Por Ivan Pessoa

Ao longo da vida percebemos que aquele ‘bem-me-quer/ malmequer’ da curiosidade infantil (fruto daqueles namoros imaginários) ganha outras nuances, outras gradações, e o que era antes apenas a procura mágica por eventuais pretendentes, esconde um sentimento particularmente constante, a saber: o de rejeição ou aprovação. ‘Por que fulano de tal gosta ou não gosta de mim?’ é a outra versão daquele ‘bem-me-quer/ malmequer’; neste caso, dissimulada (sem o verniz da inocência) pela vida adulta. Lembrando dessa brincadeira percebi que, ao longo da vida, só aquilo que está próximo nos afeta; no mais das vezes pela seguinte disjunção exclusiva: ou em benefício de nossa vaidade, ou em prejuízo de nosso egoísmo.

Adaptando a caixa de Edgeworth (do equilíbrio geral da Economia) e a fenomenologia das cores de Carl Stumpf, cheguei à conclusão de que aquele ‘bem-me-quer/malmequer’ da infância (que se reajusta à vida adulta) – pode ser esquematizado de modo a nos fazer perceber não apenas as impressões depositadas sobre as demais pessoas, mas os efeitos dos seus eventuais distanciamentos.

Em tal caixa, a força de mobilidade de cada variável/ cor (A/B/C/D; azul/ amarelo/ branco/vermelho) decorre da expectativa que alguém deposita sobre outro alguém, de modo que, em determinados casos, pode ser uma espécie de anseio de reviver e transferir inconscientemente certos afetos – potencialmente direcionados ao Pai ou à Mãe – a uma terceira pessoa. O princípio que une e desloca cada variável/cor (através da força móvel da transferência), é a certeza de que a aprovação é uma expectativa que, direcionada a alguém (leia-se: próximo), se realizou em um tempo específico (o que compõe o sintônico, a sintonia como espaço de convívio) e a rejeição, que – como uma expectativa ainda não realizada – vigora como recusa, ou seja, como cripta e túmulo da satisfação narcísica. O primeiro se satisfaz em totalidade e em conjunto; o segundo introverte a satisfação; à maneira de quem, patologicamente, ama e cultua os traumas desesperados do seu baú de ossos particular.

A admiração, que nada mais é que uma versão moderada do amor como o sintônico absoluto, é ilustrada pelas letras A e pela cor azul; enquanto o seu par complementar, a rejeição, é uma versão condensada do ódio como polo extensivo da antipatia e, nesta caixa, simbolizada pela cor amarela e pela letra B. Por efeito de A, as afinidades se efetivam por ordem do princípio anterior, segundo o qual a admiração é uma expectativa (voltada para alguém próximo) que se realizou em dada circunstância temporal e, por efeitos físicos, se tornou espacial; expansiva; tátil; em linhas gerais se exteriorizou. Em outras palavras, o que faz com que duas ou mais pessoas formulem um consenso acerca de algo ou se sintam bem na presença mútua é o fato de que uma expectativa prévia em algum momento foi satisfeita, de tal modo que aquele breve intervalo de tempo se projetou espacialmente sobre as coisas como um abrigo acolhedor; como uma coberta capaz de se sobrepor a todas as diferenças, a todas as imperfeições e incertezas. Isso não alude à total coincidência e conciliação entre duas pessoas que se assemelham em tudo, mas à capacidade de, em conjunto, renunciarem juntas à própria individualidade, manias e certezas.

Sim, quando pessoas afins se descobrem nesta vida há um senso de felicidade mútua que, apesar das diferenças que as separam, as une e as encobre como quem vestisse uma única pele. Para que dê frutos mais amadurecidos (como um amor entre casais ou uma amizade duradoura) é necessário que haja um equilíbrio entre a expectativa depositada e o contínuo teste do tempo que, em dado contexto, a renova como realidade física, ou seja, como uma segunda pele suficientemente capaz de ser costurada apesar dos remendos. Portanto, como extensão do princípio da admiração – o da expectativa satisfeita, se segue a seguinte certeza coextensiva, a saber: um sintônico se forma entre duas ou mais pessoas próximas no instante em que um anseio, um desejo, uma promessa, um pedido se totaliza e se consuma no instante simultâneo em que (de modo súbito ou espontâneo) há a satisfação mútua de uma expectativa prévia e a consequente criação de uma espécie de abrigo acolhedor, extensivo. Um verdadeiro relacionamento afetivo (seja entre casais, seja entre amigos) é aquele que, ao se realizar na plenitude da presença física e espiritual, se renova, ensejando assim seus ciclos demarcáveis pelos anos em que a casa e as intimidades são compartilhadas e vividas sem que haja censura, falsificação ou resistência. Renova-se não sob o peso introvertido daquilo que se encerra e se volta sobre si mesmo, mas como abertura.

