Arquitetando

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Por Ivan Pessoa

 

Em arquitetura usualmente se afirma que a função das cariátides (figuras femininas esculpidas em um edifício) e atlantes (figuras masculinas), serve tão somente à sustentação das cornijas, arcos ou entablamentos. Segundo W.H.Plommer, as cariátides e atlantes podem ter sido um sinal de advertência da derrota persa nas Guerras Médicas e dos espartanos no Peloponeso, respectivamente. Deste modo, cariátides e atlantes são a versão antropomórfica de escravos punidos, cuja vergonha eterna pela derrota em uma guerra particular, se manifesta pela extenuante sustentação de um edifício.

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Por Ivan Pessoa

(Estátua equestre do monarca Dom José I, reconstrutor da cidade de Lisboa quando do terremoto, em 1755. Obra do escultor Machado de Castro.) À maneira dessa estátua, que ocupa seu devido lugar por uma necessidade de reverência histórica, recordo da também apoteótica estátua equestre de Carlos III no Paseo da Reforma, que tive oportunidade de ver e apreciar na Cidade do México. Diferentemente da estátua de D.José I, a do outro déspota, Carlos III, deixa escapar um insuspeitável cinismo, afinal nela se pode ler: “Este monumento está aqui apenas pelo seu valor cultural.” Segundo consta, as reformas de Carlos III teriam custado mais mortos que as convulsões mexicanas de então.

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Por Ivan Pessoa

Há um rumor histórico que alega que a volta ao classicismo (em arquitetura) se deu em decorrência das constantes queixas de Madame de Pompadour ao seu irmão, o nobre diretor geral dos edifícios reais, Abel-François Poisson, doravante Marquês de Marigny. Além da acolhida de Abel Poisson aos reclames de Madame de Pompadour, coicindentemente em 1756, as cidades de Pompeia e Herculano seriam escavadas; descoberta que aguçaria o fervor neoclassicista na Europa. Deste modo, os arquitetos franceses abandonariam o modelo vigente (em pleno rococó) voltando-se ao cânone greco-romano. Adotando-o de maneira mui particular, Marquês de Pombal e sua equipe de arquitetos fariam do neoclassicismo não apenas um modelo de deferência à antiguidade, mas uma defesa dos valores perenes; constantes na arquitetura clássica. Nesta foto (na Praça do Comércio/ Lisboa) se vê algo inusitado, que preserva toda a herança monumental clássica: o torso de um soldado à maneira de um ‘kouros‘ grego. Como um jovem guardião, o ‘kouros‘ vela o edifício corajosamente. Em linhas gerais, qual seria a maior lição da arquitetura clássica senão a ideia de que a edificação tem um fundo antropomórfico e que, portanto, colunas e vigas são muito mais do que aparentam ser?

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Por Ivan Pessoa

Observando mais detidamente o Arco da Rua Augusta (Lisboa): sua escultura e suas colunas compósitas, pude intuir algo que não observara de imediato. A propósito, nada me chamou mais atenção que a figura de Kleos (Glória) coroando o Gênio e o Valor, escultura do francês Anatole Calmels. Além do louro (‘Daphne’) que era utilizado nas cerimônias de culto a Apolo como um símbolo de triunfo, nas terras austeras de Esparta; além disso a disposição simbólica da estátua (como o Portal da Lisboa reconstruída) deixa escapar uma tradição cara aos antigos povos do Oriente Médio (assírios, persas e hititas). Qual tradição? O hábito de promover nos portais das cidades, a edificação apoteótica de duas feras – uma de cada lado das ombreiras – com o objetivo ritual de proteção tanto para aqueles que lá residiam, como para aqueles que chegavam. Essas feras podiam ser leões, esfinges ou até mesmo deuses, como entre os hititas. Elevando-se acima do plano médio da cidade, a mera sustentação monumental de uma viga entalhada por seres mitológicos simétricos – desde esses antigos povos – insinua a representação apotropaica do ingresso condicional à cidade diante da qual o estrangeiro é convidado a se identificar. ‘Decifra-me ou te devoro’ é o longo eco dessa descoberta – entre o temor e a aventura – abafada (cada vez mais) pela balbúrdia dos selfies e guias de turismo.

