Por que ris, Demócrito? É das coisas boas e das coisas más que falei?”
(Hipócrates – ‘Sobre o riso e a loucura.’) 
sobre-o-riso-e-a-loucura
***
Moro em minha própria casa.
Jamais imitei algo de alguém;
E sempre ri de todos os mestres
Que nunca se riram de si também
(Nietzsche – ‘A Gaia Ciência‘.)
***

 

Por Ivan Pessoa

Quando seus amigos, assustados, levaram-no para consultar Hipócrates; em razão dos seus acessos de riso, Demócrito justificou-se que ria dos homens insensatos, da inveja, das conspirações sorrateiras, da avareza e daqueles que estimavam o vício como se virtuosos o fossem. Portanto, como filósofo: ria das aparências. Convencido, provavelmente, pela evidência tragicômica do que ouvira, Hipócrates dirigiu-se aos amigos do filósofo: “Dou-vos graças por me terem convocado, pois vi Demócrito, o sábio dos sábios, o único capaz de tornar o homem sensato”. Por conseguinte – naquele contexto – aquele que ria era o mais sensato dos homens. Pergunto-me, por remissão ao sábio e sua sensatez escandalosa: do que Demócrito rir-se-ia na atualidade? Causariam-lhe risos espasmódicos a sua atividade intelectual: a filosofia (personificada na conduta de seus pares); risos à maneira da possessa loucura que o levara até Hipócrates? Creio que sim, sobretudo, quando percebesse a aparência de autoridade em meio à impostura (desses pretendentes a filósofos acadêmicos), ocupados demais para apresentá-lo um senso mínimo de proporções, um diagnóstico do tempo presente.

Na expectativa de encontrar a unidade deste tempo, mínima que fosse, por intermédio de um acadêmico ocupado demais com sua verborragia; contra esse personagem, Demócrito objetaria um festim de risos. Aliás, a capacidade de depreender uma unidade; uma coerência, a partir de situações particulares – aparentemente desconexas – é o que, desde os tempos de Demócrito, se chama: filosofia. O esforço que as Universidades e os cursos acadêmicos de filosofia fazem quanto a isso, em vez de encadear um esboço de certeza, um análogo inteligível da Verdade para quem as investiga, tem parodicamente manifesto o seu contrário: a ignorância, o embotamento, cujas expressões são o enciclopedismo, o especialismo e o modismo. Como não emular um incômodo Demócrito, à outrance? Tal esboço paródico de filosofia (muito mais desesperador que o riso de Demócrito, pois que inadmitido) se manifesta no espaço como um aglomerado atômico de departamentos; e no tempo, como a vacuidade de uma quimera. Os efeitos desse esboço, que não suspeita a unidade por detrás do caos aparente de coisas, impedem a inserção de um mínimo de coerência no espaço público e, consequentemente, na opinião pública. Multiplicando cada vez mais uma centena de doutores especializados em parágrafos, vírgulas e reticências, a excelsa investida filosófica tem se convertido numa confraria de leitores entojados como cabalistas que discutissem despreocupadamente o tetragrammaton às vésperas do cadafalso. Entrementes – enquanto os departamentos convertem-se em quimeras – ouço o hipotético riso de Demócrito.

Na Grécia de seu século, em que a atividade dos filósofos era um instrumento dialético de compreensão da realidade e, deste modo, inseria-se na vida pública: entre pescadores e reis, Demócrito ria das aparências, da verossimilhança ou da mera confusão daqueles que, envaidecidos, tomavam a mentira por verdade. Como a verdadeira filosofia, desde os gregos, tem atualidade perene e, portanto, vigora por ser um vislumbre intuitivo da realidade, não é demasiado pretensioso tomar o riso de Demócrito como um despertar. Entre-risos imagino-o respondendo à mais crucial das questões filosóficas: em uma cadeia retrospectiva, se todas as coisas fossem suprimidas, o que restaria de necessário? Resposta: a unidade de um átomo.  Quantos especialistas academicamente engomados suspeitam que esta é a forma ou o modelo de uma questão filosófica, que, radicada em uma unidade evidente, fundamenta assim o terreno sólido e consistente para as análises acidentais, em outras esferas do conhecimento? Pode alguma análise pretensamente filosófica prescindir de uma evidência auto-probante, descoberta que se dá interiormente? Em um período da história intelectual em que seus principais porta-vozes: filósofos profissionais, alardeiam que não há mais certezas (sem verem nisso uma contradição), o que se pode esperar senão um abismo de incompreensão nem mesmo imaginado entre as pessoas menos alfabetizadas?