Seja numa amizade, seja entre casais, a força de durabilidade da admiração é marcada pela capacidade de reparação dos desequilíbrios e pela impressão acalorada de que nem mesmo o bastante ainda é suficiente; pelo simples fato de que há uma homeostase íntima nas coisas que se amam, a saber: a disponibilidade de, em sacrifício de seu próprio conforto, se revelar em sua plena nudez ou totalidade; na disponibilidade de se desabrigar e se pôr para fora de si.

Dito tudo isto já se percebe que, quem quer que ingresse na caixa do sintônico afetivo (aquela que podemos esquematizar para compreender a mudança de comportamento das pessoas ao redor), ingressa já com o seguinte condicionante: só nos afeta e só afetamos, efetivamente, as pessoas que estão próximas; pessoas que, em algum momento, abrigamos (consciente ou inconscientemente) sob a pele de nossas expectativas. Quem quer que, em algum momento, impressionamos ou nos impressionou (sem que soubéssemos) com o ímã do carisma, passou a gravitar ao redor de nossa esfera de realidade pessoal, afinal aquilo que nos é distante não gira ao redor da força gravitacional daquilo que nos afeta e, logo, é incapaz de transferir ou depositar expectativas. Só o que está próximo nos fere ou nos acalenta pelo peso daquilo que sobrecarregamos. Daí a pergunta que se segue: ora, mas o que acontece se as expectativas não forem totalizadas e consumadas em ciclos sintônicos bem-sucedidos; o que explica, em parte, a distância de pessoas que conhecíamos e mudaram conosco? Eis que A enseja a ligeira passagem para B, cuja alegria vivaz do azul (como cor inssuprimível das manhãs) cede à bílis amarela; aquela da melancolia; aquela dos afetos represados.

As pessoas ou os grupos se separam porque, em algum momento, houve um desajuste entre expectativa e desempenho ou entre anseio e a sua realização, e a própria separação é o meio encontrado para que barreiras e limites sejam interpostas sob pena de indeterminar e confundir aqueles que se recusam. Quem quer que, ao depositar a esperança de encontrar (em um livro lacrado e imediatamente próximo) uma série de respostas que, tão logo aberto, prove o contrário, fechará tal livro com uma aguçada frustração. Este frustrado estado de quem se decepcionou, move a caixa dos sintônicos do ponto A para B, e fazendo-o, encerra de modo intrusivo uma expectativa prévia. Portanto, a decepção prova o princípio anteriormente apontado, segundo o qual só estimamos e nos frustramos àquilo que, próximo, é tátil ou visível às nossas impressões; e, mais do que isso, àquilo que mantemos à distância pelo medo latente da indeterminação, ou seja, de nos confundirmos com aquilo que recusamos.

Em outras palavras, e em resposta à pergunta: por que fulano de tal (antes tão próximo) mudou radicalmente comigo (?) – se segue a seguinte resposta: uma tal mudança decorre de um excesso de expectativa que, não satisfeita em um tempo específico, não se totalizou, e não se totalizando, inviabilizou a partilha mútua de uma pele íntima; de um plano de cumplicidade. A admiração cede à antipatia e à recusa tão logo aquela necessidade inconsciente de ser abraçado não encontre um abrigo naquele portador de um abraço ideal, e a denegação desse abraço ocupa um vazio que perdura e ecoa através da distância. Por vezes, uma simples palavra; a cumplicidade de um olhar acolhedor – quando não satisfeitos – pode desencadear (à maneira de uma chave) a mudança substancial da caixa dos sintônicos, cuja consequência queda em seu par complementar: o ódio dissimulado e a necessidade física da distância, que nada mais exprime que o receio inconsciente de se confundir (em proximidade) com aquilo que se odeia. Manter distância, neste caso, quer dizer: como a expectativa não foi satisfeita, estar longe suplanta (em mim) aquilo que nos assemelha.

De modo ainda bem mais didático se pode considerar que o poder impressivo ou a capacidade de impressionar uma pessoa decorre da espontaneidade vital do carisma, cuja força gravitacional atrai e faz orbitar tudo o que está, relativamente, próximo. Quando essa força é capaz de se renovar, regularmente, a admiração se conserva e perdura, disponibilizando assim a habitação de uma segunda pele; de uma camada epidérmica de cumplicidade, amor e amizade. Entretanto, tão logo seja incapaz de permear aqueles que estão próximos, e cujas expectativas se saturaram, desabrigando não uma morada, mas um sepulcro de acusações imorredouras, o que surge (com o apelo fúnebre que isso remete) é a recusa, que, de certa feita, leva aquele que se frustrou a reviver continuamente o passado (que não se totalizou como desejo e satisfação permanentes) como um gozo interrompido.

