Por Ivan Pessoa

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A) Em busca de uma definição razoável sobre a ‘vida’, o biólogo norte-americano Stuart Kauffman a esboçou deste modo: conjunto de processos orgânicos ou naturais em que um agente autônomo é capaz de produzir ciclos termodinâmicos virtuosos ou viciosos. Um ciclo virtuoso é aquele que, apesar de determinados condicionantes, o agente continua a produzir trabalho em um plano que, longe de se desgastar com o tempo, leva-o ao aperfeiçoamento e à consequente preservação de energia. Tal ciclo virtuoso é o que se põe mais distante da entropia em que – a despeito do caos, da desordem, da aleatoriedade e imprevisibilidade – o agente é capaz de converter energia em trabalho e trabalho em finalidades específicas. Em posição diametralmente oposta, um ciclo vicioso é o que tende à saturação e que, impedindo o sistema de se autorregular, leva o agente a esgotar seus próprios suprimentos de energia, comprometendo-o à extinção.

B) Em conversa com Albert Einstein, no ano de 1955, o cientista irlandês John Desmond Bernal concebeu a ‘vida’ sob a seguinte descrição: “numa expressão poética: todas as entidades dotadas de um certo grau de permanência, dinamicamente estáveis e capazes de transformar energia a partir de uma qualquer fonte. (…). Neste sentido, uma galáxia ou uma estrela, ou então, a uma escala mais terrestre uma chama, são coisas vivas; em um grau de complexidade que ultrapassa o nível biológico, quer falemos da vida de uma cultura ou de uma civilização.”

C) Se a língua é a fonte nutricional do senso de realidade de um povo, afinal é o reservatório dinâmico das vivências humanas, é ao redor dela que se deve pressentir tais ciclos virtuosos ou viciosos; empenho que depreende paulatinamente seu potencial ‘termodinâmico’. Avaliar tal potencial é proceder a uma ‘Kulturkritik‘, rastreando a força vital que uma língua é suficientemente capaz de mover para se renovar ultrapassando-se ou, em caso extremo, sucumbir isolando-se. Como se atualiza em um processo histórico, igualmente vital, tão logo a língua se esgote em formas inorgânicas (à maneira de ruídos libertos de quaisquer exigências denotativas) ou melhor, em apelos desarticulados incapazes de assegurar relativa vivência interpessoal e senso de unidade, a cultura que a anima dá provas de sua dissolução – termo que em um sentido superior é substituível por decadência. Tal decadência aponta para aquilo que, saturado por seus usos, esgota sua virtual força de expressão, restando assim seus sucedâneos: chavões, gírias e cacoêtes. Impedida de se renovar, ultrapassando-se, e captar o que está vivo, a língua cede ao particípio de situações pretéritas cristalizadas em adjetivações e frases feitas – fonte da linguagem engessada da comunicação cotidiana. Em outras palavras, quando a língua já não acompanha as demandas comunicáveis do presente, o que sobra são expressões já sedimentadas sobre o peso de ideias genéricas, que por sua vez encobrem e subjugam os falantes até que estes sejam capazes de repô-las.

D) Aquando de seu apogeu, mais especificamente quando é capaz de contornar a ameaçadora entropia do caos, da confusão, da gritaria e do falatório, as fontes vitais da língua são cultivadas (daí a ideia da ‘Kultur‘, cultura) em um dínamo de tensões que em tudo espelha o mundo real, e enfim repousam em uma série de conciliações com as forças do solo, do humano e da terra. Neste ciclo virtuoso, a língua empreende e restabelece níveis mais amplos de comunicação, tão vívidos que são capazes de tornar próximos os que estão distantes, convocando os mortos e proscritos, aliançando planos de comunhão que imediatamente integram e transcendem as localidades. Sob tal ciclo é que se faz compreensível aquela ideia do espanhol Salvador de Madariaga: “As nações chegam ao auge do seu poder quando o gênio da época está em harmonia com o gênio das nações; quando, por outras palavras, a era funciona como uma caixa de ressonância para a sua nota peculiar.” (‘On Hamlet‘, 1948). Quando em seu ciclo virtuoso – a língua como cultura – é transfronteiriça, pois que desconhece as fronteiras do tempo e do espaço, ultrapassando toda sorte de limites ou condicionantes. Nesses termos, apurada a sua ‘forma interna‘ (Wilhelm von Humboldt), a língua aponta para uma capacidade de saída de si que, facultando meios de traduzí-la (übersetzung), aponta igualmente para a sua transposição.

E) Simmel, Troeltsch, Tönnies, Nietzsche, Spengler, Burckhardt e Toynbee – apesar das diferenças que os separam, coincidem ao menos em um tópico: a progressiva decadência de um povo é sintoma da petrificação dos fluxos vitais e de suas forças expressivas, em que aquilo que é fausticamente vivido – inquieto e fugidio – resiste à forma e à articulação. Nesse plano, a língua cede à tartamudeante confusão.

Em razão da impremeditada decadência ou dissolução das formas vitais, a pobreza da língua aprisionada domestica a cultura, indiciando um clamor latente por renovação e vitalidade. Se uma cultura só é suficientemente viva quando a língua repõe suas perdas eventuais, por meio de relativos ciclos virtuosos (obras ígneas e incendiárias, pois que criadoras), nada mais natural que pressentir na poesia sua fonte de reposição, afinal é esta incontida expressão humana que submete a língua à prova do absoluto, contornando as formas já cristalizadas pelas lições do trato cotidiano e pela mecânica civilidade. A palavra comprime as ideias em usos fônicos convencionais – agravados em período de decadência – enquanto a poesia a liberta. Dada a sua solitária e demorada concepção, a poesia retém e depura as ideias (ainda que desencontradas) que apontam para uma relativa continuidade da cultura e respectiva unidade vital dos sentimentos. Nesta panorâmica em que a cultura resiste aos moldes petrificantes da civilidade (por vezes excessiva), a poesia é a seiva criadora da língua e o poeta, o resumo e a crônica breve do tempo. Destarte um poeta ou a ausência deste, é capaz de nos fazer suspeitar aquilo que já está morto ou resiste à morte. Apenas este é capaz de nomear e restituir os ciclos que se escondem nas secretas e perigosas maquinações da vida.

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