Para fazer os antigos falarem, precisamos alimentá-los com nosso próprio sangue.”

(Ulrich von Wilamowitz)

Por Ivan Pessoa

I

Compreender uma sociedade demanda inventariar o conjunto de seus símbolos, ou seja, sua fonte auto-interpretativa que, de modo positivo ou negativo, se destaca extraordinariamente. Por certo, tal fonte auto-interpretativa é a tensão que se dá entre a consciência do indivíduo e a história que, em resgate ao Nome de seus antepassados, é suficientemente capaz de imprimir no tempo uma Verdade superior que a transcenda, ou quando não, confiná-la parcialmente aos dilemas correntes daquela realidade. Portanto, quanto mais a história e suas emergências apressam a consciência individual às pretéritas experiências fundadoras do Nome ancestral – atualizando-o intempestivamente – maior a possibilidade do indivíduo concentrar atenção nos atos que realiza, ou seja, tomar consciência de si mesmo perante a história, responsabilizando-se por si e por seus ancestrais no instante em que testemunha seus próprios atos. Fazendo-o, torna-se livre na justa medida compreendida por Chesterton no conto ‘The yellow bird‘: “O que é liberdade? Primeiro, e antes de tudo, é o poder de algo ser ele mesmo.” À esteira dessa definição é que se dimensiona oportunamente as ideias convergentes de Whitall Perry em ‘A treasury of traditional wisdom‘ e Eugen Rosenstock-Huessy em ‘A origem da linguagem‘: a liberdade é a conciliação do homem consigo mesmo, no instante em que vislumbra seus antepassados (predecessores) à luz dos seus sucessores, de modo que ser livre ou conceber uma sociedade livre é investi-la desde as gerações vindouras.

Reabilitar a si próprio em regaste aos antepassados, responsabilizando-se pela experiência pessoal da liberdade, é o estado superior da consciência, no instante em que o Ser convoca o homem a um chamado; a um propósito superior que se consuma em gratuidade e abundância, afinal é um sacrifício auspicioso às gerações vindouras. Por conseguinte, a liberdade é a fonte auto-interpretativa de toda e qualquer sociedade – fonte documental que se demora na história desde que reabilitada por seus epigonais herdeiros; mínima ou majorada a partir dos símbolos que posterga e destacáveis a partir da renúncia de seus fundadores e de sua disponibilidade a outros povos.

II

Torna-te quem tu és“, quiçá, seja indício da busca pessoal por essa liberdade, tencionada entre a abertura da consciência e a vida em sociedade, que cresce desde que orientada à irrecusável verdade sobre si mesmo, fundada originalmente em torno de um Nome fundador: “O presente não existe em lugar nenhum da natureza, mas podemos criá-lo unindo nossas vidas num só Nome.” (Eugen Rosenstock-Huessy). A história e o sacrifício de um único Nome fundador, evocável desde os ancestrais, é o indicativo do grau de liberdade que o indivíduo pretende realizar em vida, projetando-o extraordinariamente – desde seus gestos, palavras e exemplos – ao usufruto de seus semelhantes, ou melhor, dos vivos, dos mortos e dos ainda não-nascidos. Ora, nesse horizonte tencionado entre predecessores e sucessores, o que é efetivamente a liberdade como fonte auto-interpretativa do indivíduo e de sua respectiva sociedade? Por razões distintas, eis a resposta de Rosenstock-Huessy: “Um homem tem de poder dar a vida por um propósito sagrado“, o que em igual medida é poeticamente avaliado por Ulrich von Wilamowitz nos seguintes termos: “Para fazer os antigos falarem, precisamos alimentá-los com nosso próprio sangue.” Portanto, liberdade é o poder de algo ser o que é, quando consuma e atualiza o Nome de seus antepassados. Dito de outro modo: dar o sangue e o dar o Nome são sinonímias da mesma experiência fundadora, símbolos da anteriormente mencionada fonte auto-interpretativa que em lições pontuais de Economia seria compreendida como lastro.

Ampliando a ideia da fonte auto-interpretativa como a consequência pessoal do indivíduo perante seus antepassados que, por tê-los desde o sangue os incorpora responsavelmente, a história de um povo passa a ser projetada pelo lastro de sua liberdade, que pode ser avaliada objetivamente pela eventual incorporação de  outros indivíduos e povos, cujo anseio é tencionar o maior grau de liberdade. Opressivos, quando impassíveis à incorporação; livres, quando desdobráveis e fiáveis em outras culturas. Segundo Michael Oakeshott: “Uma sociedade será tão mais feliz quanto mais extensos forem os seus recursos morais e civilizacionais.” Dito de outro modo: a fonte auto-interpretativa de uma sociedade, desde seus símbolos, é consequência da liberdade que cada indivíduo assume por ser responsavelmente o que é, o que o faz doar-se abundantemente ao mundo ao derredor. O contrário também é verdadeiro: tornamo-nos infelizes tão logo não nos encontramos, e, na algaravia da urbe, sequer ouvimos os chamados espirituais da consciência que ousa nos coabitar: “Quem sou Eu?” Algumas teses sociológicas não resistem a um simplório teste demográfico: ‘Dê-me uma centena de pessoas infelizes e ressentidas, que desdobrarei a profundidade e a truculência de seus dilemas sociais e humanos.’ Nenhuma tese sociologicamente confusa resiste à ideia simples de que o crescimento demográfico de pessoas infelizes ou desenraizadas é proporcional à ausência de liberdades.

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