Onde quer o que homem ponha o pé pisa sempre em mil caminhos.”

(Provérbio desconhecido)

***

Por Ivan Pessoa

***

§1

Se um dia tiveres tudo, nada terás, com efeito, o chão é maior que os pés que pisam. Todos os passos dados por um homem não esgotam o chão que se delonga. Da topografia da vida tiramos a mais nobre das lições, qual seja: o mais abastado dos homens não pode palmilhar todos os caminhos; ultrapassar o sopé de todas as montanhas, pelo simples fato de que o chão é uma projeção de seu fracasso derradeiro. O chão é a firmeza inarredável de tudo, aquilo pelo qual os gregos antigos compreendiam como o que subjaz à realidade, o fundamento, ou seja, o que sustém soberanamente (sob) todas as coisas. Por não poder estar em todos os lugares, resta a maior de todas as certezas: quão pequeno somos, menor que aquela estrela fugidia que nos surpreende à noite, tanto que das pedras colhidas é que edificamos nossa morada.

Ao largo descansa o chão, horizontalmente maior que cada um de nós, entretanto incapaz de verticalizar-se, ou seja, levantar-se em retirada, quiçá nossa maior grandeza, com a qual elevamo-nos da adversidade das quedas. O chão é um mapa a céu aberto, e enquanto demora-se em seu plano, miramos as nuvens a surpreender. Se se pudéssemos cartografar a sucessão de todas as coisas a nos rodear, mapeando assim os caminhos até então dados para compreendê-las, ainda assim, desafortunadamente jamais conseguiríamos. O chão é imponderável, como o firmamento que o cobre. Cada passo dado é a espera por outro passo que se sabe inesgotável e assim sucessivamente, de modo que ao longe se amontoam pegadas, às escondidas.

A propósito, Karel Tchápek diria que tendo um mapa-múndi ao alcance das mãos, não seríamos capazes sequer de apontar ou ler demoradamente o nome dos lugares em voz alta, porquanto em cada cidade, esconda-se uma centena de outras cidades, o que aplacaria nossa pretensão envaidecida, reduzindo-nos assim, ao abjeto tamanho de nossos pés, que nos leva minimamente onde pudermos ir. A despeito de toda menoridade que somos, interessa sobremaneira prosseguir, otimizando os passos que jamais daremos – o que requer um incansável esforço de continuar. Ainda que jamais consigamos esgotar todos os caminhos, resta ao menos o murmúrio de Píndaro: ‘ Ó minha alma, não aspirai à imortalidade: esgotai o campo do possível. ’ Desse modo é que à guisa de reflexão, pergunto a mim mesmo: Quem dentre os homens foi suficientemente longe, a ponto de rondar as fronteiras da possibilidade e detê-la às solas dos pés ? Quem dentre os homens deu passos que nossas pernas comuns jamais dariam, tateando desse modo a região inóspita do porvir?

§2

Um homem que singra caminhos – qual o intrépido navegante que se lança no insondável – seria desde já um arquétipo exemplar de humanidade, decerto revelaria sua excelência, qual seja: ir em busca do desconhecido com destemor, em favor daqueles que não sabem caminhar. Uma alegoria que me vem em mente, atestando este caráter errante de cada um de nós, é encontrável aos pés de Fidípedes. À exaustão, o jovem soldado grego corre 42 km, entre as cidades de Maratona e Atenas, para anunciar a seus conterrâneos sobre a capitulação e consequente derrota dos persas na primeira das guerras médicas. Ao cair estafado, suas palavras selariam o destino dos peregrinos, a sorte dos andarilhos: nenikekamen, ou simplesmente: ‘vencemos.’

