sólida, prenhe de papel, a palavra aos poucos alimentava a fome sedenta de um peixe qualquer, engasgando-o.

O velho que elaborava mui paciente na superfície do mundo sua idiossincrasia, não imaginava que no fundo do mar, um peixe engasgara-se com o monte de papel, não menos com a palavra, mas, sobretudo, com seu excerto de tinta. A palavra, este fogo líquido, no desaguadouro do oceano, manchava qual porção de tinta. A fauna marinha coberta com a quantidade incontável de palavras, engarrafadas, forjava bolhas de ar. Vistas de longe, borbulhavam. A camada espessa de palavra espumava através da praia. Dissolvidas, haja vista a liquidez de suas membranas, as palavras que por ali banhavam a costa, evaporavam. Orgânicas, plasmavam-se céu adentro.

O fenômeno remetia a uma aquarela de azul estonteante banhando-se de branco. Indissociáveis, as cores agrupavam-se entremeadas. Lá embaixo, enquanto o céu potencializava-se com palavras, o velho sentia os indícios de sua própria finitude. O peito indispunha a sua respiração, silenciando-o o juízo. As mãos fraquejaram as últimas palavras, que de súbito macularam a pauta como uma gota de sangue. O sentido da vida é a descoberta da palavra náufraga… Descansaria no centro da folha, já ensanguentada de tinta, o derradeiro lapso de lucidez daquele missivista.

O velho perdera a aposta para o papel, borrando-o noite adentro. Seus olhos tombaram despertos por sobre a pauta, tal qual a boca, silenciosa em meio a uma confidência: o sentido da vida é a descoberta da palavra náufraga… A morte do velho silenciaria a casa com sua mesa apinhada de papéis e xícaras de café, insones. Aos poucos o céu consentia em pesar, inflando-se. Progressivamente um espetáculo furta-cor tomava de assalto o desencarne do velho, velando-o. As cores mesclavam-se como se fossem anunciar a gradação de uma manhã vindoura. O que antes era azul e branco, pouco a pouco foi se tornando a cor de um cinza incomum de ensombrecer. Uma gota desprendeu-se do seio do céu, arriando de súbito. A chuva alcançou a Terra, aliançando o tempo e a eternidade, a palavra e o silêncio. Por pouco o semblante sereno do velho anularia a intensidade do arco-íris, no instante em que – silenciosamente – alguém (como eu) descobria o sentido da vida.”

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