À perda de compreensão de setores específicos da realidade segue-se a perda de expressão linguística para a descrição desse mesmo setor.’ (Eric Voegelin)

 

Por Ivan Pessoa

1.

 

Destaco a certeza acima não apenas como um dos êxitos intelectuais mais brilhantes de Eric Voegelin em seu monumental: “Hitler e os alemães.” (‘É Realizações‘, 2008), mas igualmente como um diagnóstico com relativa adaptação em campos como os da psicologia social.  Em razão da breve menção voegeliana se pode esboçar a pergunta mais filosoficamente oportuna inclusive, com modulação em psiquiatria, qual seja: se a noção de perda pressupõe a unidade do que fora perdidoqual a unidade da perda referida por Voegelin? Em condições normais, sendo a atividade cerebral interdependente e igualmente responsável por conciliar a compreensão da realidade com expressões linguísticas correspondentes, se pode avaliar que uma das leituras possíveis da unidade perdida (referida por Voegelin) talvez seja extensiva à unidade da atividade cerebral cujos efeitos – quando não reparados – têm eventuais precipitações sociais. Portanto, basta que estímulos mutuamente excludentes incidam sobre a integridade psicológica do indivíduo sem que sejam notados ou combatidos, para que sua unidade cerebral seja comprometida, exigindo do cérebro a sua função vicariante ou de suplência, em que áreas lesionadas sobrecarregam as áreas relativamente estáveis.

O que se segue a isso, como um embotamento da unidade cerebral e consequente petrificação do estímulo confuso, são os efeitos observados por Voegelin: ‘À perda de compreensão de setores específicos da realidade segue-se a perda de expressão linguística para a descrição desse mesmo setor.’ Tais perdas, se assemelhando à mudez, revelam o símbolo de uma confusão tartamudeante.  Em períodos históricos convulsivos (como durante o próprio nazismo) dado o excesso de estímulos confusos: à perda da compreensão do estado de coisas segue-se a falta de vocabulário apropriado para apreendê-la, de modo que – em uma escala catastroficamente maior – o declínio de um povo coincide com o domínio deficiente da comunicação em campos extremamente importantes da ação, deficiência rastreada em sua classe tripartite de falantes: elites político-administrativas, elites intelectuais e elites culturais. Desse modo, basta evocar a ‘lei do poder‘ segundo Charles Wright Mills para detectar a natureza da catástrofe social daí resultante, bem como dos seus efeitos como um embotamento coletivamente partilhado: “a conivência entre os diferentes segmentos da elite prevalece sobre o que pode separá-los.” (‘The power elite,’ 1956). A confusão linguística da elite tripartite – em períodos de crise – retroalimenta uma espiral custosamente reparada, propagandeada nos mass media como normas de orientação.

Dito de outro modo: se uma das funções de uma elite é tanto o da preservação de um domínio de excelência específica e a possibilidade de comunicá-lo, como o de neutralizar as elites restantes e seus respectivos usufrutos do poder total – havendo assim relativo equilíbrio – basta que, por cômoda incompetência, a estupidez seja cultivada e haja a ausência de decoro moral e intelectual – para que as aquisições civilizacionais elementares como: público e privado, lícito e ilícito, dentro e fora, sagrado e profano sejam mutuamente embaralhadas, lançando todos os estratos sociais em um processo contínuo e latente de desorientação. Ou seja, basta que uma espiral de mentiras (jamais depostas) acometa a capacidade verbal de políticos, intelectuais e artistas, para que os eixos de referência invertidos, ensejem a confusão por norma, impedindo assim que a comunicação logre seu êxito: a transparência. Entretanto, caso essas mesmas mentiras jamais sejam pressentidas (propagadas, inclusive, por parte expressiva da elite intelectual), o caso clínico de estupidificação – identificado ao redor – indicia um problema social muito mais grave, em que não apenas as classes mais baixas, mas as suas respectivas elites estão igualmente estupidificadas. Músicas, filmes, livros, jornais e redes sociais compõem o rastreio dessa semiologia.

