Por Ivan Pessoa

 

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Recentemente encontrei, em uma dessas postagens avulsas do Facebook, uma campanha publicitária da Geração de Valor – blog do empreendedor Flávio Augusto (fundador da rede de ensino de idiomas Wise Up) – cuja imagem destacava a mão de um homem de terno dando um hambúrguer para alguém que, com as mãos ligeiramente sujas, aparentava ser um mendigo. Acima da mão encardida do provável mendigo estava escrito em letras garrafais: ‘QUER SALVAR O MUNDO?’, de modo que a resposta vinha abaixo da mão contrastante do suposto executivo: ‘Salve um mundo de cada vez.’ Em termos visuais e, mais especificamente, seguindo à risca a recomendação do gênio Rosser Reeves, que surpreendentemente era capaz de promover até os então desconhecidos chocolates M&Ms, haja vista, o slogan televisivo na América dos anos 50: ‘derrete na sua boca, não na sua mão’ – nada engrandece mais uma chamada publicitária que o foco. Seguindo a recomendação do gênio: publicidade é focar no indispensável, jamais no acidental.

Por certo, para além do apelo publicitário, há nessa chamada da Geração de Valor uma reserva filosófica capaz de nos fazer pensar sobre temas de primeira ordem, como, por exemplo: o que é salvar o mundo ou mesmo, o que é combater a pobreza? Entretanto, antes de salvar o mundo, cabe a pergunta: o que é pobreza? Destrinchando-as, a partir da mera observação, se chega à certeza de que a pobreza é uma condição adversa e degradante que, por impedir um avanço (de qualquer ordem) indispõe o homem à mediocridade confortável. Portanto, pobreza é, em outras palavras, aquilo que paralisa o homem; negando-lhe dignidade. Seu antídoto só pode se dar via sacrifício pessoal, ou seja, pela capacidade que o acometido tem de contrariar aquela herança adversa – familiar ou cultural – incorporando-a em um conjuntos de ações conscientes e exitosas.

Se ampliada (para além de seu sentido corrente) a palavra: pobreza vislumbra duas possibilidades semânticas: pobreza material e pobreza espiritual, sendo este último termo uma variante não especificamente religiosa, mas parcialmente cultural, que se transfere como um legado particular entre gerações. Nestes termos, ambas as versões da pobreza são atualizáveis em um momento histórico posterior, no instante em que seus descendentes nem mesmo a suspeitam como uma herança. Aplacá-la significa o mesmo que quebrar os grilhões da condição anteriormente herdada. Desse modo, em sentido conceitual, se pode avaliar a pobreza material como a condição adversa e degradante que surge quando da precisão parcial ou total de bens econômicos, sendo esses bens mensuráveis pela estabilidade, ou seja, pela possibilidade de recorrê-los quando de algum imprevisto. Não é admirar que o modelo fiduciário das moedas se paute no lastro, que em sentido ordinário seria o mesmo que honra. Portanto, se riqueza é sinônimo de estabilidade e confiança, como por exemplo, lançar mão de um empréstimo quando de uma emergência a partir da segurança de um nome – pobreza é seu contrário imediato, sendo, portanto, sinônimo de instabilidade e desconfiança. Aliás, se melhor contextualizada: riqueza é crédito; pobreza é descrédito. Inclusive, como toda decisão econômica implica uma utilidade esperada, ou seja, a realização de um algum desejo a ser satisfeito – como preferir uma empresa à carreira no serviço público – nada mais natural que perceber que o que empobrece os indivíduos, bem como as famílias, é o consumo irracional e a falta de planejamento, afinal um dos segredos da economia é a breve observação de Friedrich von Wieser, para quem: ‘preço é determinado por aquilo que se abre mão para obtê-lo.’ Portanto, o preço de uma vida relativamente segura é determinada pelo seu grau de sacrifício que, se jamais avaliada a médio e a longo prazo, pode se tornar um problema (financeiro) legável para filhos e netos como um nome sem lastro.

