Por Ivan Pessoa

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(Lajos Vajda: ‘Two faces‘, 1934)

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Da raiz da palavra grega ‘mimesis/ μίμησις‘ – traduzida para o latim como ‘imitatio‘ – surge a palavra ‘mimos/ μῖμος‘ (ator em grego). Em contexto relativamente semelhante, como ambas as línguas: o grego e o sânscrito partilham um mesmo tronco linguístico, o indo-europeu, não é de admirar que a raiz de ‘mimos‘ seja ‘ma‘, que significando ‘medida/padrão/forma‘ ressoa ainda no conceito hindu ‘Maya‘ como sinônimo de ilusão. A propósito, como que conciliando a proveniência das línguas em âmbitos civilizacionais distintos: ‘mimos‘ e ‘Maya‘ são como duplos ou semelhantes há muito conciliados no lusco-fusco do drama e da representação, a saber: no teatro – espaço privilegiado para o espelhamento da vida cotidiana e sua imitação.

Em tais espaços, em pleno século IV a.C (dada a complexidade dos papéis e da ‘medida’ a ser mimetizada), um ‘mimos‘ era considerado inferior a um outro artífice da imitação, o ‘hypokrités/ῠ̔ποκρῐτής‘, intérprete cuja principal função nas tragédias era a de promover e manter o diálogo com o líder do coro. A capacidade mesma de subsumir a própria personalidade na fala (epos/ἔπος) de um personagem com uma naturalidade incomum, quiçá, fosse esta uma das principais características do ‘hypokrités‘ de então, o que exigia por sua vez uma abertura psicológica mais complexa que a mera imitação.

Diferentemente do ‘mimos‘ que implicava a ideia da reprodução de um modelo – o mais fidedignamente possível – já em sua etimologia, o ‘hypokrités‘ (cuja raiz ‘hypo‘ como abaixo ou sob, e ‘krit‘ como julgamento) caracterizava-se pelo ligeiro escamoteamento da personalidade do intérprete em nome de um duplo a ser interpretado, resultando daí a sua própria etimologia: abaixo de julgamentos. Em linhas gerais, o ‘hypokrités‘ significava aquele que, escondido sob a face de um Outro, encarnava não apenas padrões repetitivos (como o ‘mimos‘, que imitava traços gestualísticos remontáveis), mas abria o horizonte para a composição da complexidade psicológica, liberando afetos e ânimos por vezes negligenciados, além é claro, assentando no teatro as bases para aquisições públicas posteriores como a própria capacidade de discursar e assumir papéis, elementos que ganhariam paulatinamente corpo com a sofisticação da política. (A palavra sofisticação em questão faz ligeira menção à sofista, sendo ambas originadas na mesma raiz etimológica).

A contraposição entre o ‘mimos‘ e o ‘hypokrités‘ se deu na própria transição do teatro grego e das exigências psicológicas daí resultantes, portanto, se deu na passagem da mímica (em comédias em que os atores não se valiam de máscaras e logo imitavam gestualisticamente um modelo) para as tragédias e dramas cujos principais recursos cênicos (máscaras, sobretudo) radicavam-se numa convocação pedagógica às decisões d’alma, desde àqueles que as encarnavam como àqueles que as assistiam. Mascarar-se e assumir papéis tornou-se, pois, sinônimo daquele que se põe abaixo da julgamentos, ou seja, daquele que, ao se esconder sob um personagem, se torna inimputável – doravante: sem culpa.

A capacidade crítica de encarnar papéis e forjá-los em cena; escondendo-se e mostrando-se através de máscaras e dos gestuais; deslocando o eixo da personalidade à impessoalidade; dando vida a duplos admitidos e inadmitidos na vida pública, fizeram com que os romanos dessem à palavra ‘hypokrités‘ um sentido paulatinamente agravado pela própria decadência da vida política grega, convertendo-a pejorativamente em: ‘histrio‘, raiz etimológica de histrionismo, posteriormente compreendido como um transtorno de personalidade próprio dos que necessitam escandalosamente de atenção. Políticos e sub-celebridades atuais bem sabem.

