Nossa vida é buscar, gemendo, o que não encontramos” (Pascal).

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(Para Glaucinha, que sabe que Proust é tão infinito quanto o Amor)

Por Ivan Pessoa

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Viver é dar continuidade ao que se revelou inacabado. Deitado em sua cama, algo o impedia de partir definitivamente. Uma chama ainda aquecia os seus íntimos propósitos à maneira de um gozo que se sabe interrompido. Desde a morte de sua mãe, Marcel se trancafiara em seu quarto, anulando o mundo para além da janela acortinada. A sua asma, as suas crises intercaladas de neurose e melancolia, a sua febre e seus suores noturnos; os seus narcóticos e criados interrompiam o fio distante de seu estado de espírito. O seu quarto, revestido de cortiça, abafava as interpolações de seus murmúrios; o carpete sequer acolhia a pluma de seus passos, afinal sobre a cama modesta, Marcel Proust pressentia um incômodo lírico por ser nomeado, doravante, por ser rabiscado. Não ousava pôr os pés em terra firma e nem mesmo desembarcar de sua nau de insônias.


Divagando, sem ousar um passo qualquer, movia-se sob os auspícios náuticos de sua imaginação memoriosa. Anos antes, os seus diletos amigos, os Bibescos, sugeriram-lhe uma internação em um sanatório na Alemanha, sob o pretexto de tratar de seu ‘hábito nervoso.‘ Entretanto, Proust recusara. Por meio da doença passara simultaneamente a sondar ainda mais as habitações de sua memória e a se furtar dos contatos ordinários do mundo, no que o livraria dos enfadonhos compromissos sociais. Quando, eventualmente, comparecia, Marcel se atrasava para roubar a súbita atenção dos presentes. Vestia-se como um Lázaro que, ressuscitado, tomasse o primeiro comboio. Punha-se em um sobretudo desgastado como um judeu errante, e quando não comparecia, entreouvia o mistério ao redor de seu nome e o ar mistificável de um homem inacessível. Aos 25 anos publicara ‘Les plaisirs et les jours‘, ainda que a tivesse escrito precocemente entre os 20 e 23 anos. Até que, dez anos depois daquela primeira publicação, a morte da sua mãe lhe enlutou de tal modo que, segundo o seu amor juvenil, Madame Pouquet, correspondeu a um verdadeiro dilaceramento. Marcel jamais encontrou um amor tão fraterno e atencioso como o de sua mãe; figura que, segundo Pouquet, ‘almofadou-lhe durante toda a vida.‘ Desacomodando a sua paz de espírito, os tempos se confundem, e o passado evanesce como um gota de perfume sobre os papéis inadiáveis de Marcel. Lá fora, o tempo urge, e logo desperta.


A solidão, hóspede irônica dos abandonados, vacila em círculos através do relógio. Para compensar o seu incômodo, cujas insinuações vicejam desde seus poros delicados, Marcel apoia-se, e se põe sentado sobre a cama. Recolhe os papéis avulsos sob o móvel, e pesa a palavra por ser escrita. Chove nas imediações de Paris, por sobre suas ruas foscas e mal iluminadas. Há uma penumbra naquele fin de siècle que Marcel suspeita, enquanto pondera sobre o artifício de um desaconselhado advérbio. Curiosamente, para quem a doença é tão constante quanto o ponteiro servil e mecânico do relógio amadeirado, Marcel consegue impor sobre a poeira opaca da memória, a textura e a porosidade de um instante que se cristalizasse em um fotograma, sobrepondo uma camada de realidade no éter fugaz da experiência. Não suspeitam os criados que sob a luz vacilante daquelas madrugadas, o adoentado Marcel inventa jogos ficcionais e imaginativas histórias, cujas progressões e cadências são antes musicais que dramáticas. Nem mesmo o obsessivo Flaubert ousara vagar por tantas madrugadas. Na ocasião, sem que saibam, Marcel compõe uma sinfonia fugidia, escrita “às vésperas da morte, sem nada saber do meu ofício.” A obra tem a ambiência de um quarto enfermo; obra que, segundo Marcel: “eu levo dentro de mim, mas queixoso de nunca tê-la extraído.” A obra monumental é aquela que se insinua, mas adiando-se jamais se escreve. Repousa.


Às três da manhã de um dia qualquer em novembro de 1922, Marcel grita por sua secretária, e sem esconder seu desespero, já que a febre aumentara, começa a ditar-lhe algumas notas sobre a morte do seu romancista Bergotte. Em tais notas, como que seu memento mori, Marcel trata do ofício do escritor que, provindo de um mundo em que a Graça se doa em melodia, é “fundado na bondade, na escrupulosidade, no sacrifício.” Assim que as conclui, esboça um suspiro e morre, sem ter tido tempo de rever as provas de ‘La Prisonnière’. Sob os seus olhos fenece o fulgor de um século; a última estação das classes cultivadas, a flor da sensibilidade derradeira. Como um retratista, cujos detalhes de sua aquarela são entalhados pela presença inteira de seu corpo, nervos e psiquismo – Proust é um daqueles espíritos que, com tamanha inteireza, renasce em cada século para englobá-lo, divisando-o como uma fronteira.


Sob a cômoda abarrotada de papéis e palavras ilegíveis, lê-se os seguintes rabiscos: “As pessoas mundanas estão de tal modo acostumadas a que as procurem que, quem lhes foge, parece-lhes uma fênix” (‘O caminho de Guermantes‘). Os papéis voam, fogem, renascem. “Em busca do Tempo perdido” é o nome daquela sinfonia fugidia que, ao soar em Combray, se sabe inacabada.

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