Por Ivan Pessoa

 

De um modo assaz reducionista façamos eco às palavras de Carlyle, sem hesitar: ‘O homem é o animal que fabrica ferramentas. ’ Todas as demais possibilidades talvez gravitem ao redor desta certeza: todos os artefatos criados pelo homem representam uma extensão de si mesmo, empenhado em aplacar minimamente tudo aquilo que lhe indispõe a existência. Como consequência, tudo o que não provém da própria natureza (physis), deixa escapar a extensividade do corpo humano, ou melhor a sua intervenção artificiosa. Veja qualquer coisa ao redor e entenderás. Para conter as aparições inesperadas dos inimigos e da morte, surgem as fronteiras, bem como as muralhas, que são decerto a substituição simbólica e altiva dos olhos que perfilam a porta contra uma ameaça. Do mesmo modo, impedidos de voar como os pássaros, eis que os homens fabulam outros voos, tendo sua primeira aparição em asas que, untadas com cera de mel, derretem em contato com sol.

Ora, ao dobrar parcialmente a natureza por meio de seus artifícios, o homem exterioriza-se por meio de uma tensão entre o corpo que se projeta contra perigos iminentes e sua própria preservação. Em uma tentativa mínima que seja – aquela de buscar conservar-se – tudo o que é humano se revela um artifício exaustivo de inteligência, empenhado em recuar perante as ameaças, aplacá-las e eventualmente legar sua descendência às gerações vindouras. O que daí surge é o empenho do nível de auto-conservação, a saber: das tensões de sua morada – edificada perante os perigos do presente e as incertezas do porvir – de sorte que nada é mais impreciso (no tocante à extensidade do corpo humano) que postergar a vida como um legado.

O fato de o homem ter abandonado o frescor das árvores, a comunhão da tribo, em nome de sua maior segurança, abrigando-se desse modo em algo que chamaria de casa, se deixa melhor ilustrar, simbolicamente, com o sentido dado pelos medievais à palavra indivíduo, significando algo enquanto indiviso, ou seja, inextrincável, coeso, não divisível. Ao recolher-se, o homem protege a si mesmo de qualquer adversidade, desde as que vêm com os raios do sol, àquelas que se abrigam em ameaças desconhecidas. A simbologia de uma casa está para o corpo como uma janela para um olhar, alargadas desde que as condições mínimas de dignidade e segurança sejam asseguradas. Nestes termos, quanto maior a preservação da casa interior como corpo, maior a abertura da janela como um olhar e, do mesmo modo, menor a tensão do ambiente. Sendo assim, eis que se pergunta: O que seria uma porta?

Alguém que comece por esquadrinhar o corpo a partir de suas janelas da alma, sem mais, se refere aos olhos, com efeito, imediatamente dianteiros àquilo que se vê. Deste modo, são janelas abertas ou fechadas que proporcionalmente ou se abrem à acolhida da luz, ou quando não, impedem o seu  ingresso, agravando assim a tensão do ambiente. Em proporção a porta, que fica arquitetonicamente próxima à janela, seria melhor imaginada como a boca, abaixo dos olhos por razões óbvias, desde que não dimensiona de um modo súbito, sem verbalizar: a beleza de uma flor, a grandeza de uma estrela, o curso de um rio. Enquanto o olhar é imediato e silencioso, contemplando sem sequer esboçar um sentido verbal, as portas da boca só se efetivam quando acirram uma expressão exterior, seja gritando, tartamudeando ou falando. Tudo o que entra em uma casa tem preferencialmente o seu ingresso por meio de suas janelas, que podem apressar a entrada ou a expulsão da luz. Detê-la, ainda que parcialmente, é uma experiência decisiva. Entretanto, por outro lado, para ajustar-se e minimizar as ameaças do ambiente, o corpo como casa precisa abrir sua porta, como a boca que, estando em perigo, esboça uma reação. Deste modo, a porta põe a casa em desabrigo, lançando-a como verbo para o mundo. Aliás, janela é luz; porta é verbo.

O sentido maior de intimidade como indivisível, ou seja, como casa interior – está intrinsecamente relacionado com aquilo que se deixa ocultar por detrás da porta, por aquilo que se pretender preservar como uma promessa verbal; justificado que será à luz do que vislumbra à janela. Aos olhos da história, o grau de civilidade de uma era vincula-se necessariamente à escuta (como uma ordem) das demandas supratemporais: valores e virtudes – por exemplo, o que exige a segurança da casa que se preserva como um propósito superior no decurso de uma geração. Nestes termos, só pode haver história quando a ordem do espírito é cultivada em silêncio pelas janelas e portas dos que virão. A ausência dessa escuta revela o descompasso entre os olhos e a boca, como se o ato de ver não acompanhasse o ato verbal, e em sentido análogo a casa interior manifestasse a bagunça de um clandestino. Tal descompasso é como uma doença do espírito, cujo intervalo é a dissonância entre ver e falar.

