Bandeira Tribuzi

(Bandeira Tribuzi: 1927-1977)

Por Ivan Pessoa

***

A cidade talvez não seja outra coisa que a parte mais sólida  da alma humana, a parte mais vida, que morte alguma sepultará. Enquanto isso, a poesia cimenta as coisas, acomodando a natureza de tudo; as palavras que já foram ditas, e aquelas que um dia serão. Como uma grande ilha, a cidade está cercada por poesia, e em cada lado, vozes universais anunciam-se ao continente. O que antes era apenas uma localidade, uma aldeia qualquer, em qualquer lugar do mundo, se torna, pois, universal, e em tal república, poetas fundam o amanhã. Quando lidos, tais poetas revelam-se anfitriões em um lugar em que todas as cidades se encontram, por que interiormente essas nos habitam. E cessam as fronteiras do mundo, uma vez que o espaço perde sua condição. Do mesmo modo, o tempo suspende sua sucessão, e eis que tudo se revela imediatamente agora.

A grandeza de um poeta, portanto, encontra-se no nível de universalidade que seu verbo alcança. O domínio da técnica e da forma poética, não por acaso, se tornam indispensáveis, afinal tudo o que se pretender esteticamente coeso, exigirá incansável labor. Tal exigência demarca a fronteira entre os pequenos e extraordinários, algo que separa a distância entre o excesso e falta de obstinação. Em tempos atuais, onde poderíamos alocar a poesia, ou em qual estante ela seria estrategicamente posicionada? Aliás, por que ler poesia? A princípio, a melhor resposta seria aquela que fosse peremptória: é necessário ler poesia de verdade, escrita, é claro, por verdadeiros poetas. O que vem a reboque é a certeza de que, em êxito, uma poesia teria que sintetizar o universal e o particular, até porque, como nos diria Ernest Dimnet, em sua Arte de Pensar: ‘Não leias os bons livros – a vida é demasiado curta – lede somente os excelentes.

A excelência da poesia, daí sua necessidade, vincula-se à capacidade de ampliar o sentido usual das palavras, o que reorienta a ordem de sua enunciação, saturada pelas relações humanas, alçando-as à condição original, lá onde a forma torna-se música. Uma verdadeira poesia, quando lida em voz alta, desvela um senso rítmico, tão preciso e imediato quanto uma melodia em execução. Em tal estado, o que é lido, atualiza o que há muito fora condensado pelo poeta, dando vida àquilo que descansa como um estado de espírito. Ao ler Bandeira Tribuzi, em Alguma Existência, por exemplo, o fazer poético anuncia-se verdadeiramente apoteótico, haja vista, suas primeiras linhas: ‘Entrego minha alma ao céu de Abril e à rebeldia.

Excetuando-se as motivações políticas do autor, sobretudo, por datar circunstancialmente sua grandeza, há nos primeiros versos de Tribuzi uma verve de inquietação atemporal; uma rebelião que surge no seio do verbo, presente de certa feita, no destemor de Milton, segundo o qual teria ficado cego por arrostar o absolutismo com palavras, algo que levaria Wordsworth à afirmação: ‘Milton transforma a alaúde em trombeta. ’ A musicalidade poética, por ser combativa em determinados aspectos, anuncia a redenção dos esquecidos, elevando-se assim à suprema comunhão dos homens. O que para Coleridge se daria do seguinte modo: ‘A poesia é a religião original da humanidade ’, para Tribuzi soaria desta forma: ‘O infinito maior é o próprio homem’, contrariando assim Cocteau: ‘A poesia é a religião sem esperança. ’

Se determinássemos de forma exemplar, o que um poeta teria escrito de um modo pessoal, e que assim, o destacaria dos demais, possivelmente poderíamos afirmar que Antroponátuica de Tribuzi seria, com efeito, o poema mais apurado de sua lavra, sem o qual sua tão propalada redenção não seria possível. Uma controversa religiosidade imanente, e não menos humanista – viável apenas na poesia, convoca os homens à reinvenção de si mesmos, como se à deriva mirassem outros horizontes: ‘ Cosmonauta de si, o homem se explora: essa é a maior distância por vencer. Vai, ave humana, sobre-humana asa tocar estrelas em tuas mãos sem fim; vai colher rosas no novo jardim. Vai como um deus humano iluminado colher mistérios, devassar o oculto, mas para regressar com o intocado, amigo, eterno e grave humano vulto. Que tuas asas todo espaço domem. ’ Afora a inquietação do homem que vaga à cata de novos pórticos, a poética do autor encerra uma política, o que, com efeito, seria a extrema conciliação da humanidade. Em um sentido mais apurado, ler um apelo político em Bandeira Tribuzi, é de certa feita, exaltar a busca pela reabilitação do homem consigo mesmo, o que seria a contínua necessidade de refletir a lei do cosmos na pólis, tal qual pensariam os gregos de outrora. Enquanto antena da raça, segundo Pound, o poeta iluminaria os caminhos da cidade, tal qual o farol ao navegante, o que politiza o discurso do poetante, não a aspectos puramente ideológicos, mas a uma postura desveladora, aguerrida.

Ainda que insinue inquietações político-existenciais, a poesia de Tribuzi não decai em panfletarismo, algo que sob todos os aspectos, revela-se datável, tal qual a necessidade programática do realismo soviético. O equilíbrio de tal encruzilhada estética se deve, entretanto, à irreparável formação intelectual do poeta Tribuzi, não por acaso, porta-voz do modernismo na poesia maranhense, e seu cabedal de referências filosóficas. A fuga por um esteticismo, lúcido e sofisticado, daria à poesia de Bandeira Tribuzi, a sobrevida digna aos grandes poetas. O que pulsa – daí sua legitimidade poética – é a universalidade da vida popular, misteriosa e epifânica como a rosa da esperança.

A contradição da vida social, a mulher amada, a cidade estática como em um cartão postal, tudo isso escorre na poesia de Tribuzi, tal qual uma fotografia em estado de revelação. Desse modo, cada palavra, por ser anunciada, se torna tão atual quanto em sua ocasional publicação. Sendo a poesia uma topografia da alma, em breve menção ao que há de cósmico em cada cidade, ao ler Bandeira, uma contínua e extenuante necessidade de exaltar São Luís se antecipa, como se fôssemos convocados a pronunciar, de modo dissonante: ‘ Vizinho o mar com seu mistério, e o além por ser desvendado. ’ Como o pescador que se abandona ao mar, e volta, vencidas as tempestades inusitadas da travessia, a Ilha de São Luís cria em cada um de seus nativos, uma inexplicável necessidade de ir mais adiante, milagre que se reinscreve nos homens simples e suas odisseias.

Silenciosa, a poesia entranha a dor nos olhos dos famintos; as pedras já desgastadas pelo tempo, e ainda assim impassíveis em suas providências seculares. Há poesia, por demais, nos casarões abandonados; por dentro dos edifícios já mortificados, que tombam de súbito, abrigando, providencialmente, os pés descalços dos famintos, e seus solados de pedra.

Haverá poesia ainda, em uma cidade vista de longe, com sua natureza morta e suas palafitas. Entretanto, vista, ainda de longe, ou em qualquer lugar, esta cidade revela-se geograficamente como uma passagem, que vai da ilha ao resto da ilha, elevando-se milagrosamente sobre um rio. Se a parte mais sólida da alma é a cidade, e o poeta é a voz íntima que habita esta alma, por que não erguer o nome de Bandeira Tribuzi como uma ponte, suspendendo-o no ar? E que assim seja.

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