Por Ivan Pessoa*

 

 

O estranhamento sobre algo se dá quando aquilo que não deveria vir à tona se manifesta. Em 1919, Freud nomeou isso de ‘unheimlich’, em um ensaio sobre um conto de Hoffmann chamado ‘O homem de areia.’ Sem pretender me demorar no escrito de Freud, sobretudo, pela terminologia estritamente psicanalítica, creio que o conceito é de todo oportuno, como se nos fizesse compreender de súbito a realidade ao derredor, mais especificamente quando da aparição de estranhamentos. Sem mais delongas: no tocante à mentalidade universitária, haveria algo mais estranho que se contrapor ao establishment e propor um movimento conservador e consequentemente um conjunto de atividades, a exemplo do já famigerado I Encontro da Juventude Conservadora da Universidade Federal do Maranhão? Sem sombra de dúvida nada é mais ‘estranho’ – desde o espaço acadêmico – que advogar em nome do conservadorismo, sobretudo, pela confusão imediatamente associada a retrocesso, inércia e imobilidade; quando não à perseguição aos homossexuais, mulheres e minorias. Qualquer defesa deliberada ao morticínio de uma minoria que seja, não é produto de uma filosofia conservadora (pauta do Encontro em questão), algo que se constata na leitura paciente de seus principais pensadores, bem como em suas respectivas biografias, mas é efeito daquilo que Gregory Bateson cunhou como: ‘double bind‘, estado esquizofrênico que, na vida pública, se mensura pela medida messiânica de purificar para destruir, ou seja, pela compensação auto-justificada para alguma ação violenta. Constata-se um ‘double bind‘ não apenas no comportamento de um indivíduo esquizofrênico, mas em todo movimento pretensamente redentor (seja à esquerda, seja à direita) que mobilize seus porta-vozes para a violência, a crueldade e a perversão. Tal sintoma de ‘double bind‘ é pauta de todo discurso pretensamente redentor, a exemplo do alucinado movimento de Frank Buchman fundado em 1938, chamado de ‘Rearmamento Moral‘ que propagava um salvacionismo milenarista associando a mensagem cristã na vida pública sem censurar uma admiração  pelo nazista Heinrich Himmler. Em ‘Hitler m’a dit‘ (1939), Hermann Rausching perguntou ao ‘Führer’: ‘Vocês não acham que atribuem uma importância exagerada aos judeus?, em que Hitler replicou: ‘Não! Não! Não! (…). É impossível exagerar a estatura do judeu como inimigo.’

Como hermeneutas do Mal, pessoas que sofrem de ‘double bind‘ e que se associam em defesas especificamente redentoras, costumam interpretar a realidade nos seguintes termos: tomam por premissas (inquestionáveis) suas próprias crenças e valores, num raciocínio circular que se forma sem a possibilidade de prova. Ademais, concebem as leis da realidade em uma conduta em tríptico: inculpação projetiva (demonização daquele que é supostamente culpado de um estado específico de coisas), delírio de interpretação (constatável na máxima hegeliana: ‘Se os fatos contradizem minha teoria, pior para os fatos‘) e promessa auto-adiável (crença auto-compensadora constatável na frase de Fidel Castro quando do seu julgamento, em 1953: ‘A história me absolverá.’)

Portanto, a confusão imediata entre filosofia conservadora – de Edmund Burke a Roger Scruton – e mentalidade preconceituosa pretensamente redentora, são extremos de dois estados de espírito antitéticos: auto-consciência e esquizofrenia, cujo registro sintomático é mensurável pelo ‘double bind‘. Por conseguinte, nada depõe mais contra aqueles que supõem conhecer a filosofia conservadora (a exemplo dos estampidos que nos chegam da Ufma), que o seguinte argumento de Bernard Lonergan: “Quando a Inteligência se torna um espaço em branco, avança a primeira lei da natureza: a autopreservação.” Sob determinados aspectos, o estranhamento contra algo surge na modalidade dessa autopreservação, que pode se manifestar de maneira ostensiva, branda ou indiferente. Por certo, o estranhamento é uma resposta involuntária contra algo que, por resistir, procura se preservar.

