Por Ivan Pessoa

***

§1

Uma palavra (apenas) é capaz de mudar significativamente uma vida. Desde criança, empenhado em encontrá-la, fui direcionado à certeza de que sua sorrateira aparição seria capaz de depreender o sentido de toda a existência. Tolice da idade, decerto, no entanto com o passar dos anos fui deduzindo-a em episódios similares ao meu primevo esforço, como, por exemplo, o empenho dos especialistas para compreender e traduzir o ápeiron de Anaximandro ou a anquibasia de Heráclito. Quiçá, esta palavra (síntese inesgotável da vida), não seja senão um sýmbolon, cuja etimologia grega – deriva do hábito antigo de partir um objeto (um anel, por exemplo), para assegurar; a uma das partes, o reconhecimento contratual de um serviço, como o direito a fazer cobranças ou assegurar hospitalidade. Daí que este símbolo denota tanto a ideia da representação de algo por meio de uma relação de semelhança (analogia), como a partilha de imagens que despertam afetivamente um senso moral de encaminhamento. No fundo, a carga de afetos depreendida de uma imagem simbólica, carrega consigo um poder criador e, igualmente, didático, como as últimas palavras balbuciantes de um pai que, em seu leito de morte, encaminha prospectivamente os passos de seu filho: ‘A vida é apenas uma palavra. Descubra-a. ‘

§2

Por dimensioná-la como um sobrepeso, fico a pensar no amargor de Julien Benda que, pelo que consta o testemunho de Jean Guitton, demorou cinco anos para finalizar sua obra: ‘Belphégor‘ (1918), em função da palavra a ser escrita desde a primeira frase. Para quem sopesa a vida simbolicamente por meio de palavras: a busca e a partilha devem primar pelo engenho cauteloso; pelo fôlego demorado; pela dificuldade, expressões que alcançam sua confirmação por meio das mãos de Merimée, cujo anel (como um sýmbolon), deixava escapar aos entusiastas a seguinte inscrição: ‘Lembra-te de desconfiar. ’

§3

‘ – Desconfiai daquilo que vem fácil, porque se assim for, o que vem não tem valor‘. Com estas palavras, eu poderia imaginar um pai encaminhando seu filho, desde tenra idade, no empenho e na descoberta da vida; hábito comum entre os povos de origem semítica, como os árabes e os judeus. Destes últimos, recordo-me da palavra: ‘chutzpah‘; palavra que, insuspeitadamente, fora capaz de modificar minha vida. O que a princípio fora desconfiança (quando da descoberta daquela palavra) vi ceder e anunciar paulatinamente o sýmbolon extraordinário não apenas das civilizações, mas determinantemente do próprio indivíduo. Com um sentido eminentemente simbólico: ‘chutzpah‘ seria um estado autoconsciente de um homem perante as circunstâncias, algo que poderíamos aproximar a: atrevimento, ímpeto, intrepidez. Um homem dotado de ‘chutzpah‘ seria aquele que, de tão cônscio sobre si mesmo, alterna franqueza de espírito com uma coragem de decidido destemor. Estes são os homens de (a) palavra.

§4

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No livro de Martin Gilbert: ‘The Holocaust – the jewish tragedy‘ (1987), a expressão da ‘chutzpah‘ se revela mais dramática. Em junho de 1944, Jacob Edelstein, um dos mais velhos do gueto de Theresienstadt fora levado a Bikernau. Em meio à oração matutina, envolto em seu manto ritual, eis que surge o tenente da SS: Franz Hoessler, empenhado em encaminhá-lo ao campo de concentração. Acompanhado de três homens, igualmente da SS, Franz chamou-o pelo nome, entretanto, Jacob não se moveu. Em seguida, com o tom mais imperioso, Franz aos berros, esturrou: ‘- Estou esperando, ande logo!’ Com uma postura tão próxima da ‘chutzpah‘, Jacob replicou: ‘-Dos últimos momentos que o Todo-Poderoso me concedeu nesta Terra, o mestre sou eu, não você.‘ Com uma coragem incomum para a circunstância, Jacob virou-se para a parede; fechou os olhos, e continuou a oração. Por fim, empenhado em dar cabo do definitivo ritual, dobrou seu manto e, sem nenhuma expressão de pressa ou nervosismo, virou-se a Hoessler: ‘- Agora estou pronto. ‘

§5

Em seu leito de morte, o pai recomenda ao filho que retome, com nobreza, o símbolo de sua caminhada. Entre as expressões: ‘agora estou pronto‘, ou ‘está consumado‘, resta o exemplo da ‘chutzpah‘ e da coragem – apropriadas que serão como a outra parte do anel simbólico desta vida. Entretanto, resta ainda a menção a Emmanuel Berl: ‘É verdade que os mortos são fracos. Divulgam-se os seus segredos, transgridem-se as suas vontades, vasculham-se os seus papéis (…). Mas sabemos também de que regressos fulgurantes são capazes esses seres abolidos. ‘ Nos papéis de um desses mortos, como o súbito regresso de uma Verdade encoberta pelo tempo, descobri o sentido da vida e a palavra inexistente da infância. Entretanto, como a palavra pesa quando se dá em silêncio, esperava-te para a comunhão desta descoberta, com receio de perdê-la (já com as mãos vazias e para sempre) entre os papéis de um desses mortos. Daí porque eu ainda não a pronunciei (…) até que aqui tu regressasses, e pudesse confiná-la – em silêncio – no segredo dos teus olhos e em teu molho de chaves.

Como quem testemunhasse às escondidas, as últimas palavras balbuciantes de um pai que, em seu leito de morte, encaminha prospectivamente os passos de seu pródigo herdeiro; tu és, leitor, o responsável por guardar as chaves; à espera do filho que regressará.

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