O êxito daquele que vem anunciar a boa nova é certamente sua bem-sucedida vitória sobre si mesmo, constante desde a sola de seus pés. Medos, temores, dúvidas, tudo isso ensombrece nas pegadas já sepultadas pelo caminho, não restando outra fuga, outra senda, senão a linha do horizonte e a meta, à contraluz. Um homem que fosse longe demais, elevando sua humanidade à necessidade de superar-se verticalmente, a uma quase comunhão com o cume oculto das montanhas, seria aquele que fosse a cada caminho grassado, elevando-se gradualmente como uma águia à distância. O caminhante é o mais vertical dos homens, porquanto mire o zênite sobre sua cabeça, fazendo-me recordar as palavras de Salomão: ‘Porventura fixarás os teus olhos naquilo que não é nada? porque certamente criará asas e voará ao céu como a águia.’ (Provérbios, 23:5)

Bem-aventurados os homens que se põem nos beirais da estrada, sondando suas marginais com os pés que tocam a frieza da terra, e por fazê-lo, redimem os amputados, aqueles que cá não sabem caminhar. De longe anunciam a novidade e paisagens insuspeitas, como as criaturas vistas por Plínio, o Velho ou os tesouros de Marco Polo. Ainda que jamais vejamos o mundo e suas cidadelas secretas, o lugar que estamos é sempre uma consequência de alguns outros pés que esqueceram os seus solados de pedra pelo caminho, e agora já estão longe demais, daí porque, o silêncio sepulcral e os vestígios.

Ao abandonar a religião sikh, misto de hinduísmo com islamismo em nome do catolicismo, e peregrinar apenas com o Novo Testamento, um turbante já puído e os pés descalços, o asceta indiano Sadhu Sundar Singh deu a declaração mais arrebatadora que já tomei nota em toda vida. Ao ser interpelado sobre o porquê de caminhar destemidamente sem sandálias e os consequentes riscos de ter os pés feridos, o sábio replicou decisivamente: ‘ Tenho os pés tão calejados que são eles que ferem as pedras. ’

A grandeza de um ser humano que vá longe o suficiente, só é objetivamente compreensível, quando traz consigo estilhaços de pedra, o que o torna nobremente humilde e tão conciso quanto os monolitos atritados pelo caminho, vereda que o lapida. Poeticamente Valéry nos antecipa: ‘ O homem vive à mercê do que encontra. ’ Os pés daquele que vence destemido a caminhada, revelam uma nobreza de espírito, episódica e divina como no caso de Jesus Cristo no gólgota que, ainda que açoitado pela pequenez dos homens, é capaz de um gesto da mais elevada expressão: ‘Pai, perdoai-os porque eles não sabem o que fazem.’ (Lucas, 23:34). Horas antes de sua crucificação, Cristo cai com sua cruz aos pés de um judeu, que impiedosamente lhe ordena aos gritos: ‘Caminhe. ’ A réplica de Jesus lhe põe às voltas com a danação do judaísmo – a peregrinação despatriada: ‘Eu caminho, mas tu irás caminhar até a minha volta. ’ Chamado de Judeu Errante, até hoje Ahasverus peregrina e como ele, querendo ou não, endossamos misteriosamente as palavras do teólogo Yves Congar: ‘Cada dia, é Jesus Cristo que me impede de parar.

Em todos os séculos, decerto jamais paramos pelo simples fato de que toda nossa via-crúcis seja tão somente caminhar, em uma busca por um aperfeiçoamento do humano que somos e respectivo abandono de tudo o que nos apequena ou nos impede de crescer, tal qual as ervas mortificadas sob as patas do cavalo de Átila. O sentido de caminhar há muito já fora pontualmente anunciado por Novalis: ‘Para onde, pois, estamos indo? Estamos a caminho de casa. ’ E assim vamos, com os respectivos pés que merecemos, pois pródiga é a distância dos caminhos deixados para trás e a ventura de caminhar. Se toda caminhada começa com um passo; por menor que seja, resta a grandeza de umas palavras rabiscadas na areia do tempo por Garaudy: ‘O homem é grande demais para se bastar a si mesmo.’ Ainda que seja menor que o chão: sob seus pés.

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