 Parte da recusa ao conservadorismo – no sentido depreciativo ou não filosófico do termo – se dá pela modalização discursiva daquilo que se pretende preservar (valores ou padrões culturais, por exemplo), o que decorre igualmente da personalidade daquele que a professa a partir de determinado apelo ostensivo à preservação de algo.  Nesse conservadorismo de primeiro âmbito, o que está em voga é a defesa acerca de algo, como a predileção por um estilo musical em detrimento de outro. Em tais termos, todos somos conservadores sob determinados aspectos, como, por exemplo, a recusa de Adorno ao jazz como música alienante, cujo contraponto seria o dodecafonismo de Arnold  Schönberg. Neste sentido, quando busca se preservar ostensivamente com o uso da violência física, tal espírito conservador de primeiro âmbito, não é nada mais, nada menos que uma caricatura daquilo que pretende negar, denunciando assim o ‘double bind’ de sua confusão mental. Todos os fundamentalismos padecem desse mal.

Para além desse conservadorismo ordinário ou cotidiano, ou seja, em um conservadorismo em sentido filosófico ou de segundo âmbito, a busca pessoal por legados que, se jamais preservados, comprometem um conjunto de outros legados, torna-se, pois, uma conduta devotada à comunhão, à concórdia e ao diálogo. A propósito cito André Gide: “Não existe acrópole que a onda da barbárie não possa atingir, nem arca que não acabe por afundar: agarramo-nos a destroços.” Vale considerar que não tendo um livro, um ‘Capital’ sequer para conduzi-lo nem mesmo uma esperança perfectível como guia, a não ser o lume das experiências pretéritas vividas pela totalidade dos homens história a fora – a filosofia do conservadorismo não se afilia a bom-mocismo ou comportamento politicamente corretivo, contrapondo-se individualmente a tudo o que põe em suspeição uma tradição. Dirimindo a impressão de que ser um ‘conservative’ é ser palmatória do mundo e que por sê-lo julga indistintamente a todos, é que recordo do pensador conservador Michael Oakeshott que, com tamanha licenciosidade, fora pego em uma praia praticando, segundo o inquérito policial: ‘atos libidinosos publicamente.’ Como não propõe uma engenharia social ou uma profilaxia, à filosofia conservadora não interessa interpor limites às condutas particulares – até porque ensejá-las é dar indícios de um ‘double bind’ – o que interessa é a preservação de determinados êxitos humanos, seja na cultura, seja na língua, seja nas ideias. Ou seja, face aos perigos da destruição e do esquecimento – intrínsecos à própria história – em determinadas circunstâncias certas aquisições históricas devem ser preservadas sob pena de fazer vacilar as demais aquisições. A propósito, uma simples investida histórica na noção de propriedade como um bem já nos dá a medida de uma aquisição que precisa ser conservada, afinal não é novidade que, em priscas eras, a vida – como expressão dessa propriedade – era escravizada e sacrificada em esgarçamentos coletivos (‘sparagmos’ em grego).

Uma leitura mínima de Espinosa já seria o suficiente para esclarecer o conceito de autopreservação o que, em determinada medida, dimensiona o grau de conservacionismo de tudo o que nos cerca, desde o primeiro âmbito conservador: “toda coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser.” ( Espinosa, Ética III, prop. 6). Dito de outro modo: tudo o que é, quer permanecer em si mesmo, de modo que resistirá a toda força tensional proporcionalmente inversa. Que isso nos torna extremamente conservacionistas ou conservadores em determinados aspectos é algo óbvio, mas insuspeitadamente tal certeza não avulta à mentalidade progressista, lançando-a em um conjunto de ações violentas (‘double bind’) imunes à falsificação. Nestes termos, o que separa um fundamentalista religioso, um revolucionário e preconceituoso comum – nos limites apequenados do conservadorismo de primeiro âmbito – é apenas a radicalidade de suas próprias ideais que, incapazes de elevação para o grau superior, regurgita sua própria ignorância. Mais especificamente na mentalidade progressista isso se dá na perspectiva mesma de preservar uma conquista específica, de modo que uma identidade firme logo se imporá para preservá-la. Não por acaso é que figuras revolucionárias que, em algum momento, se juntam em nome de uma causa, quase sempre se perseguem, com efeito, um dos pares reclamará à causa uma medida desproporcional de autopreservação. Compreender que a própria marcha progressista traz consigo um calcanhar reativo ou conservacionista é algo que desencadeia aquilo que Carl Jung chamou de ‘enantiodromia‘, ou seja, compensação psíquica que perante circunstâncias adversas ou modifica o indivíduo, ou enrijece seu discurso, à maneira de alguém que afirmasse: “São louváveis os atos, mesmo os mais ferozes, que levam ao advento da igualdade e detestáveis os atos, mesmo os mais misericordiosos, que retardam ou entravam essa moralização definitiva e universal.” (Trostky. ‘Leur morale et la nôtre‘, 1939). Em linhas gerais, o impulso conservacionista de primeiro âmbito, que se encontra em qualquer gradação ideológica à esquerda ou à direita, concede aos seus ideólogos um assombro vexatório de espelhos antepostos cujos reflexos são simétricos. Por certo, isto é observado desde um dos hexagramas do I Ching: “Quando os acontecimentos chegam aos extremos, dão origem aos seus opostos.” Na teoria matemática da singularidade de Ray Kurzweil isso se dá sob os seguintes aspectos: “Um ponto em uma progressão habitualmente contínua, se torna infinita, implicando a falha de qualquer extrapolação além desse ponto.” Ou seja, em um limite específico: estando à esquerda ou à direita, ambos serão conservacionistas às suas respectivas maneiras, cujas justificativas de primeiro âmbito serão sintomas de uma patologia. O limite em questão é a auto-piedade de alguém – à esquerda ou à direita – que alardeia o retorno à pureza, daí o ‘double bind’ de purificar para destruir: ‘Nasci para mudar o mundo desde o zero.’ Toda tentativa (à esquerda ou à direita) que clama por essa certeza anterior, padece de certo paganismo insuspeito, à maneira de um ritual de magia que se direciona a um esforço voluntário para reconquistar uma ligação perdida com um ciclo natural, outrora, corrompido.  A reconquista e consequente precipitação de um apocalipse, de uma Revelação escatológica sobre as coisas do fim, é o elemento distintivo do ritual, que se pauta na interpretação analógica dos movimentos cíclicos e de seus sinais. Neste sentido uma Revolução, além de ser a volta ou o retorno para o que se perdera por meio de um conjunto de interpretações, é igualmente um análogo cósmico do realinhamento dos planetas. Nesta direção é que parte a impressão benjaminiana de ser a política um ritual secularizado, em que tendências ideológicas reclamam a pureza celestial para os seus propósitos.

