Por Ivan Pessoa*

A teoria dos jogos de John von Neumann e Oskar Morgenstern; a teoria do equilíbrio de John Nash, bem como a teoria mimética da especulação financeira de Jean-Pierre Dupuy e André Orleán, põem em cheque o ideário do ‘homo economicus’ moderno como aquele que, em meio às situações interativas, toma decisões frias e racionais. O que move os homens é o desejo, que por sua vez não sendo racional, se dá por meio da imitação de modelos exteriores ao sujeito desejante. Portanto, se a ‘regra minimax’ de Neumann estiver certa, segunda a qual: em qualquer relação humana o que se busca é minimizar as perdas eventuais ao máximo, logo se conclui que comportamentalmente ‘as motivações humanas raramente são puras’ (Theodore Dalrymple). Como o ser humano não é um sujeito puro, mas um ser desejante a partir de determinados modelos imitados, logo suas ações são destacadas tendo em vista certos propósitos específicos, ou como diria Hayek: à tentativa desejante de atender uma quantidade de informação disponível, sendo informação aquilo que cria e mobiliza as ações econômicas e consequentemente as demandas. Em termos econômicos, riscos e incertezas são assumidos desde que norteados por modelos bem-sucedidos, ou seja, àqueles que criam a teia interativa das informações. Isso explica o comportamento do agente econômico ao tomar uma decisão, como buscar um bem em detrimento de outro, com efeito, certos modelos determinam suas ações desde antes. 

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Uma das teorias econômicas mais alvissareiras do século XX fora aquela desenvolvida por Amos Tversky e Daniel Kahneman, comumente chamada de : ‘economia comportamental‘; tese que já se confirmara com os bens de Veblen, para quem determinados bens são consumidos desde que cobiçados por celebridades e multimilionários. A esse desejo cego e desenfreado, Thorstein Veblen deu o nome de: ‘consumo conspícuo.’ Creio que se radicalizadas, ambas as teorias (de Veblen a Tversky-Kahneman) nos levarão para os mais espinhosos problemas da economia, crescentes desde a concentração de renda até a tulipomania, ou seja, às bolhas econômicas. Em linhas gerais ambas as teorias convergem para a mesma advertência: os homens querem cegamente algo desde que alguém já o tenha, com o propósito imediatamente seguinte de exitosamente incorporá-lo.

Para qualquer leitor de Girard indiciar o caráter não-racional ou mimético do ‘homo economicus‘ é algo tão simples quanto imediato, de modo que – em tais termos – toda a decisão econômica implica não apenas uma utilidade esperada, mas igualmente a realização de algum desejo que se mira em um modelo a ser imitado e eventualmente incorporado. Portanto, o que move as decisões econômicas de um agente livre é, não apenas a aquisição de um bem (qualquer que seja), mas sobretudo, a compensação por desejar ser um modelo que não se é. Tornar-se bem sucedido, neste sentido, é incorporar o modelo desejado, criando assim uma teia interativa de informação, ou seja, uma busca mimética por uma demanda. Em economia suplantar o modelo mimeticamente desejado é o mesmo que incorporar e reparar seus erros, fomentado assim uma cadeia produtiva nos termos preconizados por Albert Hirschmann como: ‘encadeamentos.’ Uma fazenda pecuarista, por exemplo, cria um encadeamento prospectivo desde que ajude outros setores a crescer, de sorte que eventualmente (quando bem sucedida) pode preencher uma demanda de mercado e aumentar consequentemente a oferta de carne e de couro. Em contrapartida, como depende de outros fatores que esbarram nas burocracias ambientais, uma fábrica química cria um encadeamento retrospectivo. Os governos só criam um parque industrial promissor quando conhecem o equilíbrio correto da produção e seus encadeamentos, que por sua vez decorrem da demanda mimética do consumidor e seus anseios de reparação às lacunas do mercado. Em linhas gerais, o êxito da produção é proporcional à rede interativa de seus encadeamentos prospectivos/retrospectivos, que é dependente do desejo daquele que consome e eventualmente preenche o lapso dos mercados.  

