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Por Ivan Pessoa

***

§1

Todas as tragédias históricas são entremeadas pela possibilidade de que, em meio ao luto e à catástrofe, o sentido da vida se restabeleça. O que sobressalta é a impressão de que algo, infinitamente irredutível, determina o curso natural das coisas ao redor; algo que Goethe – em outro plano -, subscreveria: “A história é a oficina secreta de Deus.” Quiçá, o mais sábio dos homens seja aquele que, ao expandir sua consciência, retraia decisivamente suas pretensões egocêntricas, acercando-se da mais pontual das certezas: “Das coisas que desconheço, sabe Deus.” Esse humilde serviçal da sabedoria, ao atestar a si mesmo sua insignificância perante a máquina do mundo, sabe que a morte é sorrateira, e a vida, breve. Aprender essa lição, aliás, aprender a morrer – algo que no tom platônico de Montaigne seria o expediente da filosofia -, concede a quem a professa, a humildade de quem contempla estrelas; incapaz de mudar seu curso. Portanto, qual o efeito desencadeado pela morte senão o de uma transformação súbita da consciência, cujo Ego imperioso se esfacela?

§2

Restituir à vida, um sentido que a transcenda (tarefa exemplar da filosofia), eis o que surge acidentalmente em circunstâncias catastróficas. Na descoberta de sua pequenez e no intercurso do temor em face da grandeza ao redor, vacila as pretensões humanas, com o agravante de saber-se nada. Ao alcançar tal estágio, o sentido impremeditado da vida se anuncia sob a forma de um princípio auto-evidente de que estamos a caminho da morte, e só o que é pleno permanece, por ser Eterno.

Ao enlutar-se, o homem sucumbe a um lampejo filosófico, entre o alívio de perceber-se vivo e o espanto temeroso em face da morte. Do espanto sobrevém o filosofar, e segundo Edmund Burke, a modalidade estética do sublime: relacionada que está à autopreservação e ao temor que encanta. Apenas por que morre, e se espanta em face da morte, é que o homem pode encontrar um sentido que o transcenda, afinal vê na finitude um estorvo à sua almejada grandeza, o que o reorienta humildemente. Ademais, a morte não pode imortalizar aquilo que é mortal, o que dá paradoxalmente a este momento: a consumação da vida rumo à sua essência. Morrendo, a eternidade nos torna aquilo que somos.

§3

As intercaladas notícias de morte que nos chega neste ano, só são mais dramáticas em função do renome de seus ceifados, cuja mortalidade se afigura biograficamente como a perda irreparável de figuras públicas. Por conseguinte, e aproximadamente, apenas na esfera privada é que tal comoção se insinua, sobretudo, com a partida dos entes queridos, amigos e conhecidos. Quando não – como se constata nas mortes ultimamente noticiadas -, a mais filosófica das questões tende a inquietar: “Por que morremos?” Por não a encerrar, exclusivamente, em uma clave filosófica ou mesmo científica, e ao ver a notícia inesperada da morte de um homem público, recordo-me da frase do Cura d’Ars, como um arremedo de compreensão: “Ide ao cemitério, meus filhos, ver o que se ama quando se ama seu corpo.” Daí chego a ponderar: perde-se tanto tempo com questões de somenos importância: questões acidentais, que o preparo espiritual e filosófico para a morte limita-se a uma ida sazonal à igreja, ou aos cemitérios. Esquecemo-nos de morrer, por vaidade. Ao aperceber-se daquilo que é verdadeiramente necessário cultivar, o ser humano transcende sua condição mortal, desdobrando um sentido que o efetiva: em meio a sonhos, anseios e planos.

§4

O estado passional com que lidamos com o sublime, alterna-se entre o temor e o entusiasmo. Nunca é demais supor que morrer, tanto quanto filosofar a respeito, move-nos neste diapasão: entre o temor e o entusiasmo, de modo que com esta disposição, revitalizamos nossos heróis e antepassados, dando-lhes sobrevida. Na antiguidade e na Idade Média, tudo isto se apresentaria, respectivamente, como ‘ars moriendi‘ e ‘memento mori‘: alegorias remissivas à morte que consumava tanto as últimas palavras de um homem, como sua lembrança. Por últimas palavras, entendo o instante em que um grande homem é capaz de antecipar o próprio fim, arrematando-o com a clareza sintética de sublimar a vida a seu estado mais puro. De Sócrates vem a curiosidade derradeira em aprender a tocar lira, bem como o galo a ser pago a Asclépio.

De Kant, a peremptória palavra: “Basta!” De Nietzsche, que por mais que não se saiba a veracidade, não surpreenderia a autoria: “Mutter, Ich bin Dumm“, ou “Mãe, eu sou um idiota“. Por antecipação à própria morte, como cabe aos filósofos e o respectivo senso de humildade, recordar Menendez Y Pelayo se torna um dever que, ao saber de seu fim próximo, teria olhado para os livros ao redor e afirmado ao médico: “Que lástima ser levado pela morte quando me falta tanto o que ler.

Nestes derradeiros dias, a oficina secreta de Deus pode, engenhosamente, encaminhar nossos sonhos, vidas e expectativas até o limite, de modo a revigorar nossa humildade ou calar nossas últimas palavras. Ironicamente, a reclamá-la em seu leito de morte, Goethe teria exclamado: “Luz, luz, luz!” Em tempos tão sombrios, em que em meio aos rumores da morte toda luz é necessária, convoca-se as palavras de Mestre Eckhardt por precaução: “O olho com que vejo Deus é o mesmo olho com que Deus me vê.” Pois agora, veja bem: antes que anoiteça.

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