Por Ivan Pessoa

Enquanto a Sir Ernest Henry Shackleton se pode atribuir a coragem pela chegada pioneira à latitude 88 da até então inóspita Antártida, cujos 42 graus abaixo de zero, sempre fascinaram a imaginação e o temor humano, a Wilfred Patrick Thesiger se pode atribuir a coragem por tentar conciliar (ao seu modo) ambas as geografias: a física e a humana.

Totalizando 160 mil quilômetros de travessia, por territórios tão arredios quanto a própria Antártida, Thesiger atravessou a camelo o maior deserto de areia do mundo (Rub al-Khali, ‘a quarta parte vazia‘ em árabe), com quase 600 mil metros quadrados, no centro da Península Arábica. Nascido na Inglaterra, filho de diplomatas britânicos, Thesiger pertencia a uma família abastada, cuja divisa deixava entrever: ‘sped et fortuna‘, esperança e sorte. Ora, que outra expressão seria mais apropriada para se referir a Thesiger que ‘esperança e sorte‘?

Esperançoso por resolver um enigma da geografia física da então Abissínia, em 1934, se empenhou em responder o que havia desencadeado o desaparecimento do rio Awash que, nascendo nas montanhas ocidentais de Adis Abeba, fluía para leste sem jamais chegar ao mar, à maneira de um rio adiado. Afortunado, como todo Thesiger, o aventureiro reuniu seus homens e se pôs a penetrar em um território cada vez mais hostil, no qual duas expedições italianas, bem como o exército egípcio, haviam sido aniquilados pela tribo dos Danakil, conhecidos por colecionar os testículos dos inimigos capturados.

Aos 23 anos, sim, com tão pouca idade, Thesiger fizera uma dupla descoberta: a de que o rio possuía uma foz radicada num lago salgado, cuja salinização comprometia seu curso, e a lição de vida dos beduínos, condensada em seus quatro m’s – madrassa (escola), mustashfa (clínica), masjid (mesquita) e mayy (água). Educação, saúde, fé e água, princípios elementares de qualquer vida bem-sucedida, segundo os beduínos. Uma quádrupla lição de simplicidade que o acompanharia, com sua espingarda, sua máquina fotográfica (a Kodak que seu pai lhe dera), uma lupa e uma bússola, onde quer que fosse.

Depois de cruzado e desafiado o deserto ainda então intransponível de Rub al-Khali, viajou até o sul do Iraque para ‘viver com os búfalos‘ e com os árabes dos pântanos, entretanto, não suportando os verões intensos, refugiou-se no Curdistão, em 1951. Dois anos depois migrou para o nascente Paquistão, a ‘Terra dos Puros‘, em urdu, pátria muçulmana para os indianos, cujo nome e empenho se deve ao poeta Choudhry Rahmat Ali.

E antes que suspeitasse que aquele nascente país se dividiria em Bangladesh, viveu ali durante três anos, migrando novamente, rumo ao Afeganistão, juntando-se à etnia nuristani. Volta à Etiópia, em 1960, e em 1968 infiltra-se entre os samburus do Quênia que, sabiamente, o chamam: ‘grande elefante que caminha sozinho.’ Em um contexto similar a esse, um dia, tendo abandonado a Escócia para viver em Samoa, os nativos alcunharam Robert Louis Stevenson com um epíteto que, de súbito, dava a medida de sua alma: ‘tusitala‘, doravante: ‘o homem que conta contos.’

Um pouco antes de morrer, o homem que viveu seus contos, ou melhor, ‘o grande elefante que caminha sozinho‘ escreveu em seu diário: “(…) a falta de equilíbrio nas nossas vidas e a nossa arrogância irão matar-nos dentro de um século, a não ser que paremos para pensar.” Passados dezesseis anos de sua morte, o equilíbrio e a arrogância matam-nos (em segundos) como nem mesmo um século o faria, tornando-nos tão raramente humanos quanto um grande elefante que, abandonando o bando para dimensionar a sua própria grandeza, caminhasse sozinho.

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