Este legado negativo, que compromete o crédito familiar e consequentemente seu nome, se dá cotidianamente por meio de determinadas decisões financeiras, como a tentativa de se vingar de um passado adverso recorrendo a um consumismo desenfreado. Deste modo se pode concluir que a pobreza material é a condição adversa e degradante que surge quando da precisão parcial ou total de bens econômicos a partir de um legado negativo particularmente familiar ou individual, ou seja, pela incapacidade mínima de sacrificar e planejar determinados desejos e decisões econômicas. Em outro âmbito, por pobreza espiritual se compreende um legado particularmente ancestral que, em vez de inquietar os descendentes para conquistas jamais vislumbradas por seus antepassados, acomoda-os em uma cadeia retrospectiva de fracassos e consequentemente desejos inconscientes de vingança. Tais desejos se manifestavam objetivamente por meio da relação oscilante entre inveja, revolta e extensivamente consumo irracional. Neste sentido, pobre de espírito é aquele que inveja aquilo que, inconscientemente, gostaria de ser. Entretanto, tal descoberta em vez de lhe dar a medida de um triunfo, causa-lhe ressentimento. A expectativa de ser o que não é, vulgarmente conhecido como: viver de aparências, concede ao pobre de espírito uma compensação por seus fracassos herdados familiarmente. Nesses termos não é apressado afirmar que as famílias historicamente mais pobres são aquelas que, sem credibilidade, crédito ou nome (lastro), legam uma condição adversa para seus descendentes por meio de uma espiral de instabilidades emocionais e financeiras, que só são minimamente reparadas quando assumidas decisivamente por um de seus herdeiros, decerto por meio de seu sacrifício particular. Fazê-lo é perdoar o passado, ou melhor, é sacrificar o presente. Fazê-lo é redimir o porvir na perspectiva mesma do que dissera o pensador Eugen Rosenstock-Huessy: “Sem previdência não há futuro.”

Por conseguinte, nem sempre é possível determinar o que surge primeiro com relativa antecedência, comprometendo assim a ordem familiar e social: a pobreza material ou a pobreza espiritual, de sorte que são a linha tênue entre a aparência e a realidade, ou seja, entre aquilo que se supõe ser e aquilo que se é. Aceitar aquilo que se é e buscar tornar-se melhor, talvez seja uma das vias contrárias à pobreza, seja em sentido material, seja em âmbito espiritual. Neste sentido, como é um problema dúbio entre a aparência e a realidade, nem sempre é possível determinar quando de fato se está perante um homem efetivamente pobre, afinal não são suas míseras porções de bens materiais que o comprometem, com efeito, podem ser reparadas com trabalho, sacrifício e planejamento financeiro – mas sim o seu espírito, que pode denunciar a pequenez de seu caráter: vil, infame e repulsivamente ressentido que, se ampliados para a sociedade, se tornam problemas sociais. Destarte, um homem cujo caráter se torna publicamente pior – em todos os sentidos – à proporção que o tempo passa ao seu redor, é a expressão tácita da pobreza de espírito. Avaliá-lo é fácil e requer os gestos mais espontâneos. Em linhas gerais, quiçá, o único problema verdadeiramente significativo em âmbito social seja este: do agravamento cada vez mais constante da pobreza espiritual que, se jamais reparada, pode comprometer a produção de bens e, por conseguinte, de riqueza: material e espiritual. Algumas teses científicas, sobretudo, em âmbito antropológico-social, não raro, seriam mais compreensíveis se tivessem esse teor demográfico: ‘Dê-me uma centena de pessoas infelizes e ressentidas, que desdobrarei a profundidade e a truculência de seus dilemas sociais, políticos e econômicos.’ Consequentemente, o maior problema genuinamente social é quando um pobre de espírito multiplica sua pobreza em progressão geométrica por meio de seus gestos e ações, não interessando se seus bens são muitos ou se são poucos; se são caros ou baratos. Aliás, somente uma pessoa demasiado pobre de espírito é capaz de avaliar um homem pela exclusividade de seus bens materiais.

Neste sentido, a tentativa de combater a pobreza sempre será paliativa se não investida contra sua dubiedade material e espiritual, o que explica paradoxalmente, o fracasso do Estado na promoção das supostas medidas de reparação de modo que, episodicamente, o aumento e a promoção de matrícula em escolas públicas não representam a diminuição dos pobres de espíritos. Como a inveja e o ressentimento crescem em progressão geométrica, enquanto a promoção do êxito e do sucesso crescem em progressão aritmética, ou seja, em descompasso: nada mais natural que perceber uma multiplicação cada vez mais vertical da pobreza de espírito enquanto as virtudes – extensivas ao heroísmo e a honra – sequer são promovidas. O descompasso nos dá a medida da pobreza, bem como o descrédito quase quixotesco daquele que a combate.

