Por Ivan Pessoa
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Quando se vê um mendigo esmolando o pão, sob o sol inclemente da manhã, o que se projeta é o homem; não sua parcela de culpa, seus farelos de medo, suas migalhas de dia. A esperança habita entre os homens, mas caminha discreta e andrajosa, pois que mendiga a medida de suas grandezas, revelando a altura de seus desprendimentos. ‘Olhai para o alto, e para os olhos exaustos do teu irmão‘, adverte a esperança, que habita – verbal e absoluta – nos olhos cheios de promessas de uma criança que procura seu nome.
Entretanto um mendigo, esquecido de si mesmo e dos automóveis que congestionam as estrelas, vê uma poça d’água, e dos restos decaídos de uma noite qualquer, mira – na água espessa da cidade noctívaga – o seu anti-retrato, desesperançado. Comovido, com os anos de indiferença, e a aridez dos olhares diurnos, chora copiosamente, sem suspeitar que o espelho turvo é seu vale de lágrimas, por meio do qual, cada gota evoca um punhado de puídas estrelas. Sem precipitar um gesto sequer, aquela criança consola o homem que chora, que questionada por sobre qual o seu nome, cala a dor de sua indignidade: ‘ Eu não sou ninguém, não tenho nome, mas caso queira me ajudar, na busca por saber quem sou, acompanha-me, quem sabe não consolamos alguém, e consolado, de repente nos ajude a encontrar o nome que esquecemos em uma esquina qualquer?’ Desde então, a esperança mendiga seu nome. Eis que hoje, ao ouvir seu bater de portas, decidi acompanhá-la.”
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Um comentário sobre “A esperança mendiga

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