De um mero recurso lúdico e teatral, que evocava um recuo do uno ao múltiplo ou do Eu ao Outro, até a apropriação pela política romana, o ‘hypokrités‘ tornou-se tanto o sinônimo mesmo do performático e escandaloso ‘pseudos‘ ou falso, como o diagnóstico de uma decadência moral, daí surgindo o depreciativo e condenável epíteto de ‘hipócrita‘, aplicável àquele que, por afrouxadas questões de caráter, mantém-se aquém do bom senso, por vezes afirmando e negando coisas excludentemente contraditórias à maneira de quem prega o que não vive e de quem vive aquilo que censura. É este o sentido que La Rochefoucauld atribui à hipocrisia como uma contraditória homenagem, em que a afirmação é francamente confundida com a negação. Apesar de confuso e contraditório, o/a hipócrita aponta para uma virtude encoberta por um vício, surgindo dessa confusão os efeitos mais danosos de sua personalidade: o falso moralismo e o politicamente correto que são, a bem da verdade, os grandes males desta década.

Daquela capacidade cênica de encarnar a voz de um personagem pondo-se aquém de qualquer julgamento moral (hypokrités, por excelência), surge a alegoria medieval representada em seus bobos, palhaços e pulcinellas que são como aqueles que ironicamente denunciavam as imposturas daquilo que modernamente se tornaria um padrão de comportamento – não como tragédia, mas como farsa. Sim, a finalidade cênica do palhaço é desvelar e depor, ironicamente, aquilo que se pretende incorrigível sob a máscara do decoro, de modo que o cômico é o que desmascara a hipocrisia.

Não sem maiores consequências, a techné dos ‘hypokrités‘ foi incorporada na ‘actio‘ dos retóricos, adaptada por políticos, filisteus da cultura e pregadores até se tornar o padrão moderno da mentalidade burguesa por meio do qual ideias mutuamente excludentes (clamar a simultânea compatibilidade entre a defesa de insetos e animais com a ‘piedade’ do aborto de fetos humanos) são tomadas por verdadeiras apenas por sua vinculação à moda e à credibilidade coletiva, bem como comunicadas sem sequer serem digeridas, desencadeando assim os modismos, padrões, ideais e discursos dos que, por razões hipocríticas, não dimensionam nem as causas nem as consequências efetivas daquilo que supõem defender.

( – Quantos, meu Deus, nestes dias não se vinculam a certezas que, jamais lhes ocorrendo intimamente no fundo da alma, lhes abrem as portas do bom-mocismo, da camaradagem e da subserviência? Ora, não seria a hipocrisia, a matéria-prima da vida burguesa, vivenciável quanto mais a condenam?).

Destaca-se, oportunamente, que a essas ideias mutuamente excludentes – comum entre os que ‘lutam’ pelos inocentes, mas abortam – o psicanalista chileno Ignacio Matte Blanco em: ‘Thinking, feeling and being’ (1988), consagrou o termo: antinomia, sendo esta  uma incompatibilidade entre duas asserções que reclamam para si, iguais direitos a serem verdadeiras. Por certo, o/a hipócrita tende, sem o saber, a um conjunto de pensamentos antinômicos ou contraditórios que são medidas psíquicas de compensação perante esquemas repressores, à maneira da criança que maquina em silêncio: – Já que não devo fazer isso, o farei por birra. Tais pensamentos surgem quando há a oposição na mente entre duas ideias incompatíveis: uma que surge como uma tendência incontida à satisfação de um desejo que, como se sabe é sempre o desejo de um outro (o brinquedo ambicionado do melhor amigo, cujos pais são afáveis e amigáveis, por exemplo), e uma organização psíquica de ordem repressora que tende a bloquear a realização de tal satisfação (- se este brinquedo não é seu, não o pegue). Provavelmente, direcionado a um esforço de reabilitação dos olhares e mimos que os pais há muito esgotaram por razões próprias ao crescimento e à idade, o/a hipócrita em questão tende a se lançar euforicamente contra os mecanismos repressores impostos pela sociedade, alternando duas ideias incompatíveis que, apesar de confusas numa simples confrontação entre aquilo que se propaga em público e aquilo que se vive em privado, levam ao mesmo denominador: ser notado a todo custo, de modo que o leve a um decisivo desprezo; ao clímax de um há muito esperado arremate:

– Brinquedo? Não, muito obrigado/a, tenho alergia!