Em tal horizonte de notória decadência – em que o crível e o absurdo se confundem indistintamente – já que todas as mentiras são suportadas desde setores especificamente populares ou sequer denunciadas pelas elites intelectuais-culturais: as ilusões mais capciosas são sobrestimadas como dogmas infalíveis (‘se todos têm, eu também posso ter!’), de modo que à expectativa de jamais saciá-las segue-se, simultaneamente, tanto a pressa e o espanto de uma ineficiência interiorizada (‘se todos têm, por que só eu não tenho até agora?’), como percepção de ameaça (‘se eles têm, mas eu – semelhante a eles – não tenho, logo meus semelhantes são meus inimigos.’). Da expectativa jamais realizada segue-se uma disfunção com implicações particularmente psicológicas e sociais, ansiosas por um senso de orientação que, segundo Irvine Schiffer, se apresenta sob a seguinte fórmula: ‘Um povo faminto de salvação investe a parcela reprimida de seu carisma sobre um indivíduo que melhor o dissimule‘. (‘Charisma: Psychoanalytic Look at Mass Society‘, 1974). Em razão dessa disfunção ávida por expectativas de orientação, decorrente do conjunto de situações que o próprio indivíduo é incapaz de avaliar para além do mero emotivismo autorreferente (já que tudo ao redor – sustentado pela classe dos falantes alocada em suas respectivas elites – decai em oportunismos) – surge um estado pânico de ansiedade, cuja comorbidade – segundo S.J.Rachman (‘Anxiety‘, 1998) – alterna-se entre a depressão e a agorafobia, ou seja, o medo de lugares abertos – doravante: medo da amplidão desconhecida, compensável com o espírito gregário das companhias, grupos e cúmplices, de modo que períodos com maiores estímulos ansiogênicos são os que fomentam as maiores fragilidades emocionais e o anseio coletivo de aplacá-las.

Ademais, como o diagnóstico de Albert Bandura é mui acertado ao afirmar que pessoas ansiosas ou ansiogênicas tendem a revelar fracas expectativas de auto-eficiência, sobretudo, às situações cotidianas com as quais se deparam (já que implicam as suas performances à vida de um Outro vigilante), se pode constatar que ‘à perda de compreensão de setores específicos da realidade e consequente perda de expressão linguística para a descrição desse mesmo setor‘, decorre um encurtamento tanto da capacidade do imaginário (resultando assim toda tendência maníaca de autorreferência, de se ver em situações embaraçosas e desagradáveis e consequente confusão), como um empobrecimento da respectiva capacidade verbal insuficientemente incapaz de – via transparência – depor para si mesmo: ‘Sim, sou consciente desse estado de coisas‘. Convertido em termos sociais isso se apresenta como uma espiral de infantilismos e manifestações pueris, frequentes naquele anseio inconsciente de restaurar a posição de onipotência da primeira infância, em que, como em uma atenção regressiva, o filho reocupa o centro dos olhares e à toda manifestação de desejo inarticulado tem – por meio de seus pais – a mais incontida satisfação. Como resultado, a ansiedade da ‘criança temporã’ (ávida por atenção) converte-se em estupidez, apressando o acometido a almejar posições e realizações cujos pré-requisitos não foram sequer articulados com a mais consciente transparência. Por conseguinte, fala-se, grita-se e exige-se privilégios para desejos supostamente pré-adquiridos, surgindo assim um ciclo de ansiedades.

Se um único absurdo é suportado por uma elite, ainda que seja uma mentira com ares verossimilhantes, e em seguida, as elites intelectuais e culturais acovardam-se; indispondo-se a denunciá-lo, com absoluta certeza as perdas da própria sanidade jamais repostas à altura, tenderão a um quadro ansiogênico generalizado de quem – desorientado e sem dimensão expressiva suficiente – tenta encontrar um senso de orientação. ‘Quem não estiver confuso, não está bem informado‘ é a expressão dessa desorientação. Da incapacidade de dar nome àquilo que atormenta (como se questionar sobre as origens de suas próprias certezas e respectivo quadro mental) surge um estado obsessivo-compulsivo de manias que, na tentativa de suprimir o mal-estar de um estímulo aparentemente incondicionado (como o de tentar entender o estado de coisas com esquemas mentais da última moda), enseja em contrapartida um reforço das consequências, como por exemplo: a necessidade de pertencimento, comum àquele que, ciente de suas limitações, se aproxima daqueles que eventualmente possam suprir a desorientação. Hábitos, modos e vocabulários são os efeitos dessa compensação maníaca, próprios de uma mente incapaz de articular – com o máximo de transparência possível – suas próprias mentiras, defraudações e confusões.

2.

Afora isso é surpreendente que haja relativa similaridade entre a alegada premissa maior voegeliana (das perdas mutuamente implicadas da experiência e seu correspondente linguístico) e o estudo conjunto dos psiquiatras Thomas .D. Borkovec e Jonathan Inz: “The nature of worry in generalized anxiety disorder: A predominance of thought activity.” (1990). Em um experimento via eletroencefalograma (EGG) com pessoas acometidas de Transtorno ou Desordem de Ansiedade Generalizada (GAD em inglês: ‘generalized anxiety disorder‘) – pessoas que, acometidas por desejos não saciados, desenvolvem um quadro de restrição autonômica e respectivas manias – os psiquiatras detectaram elevada atividade beta nos lobos frontais. Vale destacar que, quando o ritmo beta está ausente de um lado do cérebro, mas deveras ativado no outro, indicia-se a existência de lesão.