Na história da filosofia (não em sua versão bacharelesca, mas como vocação)  sempre se observou um nexo de encadeamento entre: A) a descoberta de uma certeza que, como unidade inteligível deduzida de princípios, é minimamente passível de demonstração, B) sua consequente inserção no quadro geral das ideias (como se a tradição fosse não apenas atualizada a posteriori, mas igualmente ampliada) e C) a possibilidade de comunicá-la. Deste modo é o mister da filosofia (para quem a busca) ensejar um movimento centrífugo que, surgindo como uma motivação particular, logra êxito quando sua descoberta apresenta – ao interlocutor – um senso mínimo de coerência. Nesta perspectiva é que se pode entender a ideia de ‘opinião pública’ que, forjada pouco antes da Revolução Francesa, surgiu como uma tentativa da nobreza de consultar polímatas e filósofos sobre os assuntos controversos, diversificando assim as opiniões tendenciosas e bajulantes da corte, do clero, dos banqueiros, mercadores e proprietários de terra. Daí a proximidade de Leibniz a Pedro, o Grande; daí a confiança de Cristina I dispensada a René Descartes; filósofos minimamente habilitados à busca por um senso de coerência extensivo à vida real. Destarte, em seu sentido invulgar e extemporâneo, uma opinião pública civicamente ativa seria um contributo material da atividade filosófica à esfera pública.

Como se estivessem ocupados demais desde Kant – empenhados em descobrir (via genuíno juízo reflexivo pretensamente original) quais são os condicionantes apriorísticos que dirigem ocultamente o curso dos acontecimentos: se a vontade, a luta de classe ou as pulsões – os filósofos de gabinete tornam-se cada vez mais sofistas outorgados e, quiçá, cegos à advertência de Amiel: “Tu és um balão cativo; não deixes que se desgaste o barbante que te liga à terra.” A esta altura, distanciada da vida real e ainda tímida na opinião pública, afinal padece de movimento centrípeto, a filosofia acadêmica chega tarde demais àquilo que se insinua no mundo real, tropeçando na sua própria inércia. Daí o sonoro e hipotético riso de Demócrito, incidindo como um anátema. Por outro lado, quando uns poucos se manifestam na opinião pública, o que se observa é ainda incipiente, haja vista, seus porta-vozes mais midiáticos. Estática – em ambos casos – tropeça sem sair do lugar, e ri entredentes. E logo cala, voltando-se narcisicamente para o que aprendera a estimar em seu confinamento: títulos, publicações, currículos e papéis.

Face a um estado de coisas cada vez mais caótico; em uma Europa ameaçada pelo terrorismo; em um mundo em colapso (moral, estético, econômico, religioso e ambiental), a filosofia acadêmica – resistente à opinião pública – ainda busca se refugiar na caverna de sua estatura; no regaço cômodo para a construção de seus próximos artigos, abismada entre o que procura extrair do passado e a ‘incômoda’ realidade. Em âmbito específico, em um Brasil cada vez mais faminto, violento e politicamente desmoralizado, resta o descabido de uma filosofia acadêmica estupidificada perante o ambiente circundante. Pronunciando sem provincianismos, um Foucault qualquer, imagina-se filosofar por ofício. Eis o quadro apressado, mas não menos preciso da filosofia acadêmica atual. Nada mais risível, alardearia Demócrito. Nada mais.

Por precaução, um critério minimamente sensato para distinguir a verdadeira atividade filosófica (livre, desinteressada e em busca da unidade) de sua paródia acadêmica (confusa ao tomar os conteúdos históricos e acidentais como a própria filosofia) é instigar – no interlocutor-filósofo – um senso de coerência perante algum fenômeno do mundo real. (O tema de uma provável terceira guerra mundial, talvez seja um desses fenômenos indiciadores de uma alma sensivelmente filosófica. Qualquer escândalo político ou moral – de dimensões aterradoras – também o é).

Outrora, Frank Rosenzweig deu à filosofia acadêmica uma medida cada vez mais adstringente: “Diante de toda essa miséria, a filosofia sorri com seu sorriso oco.” Ri, mas com ar professoral. 
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