 

Sim, caros e solitários leitores: todo/a hipócrita é uma criança que luta em seu jardim de infância: ora por um minuto de atenção (para que possa em seguida dar-lhe a medida de um heróico desprezo), ora contra a vida adulta. Como efeito de antinomias, que se vão arraigando à proporção que um indivíduo se dilui em um grupo, eis que surge a hipocrisia, cujo suprassumo é a incapacidade de elencar as razões, as motivações daquilo que se pensa, bem como daquilo que se pratica. Partindo da confusa antinomia, o indivíduo é diluído numa espiral de impessoalidades sem avaliar quem é e o por que é. Confrontando seus interlocutores, reabilita o centro do teatro infantil há muito perdido, posicionando-se contra as normas de um mundo que só o seduz por que o despreza, nutrindo-se daí o seu tão decisivo desprezo.

 

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Contrapondo-se à recepção sacrossanta das plateias gregas à mímica de seus atores que cultuavam-nos à distância como deuses inalcançáveis, no século XVIII havia um hábito curioso entre os burgueses: o de, na condição de plateia, sentar-se senão próximo, mas no próprio palco, por certo como um anseio interativo de compor o drama, vivê-lo. (Hipócritas, tais modernos espectadores arremessavam seus tomates sobre os atores em cena, não por antipatizá-los, não, mas por um desejo de substitui-los no drama supostamente recusado. Este desejo confuso de querer denegar e recusar aquilo que se admira: devorando-o, aniquilando-o, apunhalando-o, é a dialética que subjaz entre a antinomia e a hipocrisia). Daí porque não é de surpreender o ocorrido na estreia da peça ‘Sémiramis‘ (1748) de Voltaire – em que, dada a quantidade de espectadores ao redor do palco, resultando assim na queda do ator que representava o fantasma do Rei Nino e consequente empecilho de uma importante situação dramática, o francês teria alardeado aos berros: ‘Place à l’ómbre!’ ou ‘Deixem espaço para a sombra!’. Sim, a vida moderna – burguesa e envaidecida – é aquela que surge com o esforço hercúleo de retirar toda a sombra, toda a escuridão, todo o mistério para que, do alto da apoteose, reine a total transparência de uma luz, cujos excessos resplandecem, mas ofuscam. (Qualquer semelhança com os contrapontos históricos entre os que supunham, desde há séculos, defender a vida juvenil moderna, lançando luz sobre a escuridão claudicante dos antigos, não é mera coincidência.).

5074163106690078(Sémiramis, Ato IV, Cena 4). 

 

 

Tal contraponto entre a hipocrisia teatral e sua versão modernizante, ainda que modesto, é o suficiente para percebermos o quanto o antigo ‘hipócrita’ se converteu numa versão caricata, deslocando-se do centro da peça, ou melhor da personalidade por detrás da máscara até espraiar-se como um arquétipo nas personas neuróticas e atomizadas de suas próprias plateias circundantes. Em razão disso, o/a hipócrita moderno é aquele que, confuso às máscaras atribuídas pelo drama cotidiano (do sonoro, imperativo e hipnótico: – tu deves!), anseia fervorosamente algo em privado, esconjurando-o publicamente como uma maldição. ‘- Não faça isso, não use ou fale isso, não pense isso‘ (…). Perante todos perdura aquele desejo neurótico: ‘seja como eu, ame, salve como eu‘, mas em privado, a confusão segue tal tom: ‘ora, mas quem sou eu, afinal?’. Desejando-se em um outro que renega, apesar de – antinomicamente – admirá-lo, o/a hipócrita é uma elipse, e só pode ser compreendido se invertem seu pensamento. É nesta direção que Proust aponta ao afirmar que todo ‘embora’ é um ‘porque’ envergonhado. Vejamos: ‘Gosto dos seus brinquedos, embora não goste de ti.’ Convertendo a elipse, eis que se ouve o balbucio do/a hipócrita: ‘Gosto dos seus brinquedos porque gosto de ti.’

No passado, o êxito de um ‘hypokrités‘ era o de esconder sua personalidade sob a máscara até que ambas se transubstanciassem em harmônica expressão. Dando vida a um personagem, anulava-se para daí fazer ver outras vidas. Hoje, em contrapartida – entre sombras, modas, fantasmas, ideais, farsas, perfis e falsos ‘mimos‘ – o maior dos êxitos de um/uma hipócrita é celebrar e festejar não a persona sob a máscara e a desenvoltura interpretativa, mas a sua outra face: a própria hipocrisia, cujos olhos veem os outros, deseja-os, mas são cegos demais para vê-los a si mesmo.

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