Por Ivan Pessoa

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A economia é demasiado importante para ser entregue aos economistas.”

(Joan Robinson)

 

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Por levar em consideração a frase de Joan Robinson, bem como o dilema do prisioneiro (experimento mental criado por Melvin Dresher e Merrill Flood nos anos 1950, referente aos chamados: jogos não cooperativos ou jogo de guerra e paz), em que dois prisioneiros capturados são separados no interrogatório, de sorte que o primeiro a trair ganhará o benefício do abrandamento da pena; tendo em visto a conjunção de ambas as situações, que remetem aos embaraços intelectuais da economia e seu modelo racional, decidi pensar o paradoxo abaixo, por mim nomeado de: o dilema da igualdade.

Imaginemos que em uma pequena cidade de nome: Utrópico, com seus vinte mil habitantes, um conjunto de trabalhadores suficientemente bem esclarecidos, e igualmente cansados das severas condições a que são submetidos seus semelhantes nas minas de ouro: fatigados pelas horas extenuantes que jamais se convertem em benefícios sociais, decidam criar um movimento de insurreição popular cujo clamor mais precípuo se dê sob as seguintes justificativas: “Toda a riqueza em dinheiro, das moedas aos metais preciosos, deverão ser repartidos equitativamente para os cidadãos de Utrópico, sob pena de precipitar uma greve geral nunca antes vista. Igualdade radical ou o caos.” Suponhamos que tão logo aquele clamor tenha sido deflagrado e a classe trabalhadora a tenha assumido conscientemente, parando assim a atividade produtiva por meio de uma paralisação sem precedentes (em que os trabalhadores não alinhados com a causa são sequestrados pelo comando de greve); suponhamos ainda que alguns já comecem a recorrer às armas, criando assim uma milícia para intimidar os próprios trabalhadores e o próprio governo;  suponhamos por conseguinte que os empregadores cuja produção fora interrompida inesperadamente por seus empregados – das padarias às fábricas – decidam se reunir para encontrar uma solução, e para tal, solicitem o comparecimento e acordo tácito entre os poderes constituídos. Da reunião, três eventuais hipóteses são esboçadas, e ainda que distintas, carregam consigo uma única certeza: “Ou cooperamos, ainda que a contragosto, ou morremos de fome. Façamos a distribuição equitativa da riqueza de Utrópico.” Em ordem as três hipóteses para distribuir toda a riqueza da cidade são:

  1. ‘Em um mês, para a promoção pública da igualdade, sugere-se que os bancos fiquem responsáveis por distribuir a riqueza da cidade.’
  2. ‘Em um mês, por razões ainda mais igualitárias, sugere-se a distribuição da riqueza via correia, em respectivo envelope inviolável e seguro.’
  3. ‘Em um mês, por razões superiormente mais igualitárias que as anteriores, sugere-se que o cidadão – de posse de seus documentos de identidade – recorra a qualquer órgão do governo para retirar a porção de sua riqueza.’

