Por Ivan Pessoa

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Conheci um mexicano, em pleno sítio arqueológico de Teotihuacan, que me ensinou a pronunciar o nome de Quetzalcóatl municiando-me tanto com a cosmovisão dos astecas, como com a simbologia de antigas civilizações. A ‘serpente emplumada‘ com os caudais cintilantes da ave quetzal, imprimira sobre meu campo imagético, o mesmo efeito que a disposição caudalar das moléculas de benzeno no sonho de Kekulé von Stradonitz: renovando-se – espiralada – como ouroboros, a cobra que consome a si mesma e revela de súbito as ligações ocultas e sempiternas da natureza.

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(Kekulé von Stradonitz e os caudais hexagonais do benzeno)

Até que um dia, como que impressionado por uma arte urbana, a saber: a mandíbula de Quetzalcóatl, que era pintada silenciosamente nos muros de um apartamento, cá em Lisboa, pude intuir o que jamais supunha.

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(Quetzalcóatl)

A silenciosa pintura que o artista desocultava desde aquela fachada, alçava-me àquilo que há muito negligenciara: ‘esta forma serpentina, como que introjetada e crescente em eixos concêntricos, creio que já a vi em alguma escultura.’ Sim, a surpresa se mostrou incômoda, levando-me a compatibilizá-la com uma imagem relativamente similar. Antes que me pusesse a indexá-la, a revelação se anunciou, desencadeando-me a grata descoberta: ‘O Pensador‘ de Auguste Rodin evoca os caudais da serpente, ou seja, a forma gráfica da interrogação. Vede: (?).

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No ‘Manual para tipógrafos‘ de Aldo Manúcio – um dos maiores responsáveis pelo registro impresso desses símbolos gráficos, o ‘punctus interrogativus‘ disposto horizontalmente; parece uma escada ascendente a um ponto acima, à direita, numa diagonal a partir de um ponto embaixo à esquerda. No acervo tipográfico de Manúcio, o ponto de interrogação é um símbolo ascensional, um ‘climacus‘, uma escada.

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Por conseguinte, fazer perguntas é como ascender, subir, ir escalarmente mais acima. Ainda que posteriormente modificada, por razões gráficas (relativas à necessidade econômica da disposição vertical dos símbolos na pauta), ainda assim a interrogação – com este sentido corrente – concederia ao ato de pensar um análogo oportuno, constante neste registro serpentino [?]. ‘Concentra-se em silêncio, como O Pensador de Rodin, até intuir uma certeza, graficamente representada com um ‘punctus’ imediatamente abaixo; ponto que é a menor unidade do conhecimento, ou seja, elemento preliminar sem o qual nenhuma outra descoberta é mesmo possível.’ Sim, pensar é recuar da diversidade à unidade sintética de um ponto, ampliando-o em pontos consequentes.

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Ora, quem entre os cultores dos saberes realiza melhor a representação particular do ‘punctus interrogativus‘ e o gesto do ‘Pensador‘ senão o Filósofo? Quem, exauridas as perguntas respondíveis, é suficientemente corajoso para desassossegá-las em uma espiral renovada de novas perguntas, remoçando-as até saturá-las em um ponto, um punctus adimensional: catalizador de novas certezas? Convocado sempre que a decadência espiritual satura as respostas, havendo nesse contexto, uma ligeira confusão entre a forma e a coisa mesma, o filósofo é aquele sujeito incômodo que, como em um repositório, reintegra na estrutura de sua personalidade, os tópicos obscurecidos da realidade. Decerto, lança-lhes luz. Questiona, problematiza, desacomoda a ordem aparante, rearticulando-a. 

Ananda Coomaraswamy entendeu por Filosofia, por conseguinte, uma disciplina espiritual, doravante: ‘correction du savoir-penser‘, ou seja, uma atividade de auto-correção, por meio da qual a consciência clarifica para si mesma tanto os atos que realiza, como vê a estrutura da realidade em que participa. Disciplina auspiciosa e dúbia que só se efetiva quando, em um crescendo de motivações superiores, integra o filosofante naquilo que busca. Concentrando-se em seus próprios atos e, por conseguinte, rastreando a origem biográfica de suas próprias ideias, o filósofo não apenas repõe as formas e veios intelectivos já sedimentados no falatório cotidiano e nos jargões científicos, mas o faz com o expediente da intelecção dos princípios supremos, cujo impulso pessoal e intuitivo é da ordem do apetite, do desejo (orexis) por alcançar o desconhecido a partir do já dado, ou chegar ao total desde o fragmentado. O que faz um filósofo, deste modo? Assombra-se com um dado da realidade e numa posição de desconforto, busca encontrar as experiências equivalentes que as motivaram. Concentra-se em si mesmo e se lança à restituição dos símbolos expressivas que desencadearam aquele assombro. Desta feita, os símbolos filosóficos surgem em um horizonte concreto da experiência, de um anseio vertical (dai o ‘punctus interrogativus‘ de Manúcio) em busca de um maior grau de participação no Ser. Daí, por conseguinte, o filosofante está relativamente habilitado para rastrear o mesmo processo na tradição de filósofos que o antecedeu e, desde há muito, pavimentou o percurso nuclear dos níveis de compreensão da realidade. 

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(Ananda Coomaraswamy, 1989).

Avaliando-a como uma disciplina do espírito, em constante processo de auto-confissão do inquieto consigo mesmo, a filosofia só é possível com o sentimento de fidelidade, segundo Gabriel Marcel; sentimento que exige a necessidade biográfica de rastrear ao longo da vida, as reais motivações do filosofante e compatibilizá-las com as experiências vitais dos filósofos que o antecederam. Não tendo um objeto em específico, a fidelidade do filosofante é da ordem daquele sentimento dialético que pulsando em si mesmo, renova-se sem se esgotar, à maneira da pergunta de Eupompos a Eufránor sobre qual o mestre este seguira, no que Eufránor apontou para uma multidão de pessoas ao redor. Fidelidade intelectual que cresce desde si mesmo, lendo-se como existente em uma circunstância real – e amplia-se especularmente nas obras dos filósofos de uma tradição.

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(Busto de Alexandre, o Grande por Eufránor)

Nestes fluxos – crescentes e ascendentes – à espera de novas perguntas, é que surge a matéria viva do filosofante. Sem este senso de veracidade que se doa àquilo que procura, as respostas já saturadas pelo falatório não podem ser repostas por novas perguntas, o que apressa o declínio intelectual e espiritual de um povo em específico. Quando as fontes auto-interpretativas de um povo (cultura, religião e ciência) indiciam saturação, o espírito filosófico é o que chega primeiro e vê desde ali, as consequências do declínio custosamente reparado. A propósito, segundo Vitrúvio, a escultura, bem como a arquitetura monocromáticas de cores austeras e frias (‘discolor aetas‘) sucedem à era dourada de Saturno, na transição da mentalidade filosófica grega em franca desaparição com o Império Romano. Sem a filosofia, a ignorância serpenteia – esbaforida, sem se dar conta das razões de seus volteios – e confunde a extremidade da cabeça com o próprio rabo: mordendo-a impiedosamente.

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