Se a saída de A para B decorre de uma expectativa que, entre pessoas próximas, não se consumou e nem se renovou como um sintônico pessoal, o que se segue entre B e C? O impulso vital que mobiliza a mudança entre ambos se dá por meio de uma intensificação intrusiva daquela rejeição anterior, ou seja, de quem – ao se demorar no ocorrido – se consome demoradamente com o episódio prévio da insatisfação. Incapaz de dilui-lo ou encerrá-lo com a proximidade de outras pessoas, o sujeito revive a cena da rejeição e consequente insatisfação como quem, ao desarquivar velhas fotos em um sótão, sentisse certo prazer nesse processo de exumação da memória. Mobilizando-se em busca da reminiscência do desastre, o indivíduo sente um prazer inesperado no ato que, insuspeitadamente, lhe traz dor, e cujo sintoma (sem que saiba) aponta para uma antinomia, aliás, para uma contradição: a de quem, como o masoquista, vê naquele que o esbofeteia, uma divindade inalcançável.

Quando B se move até C, e o amarelo da bílis cede à neutralidade branca a que a cor alude, o que se observa é uma paralisia dos afetos e seu estado psíquico consequente, a saber: a indiferença. Quando uma expectativa não se realiza a contento o que surge a reboque é a frustração, mas uma frustração que não se dilui ou é incorporada ao longo de uma vida (na partilha de outras amizades reparadoras) envolve o seu portador em um receio prévio de que, se aberto e expansivo a novos encontros (como o fora quando em A), a possibilidade de uma nova decepção é capaz de reavivar uma série de desapontamentos há muito latentes. Observa-se que é exatamente por esse receio que aquele que se decepcionou (em A) tende a manter distância daquele que o decepcionou, pois a proximidade interpõe um espelho de si mesmo naquilo que há muito admirava.

Em razão daquela frustração anterior (em certos casos psicóticos, continuamente, visitada como um prazer secreto) B dá abrigo a C, e o que antes era expectativa se encerra como indiferença. Em outras palavras, os indiferentes (em C) são pessoas que, após a intensa expectativa não realizada (direcionada a alguém que as frustrou), devolvem ao mundo aquilo que, marcantemente, fora denegado – a saber: o contato físico da proximidade. Tal estado é correspondente ao de quem diz: Se não fui feliz, ninguém mais pode ser; estado que aponta para uma espécie de distância permanente das expectativas e contatos humanos. Dada a estima e o afeto anterior aniquilados, o indiferente subtrai aquela felicidade prévia (da camada epidérmica dos amores e das amizades) à impossibilidade, e negando-a em si mesmo, projeta e transfere ao mundo a sua porção de ausência.

Qualquer pessoa minimamente treinada nessa distinção emocional, capaz de compreender as pessoas próximas, talvez as perceba segundo o seguinte critério: as pessoas mais espontâneas e naturais transmitem algo tão bom que, excedendo, é capaz de suspender a passagem das horas. Uma acolhida e consequente acolhimento de quem é naturalmente espontâneo integra tudo o que existe e reabilita-o em uma espécie de senso de eternidade ou de permanência, de tal sorte que os que estão imediatamente próximos necessitam, organicamente, de tal companhia. Isto prova o impulso vital dos que, em A, marcam a nossa escala das afinidades e amabilidade. Como as expectativas são permanentemente renovadas, os que estão em A se sentem confortáveis e se demoram. Entretanto, quem quer que eleve as expectativas e não as veja em graus de correspondência com a realidade (comum entre aqueles, cujos pais foram ausentes ao longo da vida), moverá a caixa até B, e fazendo-o, ensejará um senso de frustração que, se intensificado, pode eventualmente levar a uma obsessão psicótica; à maneira de quem estima as cinzas fugidias do passado e se distancia do mundo através das janelas da fantasia. No mais das vezes, quem se demora em B (e não se cura a tempo) tende a ir para C, e assim (pelas decepções prévias) torna opaca a realidade ao redor, anula-a, estimando os contatos humanos (apenas no nível do necessário) com o peso e a neutralidade evasiva da indiferença. Logo, o que se observa de A até C é o fato de que, à proporção que se tornam mais intensos e eufóricos, aquele amor e aquela admiração tendem a crescer não como uma realidade exterior (com seu conjunto de gestos expansivos), mas em cristalizar e sulcar o espaço íntimo da própria interioridade. Sim, a frustração e a indiferença são expressões de um amor e admiração que, por excesso de estima e expectativa, não se exteriorizam, e cujo recuo para dentro de si tende a inflacionar o ego (cada vez mais próximo ou presente) em detrimento das demais pessoas (cada vez mais distantes).

