Há assim, em cada homem, um animal fechado numa prisão (…) prisão de aparência burocrática.” (Georges Bataille em ‘Dictionnaire Critique‘, verbete: ‘Animais selvagens.’ – 1929-1930).  

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(John Shute e o corpo como ordem dórica)

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Por Ivan Pessoa

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A) Destacada a citação acima se pode considerar que Georges Bataille esboçou um ponto há muito negligenciado pelos paradigmas funcionais em arquitetura, o da relação analógica entre a fachada de uma casa e a miologia facial, daí o clamor de uma filosofia que os ultrapasse de modo a evocar seus alicerces simbólicos. Ampliando-a, Bataille afirmou que o homem vive em sua casa como um animal confinado – ‘como uma prisão de aparência burocrática‘. Há nesse breve comentário um eco rilkeano como que ressoasse: “Certas vezes, a cortina das pupilas ergue-se em silêncio. – Uma imagem então penetra, a calma dos membros tensos trilha – e se apaga quando chega ao coração.”  (Rainer Maria Rilke – ‘A Pantera‘ – ‘No Jardin des Plantes‘, Paris).  A propósito, muito do que se construiu como uma Filosofia da Arquitetura – desde os primórdios – esboçou a analogia do corpo como edifício e, por conseguinte, do rosto como sua fachada. 

B) Ora, há um entendimento entre os clássicos segundo o qual o corpo é um micro-cosmos. Por isso se entende a noção elementar de edificação, de modo que há paralelos entre o corpo humano e seu equivalente arquitetônico, constatáveis, por exemplo, na relação não arbitrária entre: caput-capitulum,capitellum-capitel-capital/ cabeça. Aristóteles já o esboçava ao afirmar que tudo o que é mais perfeito tende a estar no alto. Por conseguinte, a coluna é o corpo e a cornija, a cabeça. 

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(Modelo vitruviano de Francesco di Giorgio Martini e seu plano de Catedral)

C) Os estudos de Cureau, Charles Le Brun, Giambattista Della Porta e René Descartes – em searas particularmente distintas – desencadearam no século XVI, o estreitamento dos estudos da fisionomia facial não apenas com a miologia, mas com a caracteriologia, surtindo efeitos no campo da arquitetura, haja vista, o primeiro livro do gênero em língua inglesa: ‘First and chief groundes‘ de John Shute, em 1563.

D) Descartes, a propósito, como Le Brun, acreditava que os movimentos dos olhos e da sobrancelha indiciavam os traços mais marcadamente importantes da face humana, revelando tanto o caráter permanente como o fluxo do humor transitório. Segundo o filósofo, isso decorria da proximidade de ambos com a glândula pineal. Em contrapartida, Le Brun creditava tal disponibilidade pelo fato de ambos estarem próximos do assento da alma, o nervo ótico que manifesta os movimentos interiores, segundo Jennifer Montagu. (Vide: ‘The Expression of the Passions: The Origin and Influence of Charles Le Brun`s Conference sur l`expression generale et particuliere‘, 1994). 

E) Vale pontuar que naquele período se dedicava muita atenção à linguagem gestual das mãos (actio), que alguns tratavam como ciência, a quirologia. Inclusive, a linguagem gestual passou a ser perscrutada como indício da linguagem universal, pré-babélica. Segundo Martin Cureau, os gestos foram dados por Deus, ao passo que, em posição contrastante, a palavra fora um demorado artefato humano. Em 2011, Alberto Manguel publicou um belíssimo livro: ‘A cidade das palavras‘, cujo primeiro capítulo aborda com irretocável inteligência a transição do silêncio rudimentar para os primeiros registros de palavra escrita no final do neolítico. 

F) Credita-se a Teofrasto (discípulo e continuador da escola peripatética de Aristóteles) os primeiros estudos que implicam o caráter interior com sinais externos, particularmente, reunidos no pioneiro: ‘Caracteres’; obra que, dentre outros êxitos, cria uma associação entre o ‘ethos’ e o ‘character‘. Essa marca presentemente manifesta desde as linhas e sulcos do rosto, fora inscrita etimologicamente em uma onomatopeia, um som semelhante ao de um instrumento afiado arranhando uma superfície compacta: ‘charassein‘, ‘charagma‘, ‘charax’, ‘charakter.’ Tal peculiaridade etimológica decorre, provavelmente, das ranhuras, cicatrizes e fendas que um rosto é capaz de imprimir sobre um outro rosto; o daquele que o contempla. 

Quintiliano, como a retomar o caminho aberto por Teofrasto – no âmbito da convergência entre ethos e character – sugeriu que a diferença entre ‘ethos‘ e ‘pathos‘ era similar à comédia e à tragédia, entre emoções suaves e lentas: ‘ut amor-pathos, caritas-ethos.‘ Para Santo Agostinho, o caráter é a marca permanente conferida pelos sacramentos, que o renova de modo a anunciar àquele que congrega: “porquanto tenho visto o teu rosto, como se tivesse visto o rosto de Deus.” (Gênesis, 33:10). 

Um dos colaboradores involuntários de Teofrasto, passados alguns séculos, teria por nome: John Earle, em seu ‘Microcosmographie‘, publicado em 1628. Depois viriam: ‘Brief lives‘ de John Aubrey e a obra mais importante do gênero: ‘Caractères‘ de Jean de La Bruyère, em 1688. Ademais, Bruyère é o criador da arte minuciosa e espirituosa, posteriormente desenvolvida como caricatura, doravante: ethopoiesis ou desenho de caráter. 

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(Caractere da fachada de um edifício segundo o ‘ Trattato di architettura’ de Francesco di Giorgio Martini)

G) Na passagem do século XVII para o XVIII, a palavra ‘caráter‘ (de caractere visual) ganha relativa autonomia psicológica. Em seguida, Conde de Shaftesbury publica: ‘Characteristics‘ determinando o curso de uma expressão que, liberta de sua semântica particularmente espiritual, passa a se referir a traços humanos genéricos. Para Shaftesbury, ‘característica‘ significava: símbolo universalmente apreensível desde o campo visual, ou seja, manifestação decorrente da presença natural, suficientemente capaz de transmitir informações imediatas ao não-instruídos. É digno de nota o fato de Michael Spence ter ganho o Prêmio Nobel de Economia, em 2001, juntamente com George Akerlof e Joseph Stiglitz, ao afirmar que, em mercados complexos, e ainda que com informações insuficientes, há uma série de sinais, também chamados de: ‘sinalizações‘, que se antecipam no decurso do mais despretensioso contato humano. Um simples olhar – quase sempre – manifesta o que se pretende ocultar. Aliás, caráter, característica e sulcos faciais são como espécies desse gênero da ‘sinalização.’ 

H) Germain Boffrand afirmava que o ponto central da arquitetura era o de causar a impressão do caráter de um edifício sobre aquele que chega, o espectador, a partir da adoção – harmônica e apropriada – das diferentes ordens: jônica, dórica, coríntia, compósita e a contestada, toscana. 

(A continuar).

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