Quando ajusta a unidade orgânica vendo e falando desde um ponto de vista superior, a condição humana dispõe os efeitos da claridade; extensiva àqueles que a incorporam em suas próprias casas, de modo que, em um recolhimento, é capaz de aclarar um corredor tão espaçoso quanto o alcance da claridade. Esse corredor estreito é a imprecisão da história. Entretanto, quando em desajuste, ou seja, subjugada pela escuridão da ausência de unidade, o que se vê bem como o que se fala é a própria expressão do que esmaece. Quanto maior o alcance da claridade – perpassável por uma escuta aos apelos supratemporais, maior a investida de suas janelas e, consequentemente, maior a herança de uma liberdade parcialmente familiar e cívica. Portanto, a unidade entre olhos e boca, janelas e porta é um atestado documental da grandeza de homens e civilizações.

Por mais que as contingências apressem súbitas batalhas, guerras e catástrofes, ainda assim ao bastar-se em seu sacrifício intransferível, restará ao homem uma lúcida esperança em meio a mais ávida escuridão, com efeito, escuta os clamores dos que, por sua antecedência, também dispenderam coragem, destemor e luta. E então haverá sonhos e vozes noturnas, fugas e sobrevoos, afinal ao fechar a porta, cerrar a boca, tornar-se-á potencialmente uma archote de atualidade, cuja presença é inteiriça como a de um soldado que atravessa a escuridão. O que pensa alguém que, estando nos desertos, mira as nuvens que passam, indiferentes aos acontecimentos ao redor? Como se considerar alguém que, habitando entre os que tombam, aclara a caminhada com suas janelas abertas? O silêncio, a coragem e a intrepidez nada mais são que a luz em estado maciço, aquilo que por se bastar a si mesmo, doa-se sem sequer se esgotar. A unidade da presença, sua integridade, denunciam desde os olhos das janelas acesas, a grandeza sobressalente cujo chamado – se escutado a posteriori – reorienta o curso de histórias pessoais e interpessoais.

Não é de todo incoerente afirmar que, todo esforço humano em abandonar o abrigo da natureza em detrimento de sua morada individual, talvez só alcance seu estágio mais avançado, quando a presença física incandesce por meio de demonstrações de profunda inteireza, alcançável quando da escuta de um apelo sobre-humano, algo que requer um nível demorado de janelas abertas para aquilo que é verdadeiramente real. Sendo assim, é que se deve tomar a grandeza de um ser humano e em proporção, a nobreza de um povo, senão como consequência de seus apelos passíveis de escuta posterior, ou seja, do nível de seu legado; na graça de sua obra.

Alguém que se jacte de falar destemidamente, ciente de que não saiba ouvir, com efeito, é alguém que por ter as janelas entreabertas, não distingue com precisão, a diferença entre a luz do sol e a providência de uma lâmpada. Por não fazê-lo, esquece a porta perante um descuido e então tudo cega, às escuras. Tais situações revelam a ausência daquela unidade outrora observada, destacável quando da suprassunção entre os olhos e a boca, as janelas e a porta. Se ampliada, a tagarelice de tantos indivíduos em meio às multidões decerto confirme os perigos de seus clamores mais cegos que, por sua vez, denuncia a dispersão daqueles que as ouriçam. O que se espera, perante a vulnerabilidade de uma porta aberta que, por não ter chave, não incita resistência? Ou mais precisamente: que prontidão esperar de uma porta que dorme sem chave? A porta, quando coesa, una, íntegra é como a boca que se demora e se apresenta firme e inteiriça. Quando não, deixa-se invadir sem nem mesmo suspeitar as ameaças que a acometem. Entretanto, o que é a porta sem sua respectiva inteireza, senão uma casa sitiada por ameças, tencionada por uma multidão impessoal de clamores desconhecidos? Pode a porta coexistir em casa sem sua respectiva unidade orgânica? Por conseguinte, sem unidade a porta vacila perante a ameaça. Doravante, unidade é chave; chave é unidade.