Frustrado e desapontado, o indivíduo tende à indiferença, cuja demora nesse estado psicológico revela um conjunto de expectativas de quem, ao neutralizar os demais, as recolhe e as concentra em si mesmo. Dar voz e realidade a figuras imaginárias, neste caso, se torna um ideal didático para esse nível psicopatológico da indiferença. Voltando as expectativas para si (como se um tal recuo não o sujeitasse aos maiores riscos e vulnerabilidade a doenças), o indiferente briga consigo mesmo e disputa a camada epidérmica de cumplicidade e satisfação que apenas uma outra pessoa poderia lhe disponibilizar. A depender da vitalidade de tal impulso em âmbito interior, a necessidade inconsciente de compensar seu lado faltante (correspondente àquela pessoa que o abandonou em A) o levará ou à paulatina mortificação (constante naqueles que se deprimem e, em casos extremos, se mutilam), ou à compensação neurótica que, em certos casos, o vestirá com uma supraimportância maníaca à altura artificiosa dos que, em A, se portam com indefectível segurança e expressividade.

A indiferença de C tende a D, quando as exigências sociais reclamam deste sujeito (em um instante em que convive com outras pessoas) as suas impressões ou opiniões sobre os episódios que afetam a vida pública ou a vida em geral. Portanto, o indiferente só sai de seu casulo (réplica intrusiva da camada epidérmica perdida) quando as circunstâncias trazidas pelo trabalho, pela vizinhança; pelos encontros e desencontros da vida cotidiana assim o exigem. Perguntas como: E então, qual é a sua opinião sobre aquele político? És a favor da descriminalização das drogas? Do aborto? – retiram-no à força de sua cripta de alheamento.

A fala pública colocará o indiferente numa incômoda necessidade de saída de si que, a contragosto, o punirá pela perda de cumplicidade daqueles que o rodeavam entusiasticamente em A. Em D, o indiferente tenderá a alternar o silêncio evasivo (próprio de sua clausura interior); um pessimismo (correspondente à sua mortificação) ou o cinismo (que, por via da compensação, o vestirá em uma supraimportância maníaca). O silêncio lhe trará alguns segundos de intranquilidade, sobretudo, pelo tom provocador da maioria que o atormenta ao redor; do mesmo modo que o pessimismo que, por certo, o lançará contra o otimismo eventual da maioria. Entretanto, nada lustrará melhor seu brio e vaidade que o cinismo; aquela parcela de indiferença que se projeta (seja em uma conversa, seja em atos) como uma versão escorregadia do caráter; entre a malícia e a ironia. Revestindo a maldade com o verniz da ironia, o cínico (aquele que Oscar Wilde caracterizou como o que sabe o preço de tudo, mas não o seu valor) eleva a indiferença ao nível perverso da maledicência.

Projetando-se (por via das compensações daquilo que perdeu em A) como alguém cujos méritos submetem o mundo, que, neste caso, lhe deve satisfações, o cínico se vê a uma altura de quem está plenamente habilitado e de posse do martelo da História; aquele de cuja isenção se pode esperar a justiça, a piedade, a lealdade e consequente grandeza sobre-humana. Sendo muito mais danoso que o indiferente, pois decalca artificiosamente o indivíduo espontâneo em A, o cínico só se volta para situações em que a sua suposta grandeza se pode afirmar, a exemplo de quem (em rede social) só se presta a comentar, repostar e incentivar campanhas em benefícios de pessoas em prejuízo material ou espiritual: pobres, desassistidos, desesperançados, doentes, injustiçados ou desamparados em geral. Em contrapartida, milionários; homens ou mulheres bem-sucedidos não lhe desperta um mínimo segundo de atenção pelo simples fato de que, em posição que contrasta e confronta a sua suposta grandeza, há espaço de menos na esfera piramidal das coisas importantes; esfera que (em grau de importância) lhe pertence por mérito.

O cínico é aquele indivíduo que, mal disfarçando a sua total indiferença para com o mundo, abre as portas de sua morada interior apenas para o ato simultâneo de, ao se voltar ao pequenino, evidenciar para si mesmo a sua grandeza, valendo-se para isso dos gestos, palavras e níveis de espontaneidade manifestas por aquela pessoa que, anteriormente em A, lhe virou as costas exatamente por mensurar e desnudar o seu desvio de caráter.

A continuar…

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