Digressões à parte constato que a estranheza decorrente do I Encontro da Juventude Conservadora não apenas se deve ao nome que quase soa como um escândalo (‘Mas ai do homem pelo qual vem o escândalo’ – Mateus 18.7), mas, sobretudo, de um conservacionismo intelectual que, sem suspeitar, se mira constrangido naquilo que não quer ver. Daí a estranheza no sentido freudiano: O estranhamento sobre algo se dá quando aquilo que não deveria vir à tona se manifesta. Como nas tragédias gregas, em que o herói é expulso da sociedade e carrega a culpa sem se dar conta de que o coro que o acusa é um conjunto numericamente superior de filhos parricidas, ou melhor, o coro é quem matara o proto-Pai; à maneira daquelas tragédias, a expulsão e deposição de alguém com propósitos supostamente superiores padece quase sempre de seu propósito inverso, sintomático de um ‘double bind’ insuspeitado. Qualquer semelhança com o dogma de Lênin não é mera coincidência: “Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é.” Tal expulsão e deposição se dá na seguinte medida: ‘Como somos progressistas devemos, sem hesitar, massacrar qualquer manifestação notoriamente conservadora.’ Existe algo mais conservador do que se esforçar para parecer o contrário, como se fosse possível se contrapor retroativamente a Paul Valéry (?): “Tantos horrores não teriam sido possíveis sem tantas virtudes.” (‘A crise do espírito’, 1919). O estranhamento decorre por que o que não deveria vir à tona é o próprio conservadorismo daqueles que supõem combatê-lo cuja vaidade e empáfia é proporcional à soberba e às páginas do currículo. No mais esse conservadorismo de primeiro âmbito concede àquele que se vê no espelho do que supõe negar, o assombro de um constrangimento; à maneira do tom professoral de quem, em sala de aula, sussurrasse: ‘Conservadores são seres jurássicos. Todos os seres jurássicos merecem ser exterminados.’ Como a sanha conservacionista é constante no momento em que um Professor defende seus autores e suas teorias; defesa que paga os seus proventos, e que, inclusive, o distancia de qualquer ameaça à sua reputação (conservadorismo de primeiro âmbito), nada mais oportuno que denunciar o ‘estranho’, nos seguintes termos: ‘Pelo respeito e à tolerância, expulsemos todo o conservadorismo da Universidade a pontapés.’ Sem o saber, nesse instante, tal acadêmico espelha um conservador de primeiro âmbito, ou seja, alguém que queira preservar o seu espaço contra eventuais ameaças. Goethe, há muito, deu para tais figuras academicamente ‘tolerantes’, a seguinte medida: “Certas pessoas não abdicam do erro porque devem a ele sua subsistência.”

