A autoria impossível se caracteriza como uma experiência dúbia, à maneira do francês François Bizot perante seu algoz (ver trailer), que passa a admirá-lo silenciosamente. No plano intelectual isso se dá quando – em meio a uma vida comum – um eventual leitor passa a cultuar um autor pela descoberta de um sentido,  sem suspeitar a sua impossibilidade, e, ao modo de Bizot, admira o carrasco de seu declínio espiritual. Segundo Voegelin, os autores a seguir se tornaram insustentáveis logo após essas respectivas publicações, de modo que invocá-los (sem problematizá-los) já é um traço impremeditado da autoria impossível:

A) O historicismo desde Karl  Löwith: ‘From Hegel to Nietzsche‘ (1941);

B) O atomismo lógico desde J.O. Urmson: ‘Philosophical Analysis: Its Development between the Two World Wars‘ (1956);

C) A psicanálise freudiana desde Philip Rieff: ‘Freud: The mind of moralist‘ (1959);

D) Carl Jung desde Robert Zaehner: ‘Mysticism: sacred and profan’. (1957).

René Girard, em: ‘Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago‘ (1999), no último capítulo: ‘A dupla herança de Nietzsche‘, faz uma análise impecável; assente na ideia de que o alemão seria entusiasta de certo paganismo aristocrático, aquele fervor anticristão que vê na supressão de todos os interditos (katechón), a saciedade ilimitada dos desejos. Em tese, este ensaio é sobre isto.

Por Ivan Pessoa

***

§1

Deve-se renunciar, sobretudo, aquilo que não se pode viver. Por quais motivos se deve endossar um autor ou mesmo uma ideia que, impossível em seus próprios termos, refulge sobre expectativas retóricas; delegando persuasivamente ao destinatário, um tour de force mirabolante, que lhe exige uma reformulação pessoal de todas as suas certezas? A inviabilidade de uma ideia, adversa a simples apreensão habitual, já daria a dimensão de algo digno ou indigno para se acreditar. Ora, mas o que prova a viabilidade de uma ideia, senão a coerência com aquele que a enuncia, bem como ao índice de sua evidente possibilidade? Deste modo, professar uma certeza – entre a incoerência do pleiteante, ao vazio de suas pretensões – é se filiar emotivamente aos equívocos de uma paixão, que se sustenta no impulso sedutor de algumas palavras. Tal cumplicidade já não é atestado de autoindulgência, como alguém que se apaixona por seu algoz na expectativa de ter sua vida a salvo, agradecendo-lhe, posteriormente, por sua liberdade e sua sobrevida? Cúmplice, deste modo, é aquele que exulta perante o acusador: ‘ – Tu, somente Tu, salvastes a minha vida. Portanto, eis que descubro e delego a ti o propósito de minha existência. ‘ Que isto é igualmente verdadeiro no plano das ideias, se confirma pela simples simpatia dispensada a um autor; algo que, decerto, revela a dimensão de uma personalidade.

Aliás, isso não seria uma via doentia à autocomiseração, por onde o indivíduo se pune, e inocenta o agressor? Ora, de outro modo, não haveria, projetivamente, na própria vítima traços que esta encontra no acusador, por meio dos quais se cria uma irrenunciável simpatia? François Bizot, cuja obra: ‘O silêncio do algoz‘ (2003) – narra as suas desventuras perante um torturador do Khmer Vermelho, em pleno período Pol Pot – afirma que esta autoindulgência direcionada ao carrasco, caracteriza-se da seguinte forma: “O homem (…), quando as circunstâncias o permitem, toma o partido de simpatizar com aqueles que o ameaçam (…). O fenômeno diz respeito ao reflexo que incita toda vítima a se ligar ao destino de seu algoz, às vezes defendê-lo e ainda se recusar a testemunhar contra ele.”