Alguém que guardasse um segredo, algo entre uma descoberta sacrificável e uma Verdade súbita, só tranquilizaria o seu sossego no instante em que trancafiasse o seu silêncio – negando-o a uma eventual ameaça, pondo-o no bolso de seu alforje. Destarte, levaria consigo onde quer que fosse. Daí a certeza de que a chave é a consumação do engenho humano como casa, pelo simples fato de que, vela o que se quer oculto, como uma carta confessadamente pessoal. Se outrora os homens habitavam coletivamente aos bandos – até alcançarem um progressivo confinamento em si mesmos e consequente segurança pessoal – por meio de uma fabricação de ferramentas,  todo o êxito do percurso histórico se reduz tão somente: à unidade inteiriça que perfaz as entrelinhas de uma chave. Conservando-a em uma gaveta, um Pai pode preservar minimamente intacto o segredo de toda sua ancestralidade. Perdê-la, neste caso, pode comprometer toda uma descendência. Portanto, a unidade de uma chave extrema a saúde de uma descoberta que se preserva, ou a doença de sua perda. Saúde é unidade; doença é dispersão.

Pondo às claras aquilo que estivera oculto, desencobrindo o mais íntimo decoro, vê-se, pois, em cada chave algo como uma iluminação. Nada do que repousar por dentro de uma caixa selada, permanecerá indisponivelmente seguro se uma chave contrariar seu último segredo; nada restará intacto se uma revelação estiver prestes a ser integralmente anunciada, no que recordamos as palavras de Georges Braque: ‘As provas fatigam a verdade.’

Os tesouros de uma geração se determinam sobremaneira em função dos segredos desvelados pelas chaves que lhe são intrínsecas, sob os quais toda tagarelice, toda inverdade é inteligentemente contrariada. Destarte, tais segredos dependem de homens que, por sua vez, são aqueles que se doam em unidade a propósitos superiormente decisivos, cuja escuta reorienta uma existência.

Por qual caminho segue o homem que é a unidade de uma casa interior, sacrificando sua própria luz a sopesar os mistérios do mundo?  Tal homem, sendo o mais próximo da presença real, anda pelo mundo desabrigando as trancas, os entraves de tudo o que se oculta, de toda verdade recolhida. E o faz em silêncio já que seus olhos o denunciam. Ao alcance das mãos, nada mais que o necessário: um punhado de sonhos, migalhas de pão e uma infinidade de chaves, indispensáveis, diria.

Se Carlyle estiver certo, o homem é o animal que fabrica ferramentas, sendo tudo uma extensão artificial do corpo humano, cujo suprassumo laboral é a chave como unidade. Enquanto as janelas são os olhos da casa, por meio dos quais o sentinela espreita a luz que invade a torre, bem como se prontifica à iminência do inimigo; as portas são as palavras que escapam à boca, dando abrigo àquilo que veem os olhos. Enquanto a primeira é a dependência da luz, a segunda é a exterioridade do verbo, em um extremo entre a passividade e a ação. Entretanto, ainda que relativamente distintas, janelas e portas dependem – por razões intrínsecas à segurança da casa – da unidade da chave que as protegem. Quando ajustável pela caminhada demorada de quem a descobre, a chave molda progressivamente a casa do homem à realidade; ajustando-o aos apelos supratemporais. Quando desajustável é como uma casa cuja porta vacila entreaberta, e tudo o que a ameça logo a assedia.

Sem hesitar, o único constructo humano capaz de consumar toda a expressividade de sua presença como símbolo é uma chave que, por menor que seja, é capaz de guardar surpreendentemente a essência de todos os homens, povos e civilizações. Por que não confiar a si mesmo uma certeza, já que todo silêncio conspira a favor dos que pensam? Saiba: a chave nada mais é que a Verdade última: aquela que encontrarás quando despertares em unidade e, impedido de dormir sob a luz incandescente, lançará com as janelas dos teus olhos um ato de amor, um gesto, uma obra; em uma crescente de generosidade que, extraordinariamente, levará outras casas ao desvelamento. Por alcançá-la, ficarás em silêncio, porém maravilhado; como a estrela à noite que, se sacrificando, decerto incandesce. Por menor que seja, a tua chave desabrigará outras portas e então outras janelas se abrirão, convidando pacientemente os que a escutam, à abertura de outros portais. Neste instante, a chama do teu espírito iluminará os corredores de algum lugar, e não por acaso, desassossegará aquilo que até então estivera encoberto, como um segredo por ser dito; o silêncio de uma revelação; o suspiro de uma reticência…

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