Por Ivan Pessoa

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Escrevi o texto abaixo por ocasião daquele ataque terrorista em Manchester, no dia 22 de maio do corrente ano. Só um brasileiro é capaz de pressentir as insinuações ocultas e os miasmas da violência à distância. Em razão disso é que avalio o cataclismo que, se não enredar a Europa até o precipício, a levará para a total desconfiguração. Que Deus acolha as vítimas de Barcelona! 😢

9788430604845

 

“Pesquisando sobre o terrorismo para a minha tese de doutoramento, começo a perceber o porquê do filósofo André Glucksmann ter escrito em seu livro: ‘Dostoiévski em Manhattan‘ (logo após o ataque às Torres Gêmeas, em 2001) que a causa do crescimento exponencial do Terror decorria do niilismo espraiado na cultura europeia das últimas décadas. Convertendo as impressões de Glucksmann ao meu modo, chego àquilo que nomeio de: ‘Maldição do Soixante-Huitard‘, a uma série de princípios não menos jacobinos, presentes na Europa desde a Revolução Francesa e reapropriados em Maio de 68. Tais princípios se dão da seguinte forma: ‘A sociedade é tão mais livre com o menor número de proibições.‘ Daí decorre, por exemplo, a antropofágica e tropicalista máxima: ‘É proibido proibir!’. Ora, esvaziar a vida psicossocial de proibições, pautando-se na tese licenciosa de que tudo é lícito, logo tudo deve ser permitido, tem trazido à juventude européia algo como uma despotencialização, um esmorecimento de vida, à maneira da queixa de George Orwell à recém convertida poesia de T.S.Elliot: ‘Alguma espécie de eletricidade foi desligada.’ Se não há nada proibido a ser combatido: o que resta senão o niilismo e o tédio? Sim, a juventude europeia foi desligada, e, imaginando-se à altura dos tempos modernos, luta por questões laterais, como a ‘dignidade’ dos golfinhos, por exemplo. Cada vez menos unificada a interesses suficientemente majoritários, como a própria luta dos operários no passado, esta sociedade europeia abriga sem o suspeitar, uma atomização de clamores minoritários que acaba por conduzir à constatação de Glucksmann: ao niilismo, em que todas as vozes reclamam tudo, mas não dizem nada. Sem unidade, como um corpo social pode se conservar?

Diferentemente, destas vozes que clamam por suas respectivas minorias, o impulso auto-destrutivo ou combativo dos jihadistas tem interesses ambiciosos, alternando a restauração da unidade político-religiosa do califado (como consequência da entusiástica defesa da wahhabita ‘al-tawhid‘) – revogado desde 1924 por Mustafa Kemal Atatürk -, a restauração dos territórios do Levante e da Península Ibérica; até a expulsão dos judeus de Jerusalém oriental. Por conseguinte, a assimetria de forças e propósitos são mutuamente divergentes, de modo que, em tempos de União Europeia, o niilismo, tédio e fraqueza de uns, acaba se convertendo em problema de todos. Infelizmente, estudando cada vez mais a questão, sou levado a crer que não apenas Glucksmann e Orwell (avant la lettre) se deram conta da jacobina ‘Maldição do Soixante-Huitard‘, mas como a convertê-la em um incômodo vaticínio, Baba Vanga já advertira desde o século passado: ‘A Europa será islamizada.’ Para desespero dos homens e dos golfinhos.”

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