Por Ivan Pessoa

 

I

Para que uma nova ordem seja forjada (seja no plano filosófico, político, estético, ou mesmo ético) o Logos ou proporcionalidade intrínseca das coisas precisará ser subvertida, o que em cadeia subverterá a apreensão da própria realidade, de forma que tal sublevação desacomodará insuspeitadamente o nexo natural entre o agente e a própria história. Não por acaso, o poeta da revolução russa, Maiakovski, afirmou: “Não existe revolução sem linguagem revolucionária.” Em princípio, subverter a linguagem e seus conceitos já sedimentados por uma tradição, é desencadear uma sub-reptícia subversão da própria realidade espontânea das coisas, o que leva a uma sobrevalorização de motivações ideológicas, sexuais e conceituais – crescentes ao redor de seus epigonais especialistas.

Um único conceito, como luta de classes, tem efeitos tanto na realidade ao redor como na estrutura psíquica daqueles que o defendem; incapazes que são de depreenderem das relações humanas, particularidades que transcendem o ambiente político-econômico. Dessa afetação ideológica até a conduta pretensamente aguerrida é um passo, e se justifica – para aquele que a defende – como o gesto de Robespierre que costumava legitimar seus crimes por meio da evasiva pergunta retórica: “Em nome de que?”  Entretanto – e eis a ironia idiotizante da militância intelectual – quando alguém lida com conceitos demasiado abstratos, corre-se um risco de endossar a ressalva de Hegel: “Um conceito só se transmuta na realidade concreta mediante a inversão de seu sentido abstrato.”Portanto, a efetivação de um conceito – desde o centro da personalidade de quem o propaga – só se atualiza com seus riscos intrínsecos impremeditados.

II

Quando se estuda filosofia, a suspeita deve recair sobre o modo como o pensamento se apresenta – o que nos leva à certeza de Tomás de Aquino, segundo o qual, o que se demonstra não é evidente, na mesma proporção em que a evidência não se demonstra. Logo, uma filosofia que pretende demonstrar seus argumentos, e o faz de forma afetada; obscurecida pela sedução retórica, levará inevitavelmente o leitor ao torpor e a inebriante sensação de embriaguez intelectual, cujas consequências são decisivas e incidem sobre o centro da personalidade. Neste sentido é que se dá a ironia de Rivarol em relação a Rousseau, como se desde o século XVIII, fosse identificável essa nova modalidade da intelligentsia,  caracterizada pelo fervor ideológico: “Este orador tem gritos e gestos no estilo. Ele não escreve, pois está sempre na tribuna.”.

Quantos não sucumbiram neste esforço tirânico dos tribunais em tentar julgar o curso da História, seduzindo seus leitores à entorpecida constatação de que as coisas não são o que aparentam ser e, deste modo, precisam ser reparadas? Aliás, em que medida se pode observar que um fenômeno político como Pol Pot é efeito daquela ambiência intelectual, educado em grandes Universidade francesas?  Em que medida o prognóstico de Friedrich Von Schlegel – para quem a Revolução Francesa inauguraria uma nova era dos crimes generosos – não tem vinculações filosóficas com seus conceituados tribunos? A nítida percepção desta certeza me fez reavaliar toda a filosofia Ocidental, e mais especificamente, os efeitos de suas justificativas, o que me levaria a empreender um paulatino abandono de tudo o que soasse a Kant, Marx, Nietzsche e Heidegger (não estranharia o fato de que Adolf Hitler, Benito Mussolini, Fidel Castro, Che Guevara e Theodore Kaczynski já os tivessem lido, ainda que equivocadamente, alguma vez na vida). (…).

A certeza de que uma ideia pode trazer consigo uma dose inesperada de periculosidade me fez analisar com cautela tais nomes; dispensando, portanto, a notória celebração acadêmica ao redor, afinal a própria Universidade embriaga-se neste cálice vazio. A despreocupada avaliação de um antigo amigo de pós-graduação, quiçá, venha a calhar: “No final das contas alguns autores são defendidos para justificar certas condutas pessoais.” Insuspeitadamente, meu amigo talvez não soubesse que o fito de suas palavras remetia a Goethe com a mesma precisão: “Certas pessoas não abdicam do erro porque devem a ele sua subsistência.” Uma filosofia que não se sustenta em face do decisivo instante da morte, por que não se edifica em torno da demonstração do que argumenta, nem mesmo naquilo que supõe crer – como nos prova, ao contrário, a grandeza do último suspiro de Sócrates, ou mesmo a consolação de São Boécio – não é digna de exaltação, a menos que se faça levianamente no estupor de uma embriaguez ou em uma tribuna. Se é mais fácil morrer quando não se morre só, segundo André Malraux, logo se percebe o tom dessa filosofia dos tribunais coletivistas, cujo anseio de tomar a Verdade e a coragem como indícios da luta revolucionária (esvaziadas semanticamente) acaba por invalidar a lição de Montaigne do filosofar como um aprender a morrer. Se o critério da demonstração é a única autoridade em filosofia, quem ousaria pôr à prova suas próprias verdades, anulando-as e transcendendo-as como quem morresse em vida? Fazendo-o não despertaria de sua inesperada cegueira?

Deste modo, a lição de Rimbaud para quem se deve escrever embriagado e ler em jejum, provavelmente, desencadearia ao espírito filosófico a indistinta sensação de despertar, cujo contrário é a cegueira intelectual que, ao turvar os olhos, despreocupa-se dos efeitos morais de suas ideais. Quando uma ideia é tomada sem suas reais consequências, os efeitos da cegueira – além de apressarem o abismo iminente – desesperam silenciosamente aqueles que a concebem como quem é sufocado pela morte súbita. Com efeito, o pior cego é aquele que, ao se desesperar intimamente em silêncio, escurece o mundo ao redor, matando-o. E quem seria tolo em negar que alguns já estão definitivamente cegos?

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