A ausência de empatia, compaixão e interpessoalidade que circunda a vida acadêmica é algo que se deve não à ideologia, o gênero, a causa ou a religião de seus entusiastas, mas, sobretudo, a um desvio de caráter. Portanto, o estranhamento de um Encontro Conservador de uma autointitulada: Juventude, faz precipitar – ao menos no espaço acadêmico – o perfil dos próceres da ignorância e da discórdia que, na confusão envaidecida entre os frutos do conservadorismo de primeiro âmbito com os de segundo, espelha o preconceituoso, o fundamentalista e o violento como uma paródia. Como se pode dimensionar uma Educação Superior em que certos temas são obstaculizados por um corporativismo que vive das aparências de currículos e produções que, sob determinados aspectos, não contribuem um milímetro sequer para a erradicação da pobreza (espiritual e material), a problematização dos índices de violência urbana, a geração de renda e o analfabetismo? Passadas as discussões e o evento, a Universidade continuará a mesma, como o tédio que acomete o coro logo após o sacrifício do herói. Esclarecimentos à parte, em uma ligeira postagem via Facebook, tentei elucidar a questão sobre a filosofia conservadora: pauta do controvertido Encontro. Antes que esqueça: não voto em Bolsonaro já que é natural desconfiar de todo e qualquer político, sobretudo, quando a figura em questão agrava sua condição de político falando e agindo por impulso. Pela compreensão do teorema da possibilidade geral e do risco moral pesquisados por Kenneth Arrow, segundo o qual, não há sistema político perfeito desde que a política padece de desonestidade retórica deliberada, creio que nada é mais desesperador que ser enganado, à maneira de quem descobre que é conservador quando cospe para nos provar entusiasticamente que não o é. Por fim, segue minhas breves considerações sobre a filosofia do conservadorismo:

Lição elementar de Conservadorismo (de segundo âmbito):

I. Só se conserva aquilo que muda, cresce ou se modifica. Em ‘O Leopardo’ (1956), assim pontuou Lampedusa: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está.” O que se preserva em meio à mudança, resistindo aos estranhamentos, é a tradição;

II. Entendo ‘tradição’ nos termos defendidos por AlasdairMacIntyre, como interpretação em curso do significado do passado, ou seja, como a aquisição de um legado atualizado e interpretado ao longo das gerações;

III. Certas tradições merecem ser preservadas desde que, não apenas nos constituem, mas demandam séculos de dor, sofrimento e sacrifício;

IV. A tradição só é virtualmente preservada se, ao resistir ao contínuo teste do tempo, for aprimorada em uma síntese civilizacional superior, ou seja, se dê contínuos frutos estéticos, éticos, políticos e morais. Todos os frutos anteriores são dimensionáveis pelo grau de renúncia, gratuidade e sacrifício tanto daqueles que os criam, como daqueles que os preservam;

V. Exauridos os esteios da tradição, que só se mantém por meio de paulatinas mudanças e pelo teste do tempo, a comunidade e os indivíduos ficam desenraizados, ou seja, esquecidos de si mesmos;

VI. O esquecimento de si mesmo, bem como da comunidade, é ancila da decadência moral e consequente degradação da vida pública;

VII. Moral da história: Preservar a tradição é preservar a si mesmo, em uma resistência pessoal não corporativa, ou seja, aquém de Partidos, Igrejas e agremiações. A responsabilidade de quem preserva algo é pessoal como uma disposição de caráter. Contra agentes imperialistas, forças do globalismo que quebram as barreiras regionais que impedem a livre circulação de capital não apenas em nome de monopólios, mas de certa hegemonia, homogeneizando as culturas; contra tudo isto o espírito preservacionista, doravante espírito conservador, é o que nos torna aquilo que somos. Especificamente, como um exemplo bem objetivo e didático: se cada um dos tópicos acima forem suficientemente compreendidos, creio que compreenderão porque tenho orgulho do Nordeste de Luiz Gonzaga, Ariano Suassuna, Josué Montello, João Gilberto, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, João Cabral de Mello Neto, Nauro Machado, Geraldo Melo Mourão; na medida que é o Nordeste que procuro conservar. Na mesma medida é por esta razão simplória que cultuo e preservo a música de Cartola em detrimento de um bubblegum norte-americano. Por esses motivos culturais e espirituais – vinculados a um ethos – qualquer nordestino que se preze é um conservador como qualquer brasileiro ao defender seu próprio país de estrangeirismos. Defendendo o conservadorismo dentro dessa perspectiva, sem a conotação sexista, misógina, preconceituosa e desvairada que soa à primeira vista, é que defendo o direito da livre expressão, do diálogo: seja à direita, seja à esquerda; seja à esquerda, seja à direita. Seria isso um pecado ou uma virtude?

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