Se não incorporada em um resgate das virtudes familiares e culturais, cujos frutos são mensurados pelo senso comunitário do pertencimento a uma fonte superiormente incorrupta, o anseio de mudar o mundo e, consequentemente de combate à pobreza, será apenas uma campanha estatal; à maneira do publicitário que, entusiasticamente, promove aquilo que nem mesmo consome. A descoberta de que há uma infinidade de mazelas custosamente reparáveis pelo Estado: como a pobreza de espírito, desperta o indivíduo para as ações mais imediatas: a caridade, a concórdia, a compaixão e a misericórdia, de modo que, curiosamente, a miséria de uns torna-o melhor. Fazê-lo é da ordem da espontaneidade, que se doa sem prescrição religiosa, ideológica, política ou econômica. Fazê-lo, espontaneamente, além de tornar os homens melhores, torna-os mais ricos.

Conta-se que em conversa com um amigo esquerdista, o poeta Robert Frost o teria levado aos prantos com a seguinte advertência: “Pelo amor de Cristo, não fale de pobres o tempo todo.” Advertidamente, o próprio Cristo anunciara tal prédica: “Sempre tereis pobres convosco.” (Mateus 26,11). Pobres de espírito, pobres de pão? A ‘pobreza’ como o ‘mundo’ são palavras que só são minimamente compreendidas se ampliadas em suas respectivas polissemias, mensuráveis interiormente a depender de seus porta-vozes. ‘Quantos mundos possíveis e quanta pobreza são capazes de coabitar em uma única alma?’ Quiçá, a pergunta tenha uma envergadura decisiva, desde que avaliada interiormente por quem a anuncia, levando-o para a questão: ‘Quão pobre é meu mundo interior?’ Resolvê-la é premente, de sorte que é o primeiro passo para despertar o homem de sua condição adversa. Um bom indício dessa mudança interior, que se dá quando o homem é capaz de avaliar sua própria pobreza de alma e a sordidez de seu mundo, é quando tal homem perdoa os condicionantes de seus próprios grilhões como a resiliência de quem esquece. Ademais, nenhuma injustiça e nenhum combate à pobreza é possível sem o sacrifício e o perdão, de modo que seu contrário é um conjunto de ações oscilantes entre a inveja, a revolta e a irracionalidade. Lida novamente, a campanha publicitária nos leva a mais crucial das questões: Como se pode combater a pobreza do mundo com a promoção exitosa de certa pobreza de espírito; aquela que diferencia os homens por suas religiões, convicções políticas e opções sexuais? Em um período da história em que tudo é passível de revoltas heroicas – como aquelas campanhas lançadas via Facebook, para a defesa de algum desejo de vingança particularmente coletivo – subscrevo Paul Ricouer com a certeza de que todo discurso da atualidade, que se pretenda reparador, deixa escapar injustiças irreparáveis; além de certo decoro messiânico: “Prefiro falar em história das vítimas que dos vencidos, porque os vencidos são, de sua parte, candidatos à dominação que foram derrotados.” (‘Temps et récit‘). Entre mortos e feridos, a pobreza do mundo é mensurável pela presença nem sempre perceptível de seu agravante material e espiritual, cujo senso de vingança dá ao miserável a impressão de êxito contra as adversidades que o atormentam. Deste modo, como não vence o desejo interior de se vingar – transcendendo-o em suas próprias ações – o pobre é vencido pelo mundo, sobre o qual atrai uma chusma de iguais vencidos: no trânsito, nos elevadores, no entrechoque da lida cotidiana. Como são candidatos à dominação que foram derrotados, tais pobres vencidos – quando minimamente bem-sucedidos – multiplicam suas pobrezas de espírito oscilando: ignorância com soberba, ou seja, a incorrigível impressão de que estão estupidamente certos. Em tempo: como são muitos, inúmeros, saiba – nada os identifica mais que a tentativa de mudar exteriormente o mundo (…) o mundo de outros pobres coitados (…) nem que, para isso, tenham que torná-los cada vez mais pobres.

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