Pelo observado, Borkovec e Inz perceberam que havia elevada e agitada atividade no hemisfério esquerdo, região em que se assentam as ativações elétricas referentes ao pensamento e ao nexo verbal. Em razão disso se pôde observar o excesso tartamudeante de palavras desarticuladas à procura de um campo fértil de imaginação, no contexto: incapaz de emoldurá-las. Por conseguinte, a atividade beta denunciava, imediatamente, a ausência de relativa atividade no hemisfério direito (região das imagens e intuições) e a incapacidade vicariante de articulá-las verbalmente, o que levou os psiquiatras à conclusão de que – em tais pessoas com GAD, como o cérebro (lesionado) não consegue gerar os processos capazes de integrar as ‘imagens’ às suas respectivas ‘expressões’, sintetizando assim uma assimilação expressiva da própria realidade ao redor – há tanto a ausência de compreensão de um estado de coisas presente, como uma compensação via simulacros antecipatórios, projetados irreversivelmente de modo catastrófico, seja como delírio autorreferente (‘ainda que não saiba o porquê: se eu sair, a ameaça virá novamente, logo não sairei‘), seja como mania paranoico-depreciativa (‘sairei de casa para que a ameaça não venha novamente‘). Em outras palavras, como o hemisfério direito não se integra devidamente bem ao esquerdo, impedindo assim a apropriação real dos dilemas vividos e a capacidade mesma de nomeá-los, há uma perda de realidade convertida em uma torrente de sensações pessimistas, angustiada entre a ansiedade e suas compulsões.

Como quem, impedido de compartimentar as experiências vividas em estados verbais correspondentes e assim antecipar-se às situações, pessoas com GAD padecem de um mal que, de todo, não é estranho à comunicação contemporânea: pobre em nuances imaginativas capazes de expressar a particularidade do estado de coisas, cuja reposição se dá por meio de jargões e desgastadas expressões sem referentes, haja vista, os tipos e tops da atualidade. Deste modo, por meio do estudo de Borkovec e Inz se pode corroborar tanto a premissa voegeliana, para quem – em situações históricas convulsivas: à perda de capacidade imagética segue-se uma perda de expressão linguística correspondente, bem como à certeza de que sem unidade imagética suficientemente ampla, as palavras quedam desarticuladas, restando – em contrapartida – simulacros e dissimulações que, em vez de compensarem o anseio de efetiva comunicação – agravam um processo ansiogênico cíclico de expectativas irreversíveis e confusões.

Em razão disso, como a função mais elementar da linguagem é a de dar forma à multiplicidade dos fenômenos (compatibilizando assim a compreensão de um fenômeno à sua imagem), quando os ‘estúpidos’ nos termos voegelianos espelham-se: das massas às elites – agravam-se os riscos à própria sanidade, de modo que, como ‘se atrevem a realizações que não têm direito‘ (Musil apud Voegelin em: ‘Hitler e os alemães‘), não apenas negligenciam as situações a que estão circunscritos sem poder articulá-las, como precipitam um estado de permanente embrutecimento. Nesses termos, tudo se reduz ao fisiologismo das satisfações primárias, renovadas na saciedade ansiosa de maximização do prazer em detrimento da dor, como no triádico: ‘nascer, copular e morrer‘ a que se referia T.S.Eliot. Entretanto, basta que um único indivíduo seja capaz de descerrar as ilusões da caverna e tornar transparente para si mesmo a legião de suas mentiras, para empreender um caminho, particularmente, esperançoso de renovação.

Sem o fundo messiânico que a isso se possa atribuir, tal esforço se assemelha ao paciente experimento de James Pennebaker (‘Opening up: The healing power of expressing emotions‘, 1997) que, com sua terapia ‘opening up‘, percebeu que pessoas acometidas com Transtorno de Stress Pós-Traumático se recuperavam melhor quando escreviam ou falavam sobre o ocorrido, o que nos leva a compatibilizá-lo com a tentativa de contornar o problema observado por Voegelin, que exige do indivíduo tornar claro para si mesmo, o eixo expressivo de suas próprias ações, ou seja, depor as próprias mentiras à luz de verdades decisivas que as transcendam. Ainda que solitária e paciente se pode observar que apenas uma inteligência flutuante (nos termos de Alfred Weber/Karl Mannheim: ‘freischwebende Intelligenz’); livre dos constrangimentos exigidos pelas elites político-administrativas ou mesmo daquelas que circundam o capital acadêmico, é suficientemente capaz de equilibrar os desvios e as confusões propagadas pelas demais elites, em um esforço que depõe as suas respectivas mentiras como meros artifícios em busca de auto-expressão.

 

(…) A continuar.

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2 comentários sobre “Anatomia da decadência

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