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Por Ivan Pessoa

 

Ainda que a origem das colunas seja controversa, credita-se seu surgimento à tentativa dos sumérios de tornar os pilares dos templos mais próximos – em esplendor – aos feixes de juncos e às palmeiras; tomados como sinônimos de renascimento e imortalidade. O usufruto dessa cosmovisão suméria é, segundo Waldemar Deonna (‘Dédale ou la statue de la Grèce archaique‘, 1931) aprimorada com os egípcios (construtores das proto-colunas: ‘djeds‘) e legada aos gregos e romanos, que passaram a encimar suas estátuas sobre o esplendor incorrupto das colunas. Acerca disso Plínio, o Velho escreveu: “O uso de colunas é para elevar (uma estátua) acima dos outros mortais.” (‘História natural‘, XXXVI). Uma visita à estátua de Marquês de Pombal é uma súbita lição de história; àquilo que a história de Portugal elegeu sub-repticiamente como uma coluna incorrupta.

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Por Ivan Pessoa

 

Anotações perante a estátua de Atenas na Praça do Marquês de Pombal

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“Segundo Vitrúvio, um traço constitutivo da arquitetura – como téchne/ ars/ arte – é a transmissão de valores universais perenemente válidos, apreensíveis por meio da ‘eurritmia‘, ou seja, da harmonia comensurável; do deleite imediato entre o todo e suas partes. O deleite – decorrente da eurritmia – é proporcional à ordem interior; ao quanto de Beleza a alma dispõe. Em linhas gerais, tal eurritmia decorre do anseio humano por ordem, ou mais especificamente, da tentativa de permanência em meio à mudança, que os antigos consagradamente dimensionaram com as palavras: ‘rhytmos‘, ‘regula‘, ‘kanon’, ‘metron‘. A capacidade humana de medir, mensurar, apreciar e cultivar o Belo só é possível, segundo Vitrúvio, por meio do ‘statio‘; sendo ‘statio‘ o culto interior dispensado ao Bem e à própria arte. Para os especialistas, a palavra grega ‘statio‘ – como deferência e culto – surge a partir da palavra ‘thematismos‘, que por sua vez é um derivado irregular em menção à Themis e, portanto, da obediência às leis divinas. Passados uns séculos, apropriando-a, os romanos traduziram ‘statio‘ por ‘decoro’, daí surgindo: decoração e decoroso. Em razão dessa longa marcha semântica, mas com fundamentação distinta, é que Northorp Frye no monumental ‘Anatomia da Crítica‘, faz uso do ‘decoro‘ como: “a voz ética do poeta modificada pela voz do personagem” que, por culto à sua arte, fala através dela. A bem da verdade, e de modo extensivo – de Vitrúvio a Frye – se pode observar que o ‘decoro‘ é a voz do criador; a medida confessional de sua ordem interior que, quando plenamente realizada, se traduz em obra. O que permanece, deste modo, é uma fala íntima e silenciosa prestes a se anunciar. Apreciá-la requer ordem interior, cujo espelhamento é a admiração, o encantamento, aliás, a eurritmia. “

Lisboa (31/03/2017)

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Por Ivan Pessoa

Um dos elementos arquitetônicos que mais salta aos olhos, em plena Praça do Marquês de Pombal, é este atlante em forçosa retirada. Como se estivesse prestes a se levantar do jugo do monumento, sua dor nos faz recordar não apenas da observação de Lessing – para quem em uma escultura uma cavidade gera os efeitos mais desagradáveis possíveis no espectador – como do mito da Atlântida e dos gigantes atlantes; mito conservado no imaginário mediterrâneo pela recepção árabe a Platão. No tocante ao mito de Atlântida vale considerar que sua conservação, bem como parte da tradição ocidental, decorreu quando da chegada dos muçulmanos à Ibéria (Córdova), mais especificamente com o último Califa da dinastia Omíada, Abd Al-Rahman I. Batizando a Penísula Ibérica de ‘Jazirat al-Ândalus‘ ou ‘a Ilha de al-Ândalus‘, o termo árabe nada mais seria que uma ligeira adaptação de: ‘Ilha do Atlântico‘ ou ‘Atlântida‘. Por certo, se observa que a Península Ibérica, avistada como uma ilha pelos muçulmanos que vinham da costa africana e do Golfo Pérsico, fora associada de pronto ao lugar idílico de ninfas e seres mitológicos, portanto, como o desconhecido setentrional.

 

 

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