Produzir, comprar e consumir – em tais termos – se tornam pois o meio encontrado pelo homem para aplacar a frustração de não ser o modelo mimeticamente cobiçado, de modo que toda decisão econômica é uma supercompensação do fracasso de não ser aquilo que se gostaria. No primeiro caso, àquele que produz e cria uma teia interativa de informação econômica ou melhor um encadeamento, o que se observa é o desejo de incorporar um modelo anteriormente desejado, bem como uma lacuna de produção, de modo que, neste caso, recordo Kalecki: “Patrão é quem ganha o que gasta e trabalhador é quem gasta o que ganha.” Enquanto aquele que produz lida bem com seus modelos desejados, com efeito, os incorpora numa teia de encadeamentos; aquele que simplesmente consome move-se num crescendo de interdependências que só cessam se mimeticamente assumidas, como o escravo que falasse – ao menos para si mesmo: ‘A despeito dessas condições adversas, vou me libertar.’ O esforço ulterior de querer criar corajosamente uma teia alternativa de encadeamentos é que compensará todos os grilhões de outrora, de modo que, por estas vias, a riqueza se torna uma compensação retrospectiva que equilibra, excede e gratifica uma situação adversa anterior. 

Portanto, sendo a economia – como compreendeu Lionel Robbins – uma ciência das ações humanas diante de recursos limitados, o que move o ‘homo economicus‘ entre a escassez desses recursos e de seu conjunto de informações, é a rede da imitação e de encadeamentos, correntes no êxito de seus modelos almejados e custosamente incorporados. Tais modelos são interiormente aceitos como um propósito pessoal a ser alcançado ou como um alvo a ser invejosamente destruído. Quando o desejo de imitação desse ‘homo economicus‘ se torna ressentido, nada mais natural que mascará-lo com a falsa impressão de que a riqueza e a opulência não são desejáveis por serem espúrias e excludentes, de sorte que a busca interior se voltará não para incorporá-lo e repará-lo em um conjunto de ações exitosas – materializáveis na produção de encadeamentos, mas em uma hiper-competitividade que só se realiza com a negação do modelo almejado, ou seja, por meio da violência física ou simbólica. A isso, Girard deu o nome de: crise do modelo mimético. Todo homem normal deseja ter o que ainda não tem, excetuados – por um desvio de comportamento – os discursos de sujeitos progressistas, que falam publicamente em ‘revolução’, quando (em privado) clamam por: hiper-concentração de poder, ou seja, ao paroxismo do desejo de suplantar o opressor na culminância de um Indivíduo Absoluto. Pela impossibilidade de rivalizar com seu modelo vis-a-vis, resta ao ressentido a impressão de que destruí-lo é a compensação triunfal e coletiva de seu fracasso individual, à maneira da expulsão do herói entre os pagãos. 

Explicar isso para aqueles que creem que os homens anseiam por autonomia e liberdade (truísmo da modernidade e de seu ‘homo economicus‘ frio e racional) é quase sempre uma perda de tempo, afinal a idiotia cínica dos que creem nisso silencia quando questionada: ‘Qual é o custo financeiro da revolução que promoves e quem lucrará com ela? Quem a financia? Comprar armas, montar aparelhos, escrever e distribuir libelos panfletários não implica a ideia de que alguém mui abastado os financiará, sobretudo, se a causa em questão partir de homens oprimidos?’. Em termos miméticos e comportamentais, uma Revolução (em qualquer âmbito) só faz sentido se for tão ou mais poderosa do que o modelo a ser negado, de modo que aquele que a financia almeja por mais poder e consequentemente ao estabelecimento de informação e demandas econômicas, visando assim à suprassunção de seu objeto friamente desejado. Os 900 milhões de dólares de Fidel Castro, os dois rólex de Che Guevara (encontrados em seu pulso quando de sua captura) e o vaso sanitário de ouro do Camarada Nicolae Ceaucescu não nos deixam mentir, com efeito, são a expressão radicalizada dos hábitos egoístas que supunham fervorosamente combater. Diferentemente do marxismo tragicômico (aquele que quer fundir poder político com poder econômico nas mãos de um Indivíduo Absoluto: o proletariado, dando a ideia de que o fará voluntariamente por amor ao oprimido), por ser um marxista de orientação Groucho, toda vez que vejo uma nascente Revolução, recordo desta advertência: “Há muitas coisas na vida mais importante que o dinheiro, mas custam um dinheirão.” Todo homem bem intencionado, como um ‘homo economicus‘ ressentido dos êxitos alheios, se move por um propósito auto-probante que se dá sem provas exteriores, de modo que vacila perante perguntas capciosas à maneira dos estratagemas de Nietzsche: ‘Por que devo amor o próximo, por qual motivo? Por que, perante uma injustiça, devo estender-me sobre seus ombros? Diga-me, por que chorar a dor do outro? Acaso não percebo que, o que estou propondo, é apenas um cristianismo requentado, cujo céu é apenas uma artificiosa compensação de classes?’

Todo idiota se diferencia substancialmente à sua respectiva maneira, mas se assemelha sem suspeitar que alguém paga e lucra por sua idiotia. 

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