Entre o silêncio de um livro (circunstancialmente perigoso), à leitura gestual que se faz de um algoz, descansa as palavras de Henry de Montherlant: “Dize-me o que retiveste de uma leitura e eu te direi quem tu és, pois somente se presta atenção ao que se é.” Atente para a seguinte observação: nada nos revela mais do que, as certezas que abandonamos – algo que, com efeito, permanece em rabisco nos livros que nos ameaçam e na descoberta de suas impossibilidades. Entretanto, o contrário também é verdadeiro: se apaixonar pelo reflexo hostil que projetamos, desde o livro que nos revela pari passu com o autor impossível, até os olhos do algoz que, ocasionalmente, ainda não somos.

§2

Um dia, em meio a uma viagem de trem, André Gide notou que, ao lado, um rapaz lia um de seus livros. Atentamente, no esforço de sondar as impressões manifestas pelo leitor, o escritor pôde perceber que, na proporção mesma de suas marcações; entrecortadas com as próprias unhas, traços da personalidade do rapaz se encarnavam naquelas linhas. Em seguida, Gide afirmaria: “Ele sublinhava com cuidado os pensamentos que eu já havia abandonado.” A descoberta de que algo fora inviabilizado pelo próprio autor – em um respectivo abandono, leva o leitor por caminhos de amadurecida travessia, o que, aliás, norteia os seus próprios caminhos. Se o autor Gide abandonara as suas ideias de outrora, por que remoçá-las, dignificando-as ao esplendor das certezas humanas? Deste modo, continuar indiferente aos abandonos do autor é tornar-se cúmplice, em um intercurso de equívocos.

Por estas vias, transfigurar tais ideias como uma verdade incorrigível, é recorrer ao artifício do autoengano; tanto quanto a relação passional entre a vítima e seu algoz. Ou se inviabiliza uma ideia impossível; tão logo o autor a denegue (por superá-la), ou se recai nos perigos de sua ameaça, que se demora durante os anos de uma pesarosa existência. Que um espírito menos amadurecido recorra à segunda hipótese – se aproxima por vias transversas – da advertência de Santo Agostinho, segundo a qual, deve-se recear dos homens que leem um único livro. Extensivamente, isso poderia ser corrigido: ‘deve-se recear dos homens de uma única ideia‘. Se por um lado a vida se justifica, em meio às páginas de um livro (que cresce recorrentemente na proporção que seu leitor o incorpora, e o corrige), por outro lado, a mesma vida ensombrece quando vista parcialmente, como os olhos assustados da vítima que se vê, diminuta, nos olhos do acusador.

Dito de outro modo: há na obra superada, um leitor que amadurece, tanto quanto, há no leitor apaixonado, uma razão cega que o ameaça. No esforço de se apropriar dos riscos de uma ideia, e suas recônditas ameaças, o leitor deve concebê-la desde fora, buscando em seu autor o atestado de suas palavras. Como credibilizar um megalômano autor que, no afã de se exaltar, sua própria vida o contradiz? Por certo, ler e endossar um autor controverso encaminha o leitor à renovada danação de seu mestre, como uma espiral que só se torna possível se abandonada. A permanência do irretorquível equívoco em lê-lo, ad misericordiam, revela, sobretudo, os traços de uma personalidade doentia que, ao demorar-se nos confins do erro, soçobra ante suas próprias ruínas, tal qual a justificada empatia em face do torturador.

Nietzsche, autor cuja obra só é possível se renunciada, certa vez escreveria: “Deve-se (…). falar somente daquilo que se superou.” Não por acaso, Eugen Fink encontraria na obra deste último, cinco sistemas filosóficos mutuamente auto-contraditórios, atestando a ordem de sua impossibilidade. Entretanto, quantos estão empenhados em superar o autor da ‘morte’ de Deus, e que, contraditoriamente, pontuara: “Deus não pode existir, pois se houvesse um, eu não poderia concordar em não sê-lo“? Pressupondo-se as condições de sanidade do leitor, como tornar crível um autor que, ora vaticina a morte de Deus, ora pretende sê-lo? Superar sandices desta ordem é tão decisivo, quanto afirmar: “Nietzsche está morto! Nietzsche continua morto.” Graças a Deus! E continuará: até a vinda do Além do Homem. Ou seria do Super-Homem?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s