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Por Ivan Pessoa

A divinização de um homem e consequente mistificação, é um fenômeno de ordem emocional, de modo que não pode ser compreendido exclusivamente sob aspectos racionais. O que se esconde sob esta divinização é a ideia de que, por meio da graça do divinizado, aquilo que até então fora distinto, recua à sua unidade primordial. Como quem pudesse reabilitar a comunidade por meio do seu sangue sacrificial, o divinizado incorpora toda a diferença, ultrapassa todas as particularidades, harmonizando o anseio comunitário em uma unidade. Desta feita, o divinizado é um eleito, seja como expressão do bem, seja como expressão do mal.
A representação profana deste rito sacrificial na vida pública, desde os gregos, se chama: política, sendo a luta pelo Poder sua finalidade última. Por meio de tal ritualística é que se compreende (em âmbito excepcional) o que os fenômenos Hitler, Stalin e Che representaram simbolicamente para seus respectivos povos; sendo Hitler um continuador de Guilherme I (a unidade alemã), Stalin um continuador de Pedro, o Grande (a unidade russa) e Che um continuador de Bolívar (a unidade latino-americana). Deste modo, no tocante ao Brasil contemporâneo, alocar o fenômeno Lula no período da redemocratização se torna algo relativamente interessante, sobretudo, se rastreada a sua simbologia como pretenso unificador.
Diferentemente dos anteriores que, como resta comprovado, eram notadamente megalômanos, mas cultores de uma identidade supra-temporal, logo de uma unidade; diferentemente daqueles o fenômeno Lula é um político divinizado (por seus eleitores) que jamais prezou por um senso de unidade, afinal como em situações anteriores e no mais recente caso do interrogatório, tem demonstrado mais apreço pelo polonês Lech Wałęsa (a quem, em suas palavras tomou por modelo) que propriamente a um vulto nacional. Nada depõe mais contra o pretenso divinizado brasileiro Lula, para seus eleitores: o porta-voz da unidade pátria, que prestar deferência senão simbólica, a um fenômeno político estrangeiro.
Por mais insignificante e desnecessário que parecesse, Fidel Castro sempre exaltava seu dileto José Martí; e em seu nome, proclamava uma unidade cubana ainda que utópica. Ademais, além do símbolo estrangeiro invocado por Lula, dando satisfação não à unidade brasileira (como um divinizado político oportunamente reclamaria), mas a uma parcela particularmente endossada: aos trabalhadores (implicitamente aos sindicalizados da CUT que o defendem), o ex-presidente deixou escapar muito dos seus propósitos e, claro, à espécie de divinizado que se pretende. Não lhe interessando nada que se contraponha aos seus interesses particulares, além dos interesses partidários convergentes, não há um Brasil na gramática política de Lula, não há, como consequência, um modelo a ser reclamado. Deste modo, o episódio Lula (da ordem de um espetáculo paródico-midiático), nos desnuda um problema muito mais preocupante: não há no Brasil atual um reclame à unidade nacional (capaz de ultrapassar os extremos à esquerda e à direita) nem em se tratando do próprio Lula como potencial presidenciável ou condenado, e o pior, em nenhum outro presidenciável. Daí a antipatia mútua tanto daqueles que o defendem, como daqueles que o acusam; antipatia que é sintomática e é um anseio inconsciente por um redentor.
O risco é que este redentor seja fabricado sem sequer suspeitar os abismos que terá que transpor, recaindo assim no oportunismo de figuras como o próprio Lula. São em períodos ritualisticamente convulsivos que homens são divinizados; lutam pelo poder; clamam por unidade e são investidos como redentores, seja como representantes do bem, seja em nome do mal. Portanto, em tais termos, a redenção é desde antes uma investidura, uma aquisição paulatinamente forjada pela educação e pela cultura que, sob seu vácuo, ou apressa a chegada de oportunistas, ou a imobiliza com a promoção de uma via democrática nacional. A tragédia do Brasil tem sido parodiar esse ritual. Ou melhor: carnavalizá-lo.
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