Por Ivan Pessoa

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(Estátua de um casal dogon, aproximadamente 1700 a.C).

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Palavra‘, em sua etimologia, advém do grego ‘parabolé‘ (símile, comparação), significando a força expressiva que aproxima o que está distante, unificando-o em uma imagem. Aproximar o que está distante quer dizer: o ato de libertar as coisas da indeterminação primitiva ou anônima em que até então estiveram submetidas. Com efeito, ‘palavrear’ é um ato criador, doravante concepção; ato que consuma e opera a passagem do possível para o real. Por característico, por pressupor uma força evocativa daquele que a pronuncia, a ‘palavra’ põe a termo os dados dispersos da experiência, determinando-os.

Por que concebe mundos, manifestando os contornos do determinável, a palavra é ‘semente’ (sêmen) que, a depender da força de expressão daquele que a cultiva, revela ou oculta. Não por acaso, na espermatogênese dos gregos antigos – numa linha ascendente que vai de Pitágoras, Platão até Hipócrates – o ‘sêmen‘ (como a ‘palavra’/ o logos) estaria radicado na mesma região do corpo: o cérebro, ambos submetidos a funções e faculdades relativamente semelhantes. Quando estimulado por uma ‘virtude atrativa‘ ou força de atração (faculdade responsável por aquecer o esperma à proporção que as imagens concupiscentes ativam a busca pela satisfação dos desejos) o sêmen desceria – por meio da medula espinhal – para o saco ou bolsa escrotal. Ora, é neste horizonte de compreensão que se consagra a tese de Diógenes Laércio, segundo a qual: ‘o esperma é uma gota do cérebro‘, posteriormente ampliada por Galeno como um processo decorrente das ‘artérias cefálicas.’ A palavra é sêmen, diriam os gregos antigos. Ademais, para estes, no ato sexual pro-criador, as sementes masculina e feminina aquecer-se-iam mutuamente no útero, aumentando de volume. (A palavra/sêmen é vida). Nesse contexto, a carne do semeado, do feto, organiza-se à proporção que incorpora o sangue menstrual da mãe.

Em razão disso, a vida ‘in statu nascendi‘ é uma Ideia do útero, que o forma por meio de uma ‘virtude formativa’; de um poder plástico gerador, atraída por meio de moléculas seminais dentre as quais: o ‘pneuma‘ que, sendo a causa da procriação, reside numa força mais nobre e elevada que o próprio homem. Para além da digressão e menção à espermatogênese grega, a palavra semeia por força de um sopro divino que duplica o ato criador. Em âmbito antropológico, em inúmeras tribos, clãs e redes de lealdade tribais mundo afora, o sexo – bem como a palavra – atualizam o impulso criador cosmogônico, surgindo dessa ligeira compreensão, os ritos de fecundidade sob a lua (símbolo pro-criador por excelência, pois que faz germinar as sementes, além, é claro, de avolumar-se à maneira do ventre da mulher grávida).

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Nos diálogos que manteve com Ogotemmeli, detentor da sabedoria dos Dogons (radicados no Mali, África Ocidental), o antropólogo francês Marcel Griaule coletou um conjunto de relatos sobre aquela cosmovisão, a começar por sua espermatogênese e seus ciclos de fertilidade. (vide obra: Marcel Griaule: “Conversations with Ogotemmeli: An Introduction to Dogon Religious Ideas.” 1965.). Segundo Ogotemmeli, em citação dupla: “Nós, os homens, ao falarmos às mulheres, contribuímos para a procriação. Ao falar a uma mulher, fecundamo-la” / “Todas as palavras boas (…) entram no seio de todas as mulheres, naquelas que estão prontas para as uniões e os partos futuros.” (A despeito das circunstâncias históricas que os separam, gregos e dogons concordam decerto: a palavra é sêmen).

Para os Dogons, a palavra (de essência divina, como a água) quando pronunciada, descreve uma linha helicoidal: sai pela boca numa vaporada tépida, num impulso vital, do ponto mais secreto do ser que antes a abrigara em segredo. A depender, entretanto, da qualidade e força expressiva da voz masculina (quando verdadeira), a palavra pode penetrar as duas aberturas da mulher: pelo sexo ou pelo ouvido, sendo este último – segundo os Dogons – a representação dos dois órgãos sexuais: o pavilhão é macho e a cavidade auditiva é fêmea. O pavilhão é o sentinela, aquele que protege e impede que a cavidade feminina seja surpreendida pela mentira, cujo custo é a maldição.

Numa ligeira visada anatômica, os Dogons acreditam que a palavra má ou maledicente (aquela pronunciada às escondidas e, sobretudo, à noite; à hora do sono do sentinela): entra pela cavidade, passa pela garganta e pelo fígado, enrolando-se labirinticamente nas vísceras. A maledicência não carrega a vida, pois vida não tem. Tal palavra, não sendo incorporada, é expelida por meio da função evacuatória, que impede que o dito seja semeado. Em contrapartida, a palavra boa ou pródiga (aquela que se pronuncia à luz do dia, à altura do sentinela): entra pelo ouvido e alcança diretamente o sexo, habita-o, encanta-o, floreia-o. Como sua finalidade é aproximar os distantes na consumação do ato voluntário da entrega, tal palavra enrola-se à volta do útero, dispondo-se da mesma forma que fora emitida: helicoidal, ou seja, à procura do seu próprio eixo. Borboleteando desde dentro, a palavra vai semeando a vida, dando forma ao que estivera oculto.

Dizem os Dogons, que a palavra boa é de água, pois contém os fluxos, cristais e a umidade necessárias para a procriação. Como a água, a boa palavra adapta-se às circunstâncias sem, é claro, se corromper. Seu efeito sob o espírito é da ordem da paz e do refrigério. Por certo, seu contrário é igualmente verdadeiro, sendo a palavra má: árida, seca, pois que sem força suficiente para inspirar vida. Quem a cultiva, ainda que inadvertidamente, tende à morte, à doença e à deformidade. Afora isso, se há uma lição atemporal, preservada pelos Dogons, (outrora estimada pelos gregos) é esta: a palavra é sêmen, mas – além de só brotar em silêncio – só se manifesta inteira a quem se entrega. Aliás, a quem a mereça, decorrida uma luta de vida ou morte para dar-lhe à luz.

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