Por Ivan Pessoa

A realidade não pode ser traduzida para o registro do simbólico, de modo que sua clarividência – vivenciada por alguém – é capaz de aguçar silêncios. Portanto, quanto maior a incidência da realidade sobre a retina silenciosa de quem a capta, maior a incidência do íntimo e gracioso estupor que só pode se dar como: gesto ou obra. O que fica da experiência interior, aliás, do silêncio tartamudeante da situação anteriormente realizada – extraordinária – é a decisiva vivência e a ânsia de comunicá-la, que se consuma, eventualmente, como uma expressão potencialmente súbita e criativa.

Ninguém pode se tornar aquilo que não pode encontrar nas suas próprias memórias“, assim escreveu Jean Améry, de modo que é assim que a realidade saudosa irrompe, como uma disposição afetiva que, na incapacidade de duplicar o passado, se doa como febre. Deste estado febril, o homem cria, ansiando liberar e estancar expressivamente essa experiência. A insistência desse estado de febre é a nostalgia, aquela porção ansiosa de realidade que vez ou outra grassa entre os homens o passo leve de uma saudosa melancolia. Sua conservação funda uma comunhão de almas, suspendendo a ordem do tempo como uma partilha de vozes que, relativamente distantes, entreouvem-se sem suspeitar. 

§1

No dia 22 de junho de 1688, o estudante de medicina alsaciano Johannes Hofer, em sua tese: ‘Dissertatio medica de nostalgia‘, teria inventado a palavra ‘nostalgia‘. Após perceber o estado confuso em que os soldados suíços se encontravam no front – distantes de suas montanhas nativas – alternando febre alta com dores estomacais, Hofer teria contraposto as palavras gregas: ‘νόστος‘ (stos) e ‘ἄλγος‘ (álgos), dando a esta enfermidade o sentido aproximado de: ‘dor do regresso.’ Como uma imagem inesgotável, que se renova assim que recordada, o expectante regresso – ou melhor, sua impressão nostálgica – é a lembrança de algo suficientemente grandioso que, de sua falta, entristece aquele que a recorda, indispondo, inclusive, sua saúde física. De que sente falta, o soldado em estado de guerra: de sua terra, de sua casa, de suas montanhas ou de algo que, sem saber o nome, também lhe acometeria em tempos de paz?

Quando saudável, o estado nostálgico enseja a compensação do que fora perdido, ainda que permanentemente recordado, por meio da captura da Eternidade em meio as ruínas da guerra alhures. Portanto, a nostalgia é um registro imediatamente súbito e compensador daquilo que se perdeu, em determinados casos: sem mesmo se suspeitar o que a correnteza levara clandestinamente em silêncio. O que se deixa recordar é a incorruptibilidade de um estado pretérito, morada cuja acolhida é um símile do Ser enquanto Unidade.


§2

A despeito das desventuras históricas de uma guerra qualquer, há em cada um de nós – com relativa especificidade – uma disposição saudosa para a morada do Ser: o imutável, de modo que apenas o que é grandioso e extraordinário (como uma montanha ou um campo aberto), pode nos contentar o espírito e imediatamente nos causar uma incontida saudade, como se parcialmente fosse compensável o que se perdera. Como um lusco-fusco, o estado nostálgico é a compensação de uma perda igualmente grandiosa, cujo silêncio é proporcional. Ser acometido por uma nostalgia é recordar aquilo que, sendo infinitamente superior ao que somos, justifica e engrandece a crueza de uma existência; o que levaria François René de Chateaubriand a concebê-la como: ‘semente da Eternidade‘, cujo ímpeto só pode brotar entre aqueles que cultivam o estado melancólico do silêncio. Mutatis mutandis, Aristóteles via – em tal estado de uma melancolia de exuberante saúde (kata physin) o surgimento orgânico da filosofia, cujo contraponto é a melancolia enfermiça do bilioso (kàta nóson).

Quanto mais elevada e singela é esta ‘semente’ e mais saudável é esta melancolia, mais simbólica e poética se torna sua colheita, dando – àqueles que a cultivam – a dádiva espiritual da contemplação e do contentamento, advindo daí: os rumores das artes; a tônica musical; o crepúsculo e o Amor que, em períodos da história: pacíficos ou belicosos, sustentam a própria história. Por certo, é a semente da eternidade e o estado da melancolia saudável (que incidem sobre os homens como uma nostalgia de períodos e espaços não muito precisos) que asseguram relativa segurança ao intervalo ente as gerações; em um extremo que vem desde os antigos até os não nascidos. Entre ambos: um Nome, um propósito, um objetivo, uma obra, só se sustentam se remetidas nostalgicamente à incorruptível semente, cujos frutos – quando saudáveis, brotam, mas jamais se esgotam.

No anseio de regressar à sua morada (ainda que a guerra o atemorize) o homem cultiva a si mesmo, arborizando as passagens de sua travessia como quem escreve um poema ou entretece um buquê à luz do dia, enobrecendo o sentido da Vida. A disposição deste saudoso afeto é tão grandiosa, posto que gratuita, quanto contemplar silenciosamente o que se recorda, tanto quanto cultivar uma rosa de imarcescível Beleza. Em meio à guerra cotidiana, quando o espírito almeja e labora em busca de sua sanidade: como não maravilhar-se intimamente com escarpadas montanhas e com o sobre-nome de nossa identidade pessoal, da mesma forma, como não exultar-se nostalgicamente perante a semente da Eternidade que, por vezes, se dá como um poema, ou como música? A capacidade de maravilhar-se em silêncio com uma poesia; uma situação pretérita, ou mesmo deixar-se conduzir por uma saudade desconhecida, embevece, desde que redima as mazelas e trevas da vida. Aliás, como não recordar a constatação de Chateaubriand perante um poeta inglês, recém-chegado à França de 1789: “Existem pessoas que, por mais que os impérios desmoronem entre guerras, cultivam-se (nostalgicamente) em seu próprio jardim.” (?)

Enquanto a história desmorona hic et nunc há sempre uma nostalgia que desavisadamente deve ser cultivada sob pena de precipitar a vida ao desespero do tempo imediatamente presente. Por sobre o agora que passa sem deixar rastros, há uma nostalgia que jamais cessa de contentar, como a rosa de Silesius que: “não tem porquê. Floresce porque floresce. (…). Nem pergunta se alguém a vê...” O olhar que contempla essa nostálgica rosa em meio a um saudoso jardim e, ao longe, a serenidade de uma grandiosa montanha: tudo isto és tu (Tat tvam asi). Descobri-la é tão decisivo quanto um despertar em silêncios.

Nunca é demais supor que o que silenciosamente ansiamos é o regresso à Unidade.

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