Quais as consequências para os cidadãos de Utrópico, caso uma das opções fosse a vencedora? Avaliando a opção A), aquela que sugere a distribuição da riqueza via banco, se observa que: se todo dinheiro fosse repartido igualitariamente em contexto bancário, o modo mais isonômico para fazê-lo seria distribuir a informação imediata via meios de comunicação e organizar os bancos para o comparecimento massivo de cidadãos na data prevista. Na ocasião, a distribuição da riqueza não poderia acontecer de maneira desorganizada, sob pena de comprometer o clamor popular anteriormente alusivo à igualdade. Por certo, a concessão se daria por meio de filas, de modo que, aquele que chegasse primeiro, pegaria sua fração do valor total da riqueza de Utrópico. Por oportuno, cabe a inesperada objeção à opção A): haveria riqueza suficiente? E quanto aos retardatários como ficariam? No mais, a distribuição em fila seria ou não o principal problema referente a uma inesperada desigualdade? Caso fosse, restaria a opção B). ‘Como distribuir riquezas equitativamente, ou seja, estendendo-a inclusive aos retardatários?’ Poderiam se questionar os trabalhadores e cidadãos de Utrópico. Eis que, avaliando esse inesperado calcanhar, surge a opção B), doravante opção via correio. Afora o custo para confeccioná-lo, afinal no bojo do envelope iria um recibo com o valor proporcionalmente repartido, o que implicaria o comprometimento da própria riqueza total, afora todo esse custo ainda haveria: a aquisição de papel para a confecção desse recibo, impressoras, tubos de colas e o próprio envelope. Ademais, o trabalho – ainda que voluntário – de carteiros. Por menor que seja Utrópico, ainda assim é humanamente impossível imaginar a entrega equitativa dos envelopes via correio, de modo que a distribuição (como na opção A)) também implicaria uma ordem numérica crescente: primeiro cidadão agraciado, segundo cidadão, terceiro cidadão, quarto cidadão, quinto cidadão, sexto cidadão, sétimo cidadão, oitavo cidadão, nono cidadão, décimo cidadão. (…). Em razão desse expediente postal, possivelmente os primeiros cidadãos agraciados empregariam o dinheiro recorrendo a dois meios: 01) guardariam em suas casas; 02) gastariam nos mercados locais, saciando suas necessidades. Se 01) se sobrepuser a 02), a falta de riqueza circulante comprometerá a cadeira produtiva e consequentemente haverá uma escassez de consumo, bem como de produção. Caso 02) se sobreponha a 01), os primeiros agraciados com o envelope, na sanha por saciedade, comprará tanto o que necessitar, como o que for preciso para revender para os retardatários, obviamente, por um preço maior. Logo, se percebe que, além de escassear os produtos dos mercados locais, a opção 02) ainda lucra propositadamente com os retardatários. Portanto, o envio por correio é uma via de mão dupla, pois que agrava a escassez e a riqueza informal, que se dá pela esperteza dos primeiros agraciados sobre os retardatários.

 Por conseguinte se observa que: se na opção A), a distribuição da riqueza apressa inesperadamente outro problema: o da desigualdade da chegada dos retardatários; o da opção B), apressa e compromete tanto a partilha proporcional, haja vista, os custos, bem como cria outros inesperados retardatários que, eventualmente, podem ser explorados pelos primeiros agraciados. Imaginadas as incoerências das duas primeiras opções, vejamos a opção C). Suponhamos que, tendo atendido os clamores populares, o Legislativo decida (com o aval do Judiciário) promulgar uma Lei que determine não apenas a imediata partilha das riquezas particulares em nome do interesse público, mas surpreendentemente o faça com a seguinte imposição: em um mês, toda a riqueza será convertida nominalmente, de modo que a simples apresentação documental – em qualquer órgão governamental – atestará ao portador de seus documentos, seu valor proporcional em crédito. Ora, qual o vício potencial que se apresenta na opção C) senão o de uma sombra esmaecida das opções anteriores? Aliás, sendo transmitida pelos meios de comunicação e sendo compartilhada indiscriminadamente pela população, o que a opção C) traria de A)? o surgimento – na data prevista – de inumeráveis filas que, na expectativa de organizá-las, fomentaria a desigualdade para os retardatários. Por outro lado, o que a opção C) ensejaria de B)? tanto os custos que, neste caso, se dariam com os funcionários públicos que lá trabalhando, precisariam ser remunerados, bem como a inesperada presença dos retardatários.

 

Qual das opções seria a mais igualitária? Resposta: nenhuma. Pelo observado se pode constatar que, no contexto imaginado, aquele que detém a informação preliminarmente, sempre sairá ganhando; seja ele o legislador, o juiz, o dono dos meios de comunicação, o sindicalista em greve e, o não menos importante, cidadão atento. Em linhas gerais, o que movimenta uma economia – real ou imaginária – é a livre informação de algo que se deseja em quantidade finita ou limitada; livre informação daquele que procura (seja por necessidade, seja por compensação de desejos) saciar alguma carência particular. Portanto, caso toda a riqueza fosse distribuída, o efeito imediatamente contrário seria a escassez, afinal a informação dos primeiros os levaria em adquirir o que fosse possível para revender para os retardatários, criando assim uma concentração de renda igualmente desproporcional. Como consequência do exemplo anterior se chega à conclusão de que, em qualquer cenário hipotético, os retardatários (como os últimos a receberem uma informação econômica específica) serão prejudicados total ou parcialmente, de modo que a igualdade (em âmbito econômico) é possível, desde que privilegie os primeiros (como aqueles que lutam e promovem a igualdade) em detrimento dos que a desconhecem. Destarte, eis o corolário: há igualdades possíveis às custas de desigualdades indesejadas. Em economia, a menos que o dilema da igualdade seja um dia reparado, os últimos jamais serão os primeiros.

 

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